Escrever sobre "Heaven's Gate", o épico que afundou a United Artists e arruinou a então promissora carreira de Michael Cimino, exigiria um post grande demais até para meus padrões, de modo que não sei se vou chegar a fazê-lo em detalhes um dia, mesmo porque até hoje não formei uma opinião definitiva sobre a obra. Tendo, em síntese, a achar que o filme, por um lado, é um triunfo técnico e uma demonstração de domínio da arte cinematográfica em sua dimensão puramente visual e, por outro, a considerá-lo um fracasso narrativo.
Seja como for, sempre me emputeceu o fato de que o filme, ao contrário de outras obras infames, praticamente não foi visto por ninguém, embora seja quase universalmente desprezado com uma porcaria. Meu conselho (que ninguém solicitou, mas estou dando assim mesmo, porque o blog é meu e eu digo o que quiser) portanto, é o seguinte: deixe de ser maria-vai-com-as-outras e assista à porra do filme antes de proferir qualquer juízo. Seja qual for sua opinião, é inegável que a obra de Cimino foi um marco na história do cinema.
Lamentavelmente, "Heaven's Gate" foi um marco porque serviu de desculpa para transformar a Hollywood transgressora dos anos 70 na bosta pasteurizada que ela, essencialmente, é hoje. O que nos leva ao tópico deste post: "Final Cut: The Making and Unmaking of 'Heaven's Gate'", um fantástico documentário sobre a produção do filme, como a coisa saiu de controle, como os defeitos da obra e os prejuízos que esta gerou foram exagerados muito além do razoável pela mídia e resultaram no fim da United Artists, transformaram Cimino num pária e serviram de pretexto para a indústria de cinema americana ser monopolizada por um bando de executivos e contadores retardados que não fazem a menor idéia do que é qualidade. É, também, um retrato fascinante da personalidade de Cimino. Pode-se dizer tudo sobre o homem: que ele era um porra-louca, um megalomaníaco e um desequilibrado arrogante sem a menor noção de razoabilidade. Uma coisa, porém, é inegável: o homem era (e continua sendo), sem dúvida, um Artista com "A" maiúsculo, com um domínio ímpar de seu ofício, uma visão única e convicções inflexíveis. Era, enfim, o tipo de cineasta que, salvo raríssimas excessões, hoje não consegue um orçamento decente para dirigir um filme, a não ser que seus últimos dez filmes tenham rendido o quíntuplo do que custaram. Por tudo isso, é um indivíduo que, apesar de seus inúmeros defeitos (que o documentário também exibe sem frescuras), merece imenso respeito.
Final Cut (assim como Heaven's Gate), é, portanto, filme obrigatório para qualquer amante do cinema. E está disponível de graça no youtube, dividido em oito partes. Portanto, vá ver o documentário agora. Só de estímulo, eis a primeira parte:
Para ir direto ao ponto, acho comunistas/marxistas/marxista-leninistas/etc (até hoje não entendi a diferença e, francamente, não me interessa - como diria o soldado tailandês, é tudo a mesma merda) um bando de debilóides. A picaretagem de Karl Marx era tão óbvia que nem sei como alguém pode discordar de mim. Tudo bem, o materialismo dialético até que tem certa utilidade no estudo de História, mas que se foda. Um ponto positivo não justifica uma saravaivada de besteiras. Temos que considerar, em primeiro lugar, que o homem não era um cientista político. Ele era um economista e sua "obra" deve ser vista com tal fato em mente. Assim, não devemos encarar, por exemplo, "O Capital" como um manifesto político, mas como um tratado de economia. Sob este prisma, o tijolão é um fracasso completo. O valioso calço para segurar portas rebeldes escrito pelo alemão não estava conclamando as massas a se rebelarem contra as elites monopolizadores dos meios de produção. Ele estava dizendo que isso era inevitável - como um hippie depois de fumar um quilo de barunga, Karl Marx estava afirmando, cheio de autoridade, que "a revolução vem por aí, bicho. É só uma questão de tempo." E que a "ditadura do proletariado" se iniciaria nos Estados industrializados e acabaria resultando, organicamente, após um longo processo, no comunismo, onde a coletividade dos meios de produção seria adotada espontaneamente e o Estado deixaria de ter fim ontológico. É verdade que algumas dessas teorias se concretizaram. Onde é que houve