terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Ano Que o Mundo Esqueceu



Em primeiro lugar, sim, eu sei que o Maddox fez um artigo sobre Contra III ("The War the World Forgot") com o título parecido com o deste post. Não enche o saco.

Descartado o leitor hipotético pentelho, divagarei sobre O Ano do Dragão. Grandes homens, como Ramses II, Genghis Khan, Alexandre e Michael Cimino, não têm medo de levar a cabo visões ambiciosas. Veja O Portal do Paraíso, por exemplo. É uma obra que a maioria das pessoas só lembra como "aquele filme horrível que faliu a United Artists". Injustamente: qualquer pessoa que goste de cinema e tenha visto Heaven's Gate ou Final Cut sabe que o filme: 1) não é horrível (sério, só aquela cena de homicídio no inicio, com o vulto atrás do lençol, e a apoteótica batalha final já excluem o rótulo de "filme horrível"); e 2) não "faliu" ninguém (como demonstra o documentário, a Transamerica, conglomerado proprietário da UA, recobrou o prejuízo de Heaven's Gate após excruciantes 02 [dois] dias). Mas, enfim, durante as filmagens de Portal do Paraíso, Cimino percebeu que a distância entre os prédios dos sets de uma rua estava equivocada e resolveu o problema mandando destruir tudo e reconstruir da estaca zero, a custo US$ 1.2 milhões. Aprendendo com seus erros, ele percebeu (pelo menos é assim que eu imagino) que tinha sido desleixado em Heaven's Gate, pois os sets, embora feitos segundo suas especificações, estavam ao ar livre. Assim, ao fazer O Ano do Dragão, ele decidiu que ia recriar toda Nova York dentro do estúdio. E sua tática foi tão convincente que muitas pessoas não acreditaram que as externas não tinham sido filmadas in loco. Sabe quem era um dessas pessoas? Stanley Kubrick. Sério. Cimino teve dificuldades em convencer Stanley Kubrick (que era, releva mencionar, natural de New York e a epítome do perfeccionismo no cinema) de que, na maior parte do tempo, usou sets no lugar da New York verdadeira.

Mas, é claro, excelência técnica não é, necessariamente, sinônimo de um bom filme. Cumpre indagar, portanto, se O Ano do Dragão é um bom filme.

É! Eu juro que é!
Começamos com uma série de incidentes que demonstram que a coisa vai ficar feia em Chinatown. O primeiro deles é o homicídio de Jackie Wong (conforme imagem acima), pilar da comunidade e chefe das tríades/máfia chinesa. Para solucionar a bagaceira, o Capitão Stanley White (Mickey Rourke) o "mais condecorado policial de Nova York" é colocado no comando da polícia de Chinatown. "Nosso herói", contudo, tem alguns traços de personalidade que fazem o espectador se perguntar como tal indivíduo foi, exatamente, "condecorado". Traços que fariam o Popeye Doyle exclamar, horrorizado: "Cara! Pega leve!" Além de truculento, desleixado, bocão e destemperado, White é um racista assumido que odeia asiáticos (por causa de suas experiências no Vietnã; para White, vietnamitas, tailandeses, chineses e japoneses são "tudo a mesma coisa)". O capitão inicia essa nova fase de sua vida profissional fazendo o baculejo em ponto de jogatina mantido por Harry Yung (que, tudo indica, será o sucessor de Wong) e, até então, tolerado pela polícia. Em seguida, invade o escritório de Yung. Encontrando o indivíduo cercado de mafiosos chineses, White aduz de forma bastante concisa as novas regras: não vai querer saber de violência nas ruas, os patriarcas das tríades vão ter que dar um jeito no problema, todos os "acordos" até então firmados entre a polícia e a máfia chinesa estão rescindidos unilateralmente e, se a coisa não andar exatamente da maneira que espera, White vai prender e arrebentar todo mundo. Because fuck you. All this thousand-year-old stuff's a lot of shit to me. This is America you're living in and it`s 200 years old, so you better get your clocks fixed. É assim, em essência, que o capitão manifesta seu desapreço por asiáticos e a nova metodologia de trabalho.
E é assim, totalmente cool, que ele explica como a banda vai tocar doravante.
Lembrado de que ele deveria simplesmente sentar a pancada na "juventude transviada de Chinatown" por seu colega, Louis Bukowski e pelo comissário de polícia, e questionado sobre a sensatez das novas táticas (já que Chinatown é uma área relativamente tranquila graças aos "acordos" entre a polícia e a mafia chinesa), White explica que 1) as tríades são as maiores importadoras de heroína do país; 2) não pediu pelo emprego, mas, já que lhe deram, não vai fazer corpo mole; e 3) parafraseando, se alguém estiver achando ruim, pode ir se arrombar, porque 4) Fuck you, that is why.