mesmo a tal "revolução socialista"? União Soviética, China, Cuba, Coréia do Norte... países que, à época de suas revoluções, eram potências industriais e que hoje são paraísos para o trabalhador, onde a riqueza, ao contrário do que ocorre entre nós, burgueses decadentes, não fica concentrada na mão de uma minoria opressora, enquanto a maioria sofre na mais abjeta miséria. Peraí... não, nenhuma das teorias do mané se concretizaram. As tais "ditaduras do proletariado" ocorreram em países de economia preponderantemente agropecuária (a China e a Rússia eram praticamente feudais, puta que o pariu!), o Estado se tornou a oligarquia opressora, muito mais cínica e truculenta que a anterior, e o tal "comunismo" nunca se concretizou em lugar nenhum. Nem vai. Por que? Porque era uma teoria idiota. E como se chama um economista que só formula teorias asininas que nunca se concretizam? Um picareta. No meu entender, quem elaborou os Planos Cruzado I, II e Collor eram bem menos incompetentes que o barbudo. Nenhum deles, pelo menos, inspirou massacres de milhões de pessoas, cubanos hirsutos e xaropes discursando por horas a fio, venezuelanos que falam uma merda atrás da outra, sempre com um incompreensível ar de superioridade, ou ditaduras surreais comandadas por psicopatas com óculos de vovozinha. Eu até entendia que certas pessoas acreditassem nas abobrinhas de Marx (embora elas sempre tenham me parecido intrinsecamente antagônicas à natureza humana e fruto da mente de quem passou pouquíssimo tempo interagindo com gente de verdade) nos tempos da Guerra Fria, quando era impossível para o "mundo capitalista" saber ao certo o que se passava atrás da Cortina de Ferro, e achassem que a União Soviética era um paraíso trabalhista. Mas desafia minha compreensão o fato de, ainda hoje, mais de quinze anos após a queda de Muro de Berlim, existirem cretinos na América Latina que defendem o marxismo como se fosse uma espécie de vanguarda do pensamento político e encontram a aceitação de uma legião de tetraplégicos intelectuais, que engolem tudo com o maior entusiasmo.
O que tem isso a ver com Vlad Tepes, um obscuro filme romeno de 1979? Muita coisa. Mas é claro que eu vou divagar um bocado antes de chegar aos finalmentes. Afinal, duvido que alguém leia este troço buscando concisão. E, se lê, não posso fazer nada por tal pessoa, além de recomendar que continue lendo, pois, segundo inúmeras fontes de autoridade indiscutível (minha mãe e, de vez em quando, minha mulher), trata-se de um dos blogs mais relevantes da história da internet.
Tenho que deixar claro, de plano, que o voivode Vlad III da Valáquia, o Vlad Drácula ou Vlad Tepes (O Empalador) é meu personagem histórico favorito, embora passe longe da grandeza de um Júlio César, Alexandre ou Genghis Khan (em minha opinião, o maior, e mais injustiçado, líder militar e político da história da humanidade). Embora o homem não fosse perfeito, acredito que, essencialmente, suas motivações eram sincero amor à sua pátria e desejo de vê-la progredir, prosperar e escapar da posição humilhante de província do Império Otomano ou capacho da Hungria. Trata-se de um indivíduo que passou a maior parte da vida em cativeiro e, nos poucos anos em que permaneceu no poder, não se deixou seduzir pela aristocracia corrupta e mercenária que o cercava e buscou (em condições espetacularmente adversas) manter a independência de seu principado e ministrar a aplicação da lei sem distinção de classe. Acredito sinceramente (e já horrorizei um bocado de gente defendendo isso em público) que é graças, em grande parte, aos esforços do Empalador que as mulheres ocidentais de hoje podem usar fio-dental ao invés de sair por aí de burca.
Claro que o sujeito cometeu monstruosidades de intensidade e quantidade incalculáveis. Não sou idiota de negar o óbvio. Além de inimigos políticos, prisioneiros de guerra e criminosos, Dracula torturou e matou mulheres, crianças e coitados que simplesmente tiveram o azar de falar a coisa errada quando o monarca estava em "um daqueles dias". Além de utilizar empalamento (dã!), que, em minha opinião, é a forma de execução mais horripilante já concebida, em escala então sem precedentes, o príncipe também esfolava, cozinhava, queimava e esquartejava vivas suas vítimas.