Abro parênteses para tomar partido do racista. Esse papo de que "é nossa tradição" é o argumento mais manjado para justificar práticas inaceitáveis. A título de exemplo, passei boa parte de minha vida adulta trabalhando num local onde levar meninas de 13, 14 anos pra cama não era só aceitável, mas meio que considerado uma demonstração de virilidade. E eu, claro, aderi à "tradição"? Não, e você merece uma porrada na cara só por congitar. Isso é nojento, cara. É ilegal, imoral, ultrajante e a história de que "é uma tradição nossa" não pesa porra nenhuma. Há um termo jurídico para isso e tal termo é "estupro presumido". Tradição é o caralho. Eu, quando bebê, também seguia uma popular tradição: babar e cagar nas fraldas. Foi só, entretanto, descobrir alternativas mais civilizadas (usar o vaso e fechar a boca), que abadonei tais "tradições".

Após algmas cenas de desenvolvimento de personagem (envolvendo o casamento de White, que não está indo muito bem porque a família do rapaz fica em segundo plano e, toda a vez que a esposa está ovulando, ele "esquece" de comparecer, deixando a suspeita de que não está muito empolgado em entrar para o clube dos genitores).

Problemas pessoais à parte, Stanley White vai encontrar a jornalista Tracy Tzu, no restaurante do Harry Yung, para propor uma parceria: ele fornece informações "off the record" e ela faz exposés sobre os vícios de Chinatown, abrindo a deixa para White contar com o tribunal da opinião pública e e avançar com suas investigações, desmontando, pedaço por pedaço, o crime organizado chinês. Por que a mocinha? Porque ela é asiática e, ao contrário do que ocorreria se colocassem uma repórter ariana para fazer as reportagens, a coisa não vai ficar parecendo racismo. A mocinha, é claro, tem princípios e não vai transformar o quarto poder em capacho de um policial fascista, ainda mais quando...

Um bando de moleques chineses, armados, entra no restaurante e barbariza geral.

Cacete! Senhoras e senhoras, meninos e meninas, é assim que se filma um tiroteio! Num segundo, todo mundo está numa boa, comendo e conversando e, de repente...

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O balaço come solto, o pânico é geral, o herói não pestaneja, saca sua arma e entra na ação, um marginal leva um tiro no pé e White sai perseguindo os facínoras e sabe o que é mais fantástico?  Em momento algum deixamos de entender o que está se passando. O caos é filmando com nitidez e precisão cirúrgica, o que me leva mais uma vez a criticar o "padrão" das cenas de ação de hoje: cara, não trema a porra da câmera. Faça como os profissionais fazem. Como o Cimino faz. A cena me lembra o clímax do Scarface do DePalma: trata-se de um holocausto balístico, com tiros, sangue e explosões pra todos os lados e, em momento algum o espectador perde o fio da meada.

A bagaceira, é claro, leva os chefões das tríades a se reunírem para discutir como resolver a esculhambação vigente. Joey Tai (John Lone, parecendo ter uns quinze anos de idade e cool como um vilão de filme de John Woo) aproveita o ensejo para dizer que o grupo precisa de uma liderança mais enérgica (a dele, claro) que os atentados a Jackie Wong e Harry Yung são coisa de um tal Whiter Powder Ma (o apelido não deixa muita margem a dúvidas a respeito de qual é o bem de comércio do indivíduo) e que mudanças radicais se fazem necessárias - primeiro, retaliar e matar os pistoleiros respnsáveis pelo atentado no restaurante; segundo, mandar a Costa Nostra ir à merda e se livrar do intermédio desta na distribuição da heroína e, claro, dar cabo de White Powder Ma e viajar para a Tailândia, a fim de tranquilizar o fornecedor, Ban Sung.

E ele consegue ser tão cool quanto o Mickey Rourke ao expor seu plano de ação
É sério: fica difícil assistir à interpretação de John Lone sem equipará-lo a um Michael Corleone asiático. O moleque assume o comando com a boa vontade dos velhinhos, tem um plano de ação, pretende executá-lo já e seu plano consiste em atacar completamente o status quo do crime organizado. E ele não demonstra o menor receio de que a idéia dê errado. E nem devia, porque o plano é muito bom.

Enquanto isso, na delegacia, Mickey Rourke está submetendo seus superiores a uma intensa sessão de "I Told You So" e, tendo demonstrado que suas "teorias" procedem, consegue autorização para infiltrar um policial entre o crime organiado chinês.

Entrementes, os responsáveis pelo tiroteiro no restaurante estão na moita, esperando se recuperar de seus ferimentos, quando são visitados por... Joey Tai. Provando que é um supervilão, foi Tai o responsável pelo morte de Jackie Wong e os tiroteios no restaurente de Harry Yung. Tudo é uma conspiração para consolidar seu poder e deixar a velharada a escanteio. Como o Dr. Evil, a organização de Tai não vai tolerar fracassos, de modo que os atiradores são, rapidamente, executados.

Após encontrar os presuntos, White percebe o que está acontecendo e resolve ter uma conversa "de homem para homem" com Joey Tai. O chefão chinês propõe um acordo: White faz vista grossa para certas coisas, Tai entrega bandidos de baixa patente para o capitão mostrar serviço e, depois, após a aposentadoria, pode arranjar uns trabalhos extremamente lucrativos para o policial. Este, com sua delicadeza habitual, manda o jovem "empresário" à merda, diz que não está à venda e promete enterrá-lo. E aí a coisa parte pra truculência.

White organiza uma série de batidas, com a cobertura de sua nova namoradinha, Tracy Tzu (que ele, apesar de todo o preconceito contra os fiendish chinese, já está comendo). Joey Tai vai para a Tailândia, resolver os negócios com Ban Sung, mas, emputecido com a intransigência do novo xerife de Chinatown, resolve adotar uma drástica medida para resolver o problema. A solução resulta em outro momento fabulosamente WTF: White e sua esposa, Connie, estão discutindo a relação, obviamente abalada após a "modelo asiática 2.0" que o policial arranjou. Acusações são lançadas, lágrimas são derramadas e...

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Fico sem palavras para descrever como a direção do Cimino nessa cena é badass: passamos de um momento dramático para uma tentativa de homicídio, a morte da esposa do protagonista e uma perseguição e tiroteio vibrantes. E, ao mesmo tempo, a violência é mostrada sem nenhum glamour e os efeitos dos tirambaços são exibidos com um realismo que o Cimino, ao mesmo tempo em que orquestra uma sequência magistral de ação, parece comentar o quanto a violência, na vida real, não é uma coisa bonita. A sequência consegue ser, simultaneamente, um primor de cinema de ação e um cala-boca para quem acha que filmes trivializam a violência.

Enquanto isso, Joey Tai está Tailândia, determinado a travar um novo modelo de negócios com Ban Sung. Mostrando que não é homem de frescuras, o moleque avança floresta adentro até chegar ao inner sanctum do drug lord. Ban Sung, aparentemente, está convencido de que é mais negócio fechar transações com White Powder Ma (sério, esse cara precisa de alguém cuidando da RP; como caralho alguém vai explicar para a polícia que "Pó Branco" em seu apelido é uma piada com talco?) Enfim, Joey Tai, já prevendo esse tipo de empecilho, revela que qualquer negócio com WPM é inviável:

Como diria Herbert West, quem vai levar uma cabeça decapitada a sério?
Tudo fica às mil maravilhas, Tai e o tailandês firmam um nova compra e venda de heroína e Joey volta para os EUA alegre e lampeiro. A alegria dura pouco, pois a velharada está desgostosa com a tentativa malsucedida de executar Stanley White e começa a questionar a liderança do jovem.

Outra pessoa desgostosa, evidentemente, é Stanley White, que ataca Joey Tai em um de seus clubes e uma troca de porradas acaba evoluindo para troca de tiros no meio de Chinatown. Agora, com o nariz quebrado e completamente sem moral, Joey tenta se redimir pelo caos provocado, comprometendo-se a receber um carregamento de Big H pessoalmente. A hora e o local chegam ao conhecimento de White através de seu infiltrado, que é descoberto e saturado com um rajada de balas, mas acaba revelando as últimas informações ao chefe antes de morrer. Tai, ainda sem noção do tipo de sujeito que é seu arquiinimigo, resolve dissuadi-lo de meter o bedelho mandando uns moleques estuprarem sua namoradinha. A reação, claro, não é a esperada, mas veja a porra do clímax do filme para descobrir o que acontece. Só posso dizer que Stanley White pode ser destemperado, racista, irresponsável e troglodita, mas o homem tem colhões e não vai dar pra trás, com ou sem aval de seus superiores. E Joey Tai também não vai dar para trás, de modo que o pau vai comer.

Já entrei em detalhes demais sobre a trama do filme, de modo que só me resta recomendá-lo com toda a veemência. O Ano do Dragão é um filme policial que merece estar lado a lado de outras preciosidades como Bullitt, Operação França, Viver e Morrer em LA e Manhunter (que, ironicamente, teve o título alterado porque os produtores náo queriam associar Dragão Vermelho com o filme ora analisado). Temos um protagonista mais cheio de defeitos que qualquer "herói" do James Ellroy, mas interpretado por um Mickey Rourke no auge do cool; um vilão de intelecto e carisma que deixam o herói comendo poeira (sério, é impossível não comparar o Joey Tai de John Lone com o Michael Corleone do Pacino), uma direção que não deixa dúvidas quanto ao domínio de Michael Cimino sobre seu ofício, uma reconstituição da Nova York em estúdio que convence plenamente e cenas de ação filmadas com a maestria que só o homem que dirigiu o quebra-pau final de Heaven's Gate é capaz de levar a cabo. E este filme não é considerado um clássico? Se depender de mim, ele vai ser. Leitores/Amigos Imaginários, comprem o DVD deste filme. Ao contrário de certas pessoas (náo vou citar nomes, mas começa com "R" e termina com "ubens Ewald Filho"), aconselho que comprem o DVD original e assistam, de preferência, num home theater com TV de 42 polegadas (se você não tiver, não seja orgulhoso - faça como Stanley White e se instale na casa de um amigo que tem home theater). E meus argumentos não são os covardes "não vejam cópia pirata porque a imagem vai ser ruim e as legendas vão ser incompreensíveis" (embora isso seja verdade) ou "filmes piratas enchem o bolso do crime organizado" (mentira deslavada). Meu argumento é simples: comprem e vejam o DVD original porque filmes fodásticos merecem ser pagos. E reconhecidos como as obras de arte que são.

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