Coloquemos, porém, as coisas dentro de suas devidas proporções: em primeiro lugar, o número de vítimas de Drácula tende a ser exagerado (nem a pau ele executou 100.000 pessoas, como algumas fontes indicam; números mais plausíveis variam entre 25 e 45 mil, incluindo inimigos mortos em guerra), graças a propaganda política disseminada por seus inimigos (principalmente alemães e turcos) desde a época em que ele ainda estava em atividade; em segundo, o comportamento dele, dentro de seu contexto histórico, não era nada excepcionalmente fora dos parâmetros - basta olhar os exemplo de Henrique VIII e Catarina de Médici, por exemplo. E pouco mais de um século depois, nossos antepassados europeus fariam escrotices tão horríveis, muito mais numerosas e bem menos justificáveis ao conquistar o Novo Mundo. Além disso, por mais que os atos do voivode romeno causem repugnância, é inegável que a maioria deles tinha um fim utilitário - ainda que, dentro de uma perspectiva contemporânea, fossem completamente desproporcionais aos fins visados. Drácula cometeu várias atrocidades por simples acesso de ira, mas a maioria de suas barbaridades tinham um propósito preventivo ou pedagógico (e, ao que tudo indica, produziam os resultados desejados). Assim, diante do excesso de frescuras e melindres que assomam toda vez que alguém menciona Vlad Tepes, minha reação habitual é dar de ombros e fazer minhas as palavras do Drácula de Mel Brooks: They had it coming. Ademais, fica bem mais fácil compreender o comportamento do personagem quando se analisa as condições em que ele cresceu e viveu. Não sou adepto do sociologismo - de grande aceitação, atualmente - que prega que todo comportamento desviante pode ser explicado como produto do meio em que a personalidade do indivíduo se desenvolveu (e.g., foda-se quem tentar me explicar que Elias Maluco ou Fernadinho Beira-Mar mandavam esquartejar gente viva porque não podiam comprar tênis Nike quando eram crianças ou porque não eram abraçados por mamãe e papai), mas estamos falando de um sujeito que viveu em cativeiro turco dos 12 aos 16 anos, graças a um tratado celebrado entre seu próprio pai e seus inimigos islamitas (o qual, diga-se de passagem, foi quebrado pelo paizão enquanto Vlad ainda estava em cativeiro); que foi traído por aliados políticos, amigos próximos e parentes e viu seu irmão mais novo (com quem ficou preso durante a adolescência) se tornar um de seus maiores inimigos; e que chegou ao poder em um país comandado por uma aristocracia que fazia Paulo Maluf parecer um monumento à ética e à lealdade. Para parafrasear o Al Capone do De Niro, tratava-se de um meio onde eram bem mais fácil conseguir as coisas com uma palavra gentil e tortura excruciante do que só com uma palavra gentil. Eram circunstâncias, enfim, onde a única maneira de se impor e concretizar alguma coisa como governante era através do máximo de terror possível. Nem fodendo ele teria durado o tempo que durou (45 anos, um idade avançada para os homens públicos de sua família) se tivesse adotado a filosofia de "give peace a chance" que muitos manés acham que é sempre a melhor atitude.
Talvez sejam as complexidades e contradições do personagem, o contexto histórico de intrigas bizantinas onde ele viveu (e, como eu disse, viveu bastante e governou por muito tempo para os parâmetros da Valáquia) ou a própria brutalidade e intransigência do homem diante do que julgava lapsos morais (com a qual, admito, sinto certa afinidade às vezes, como creio que ocorre com a maioria das pessoas, embora pouquíssimas confessem) que tornem Vlad Tepes minha figura histórica preferida. Ou talvez seja porque o primeiro livro "de verdade" que eu li foi o Drácula de Stoker, quando tinha nove ou dez anos de idade.
O que nos leva à visão demonizada com que a figura histórica costuma ser vista: tende-se a achar que o vampiro de Stoker foi fortemente inspirado pelo personagem histórico. Como o Drácula de Stoker era, basicamente, o mal encarnado, a consequência é o Drácula histórico (de quem, justiça seja feita, pouquíssimas pessoas fora da Europa Oriental tomariam conhecimento se não fosse pela romance gótico do irlandês) ser visto, igualmente, como o mal encarnado. A verdade, contudo, é que Stoker já tinha o livro praticamente delineado (o nome do vilão, sutilmente, seria Conde Wampyre) quando ouviu falar no monarca romeno, colheu alguns eventos históricos (alguns citados corretamente, outros nem tanto) e os incluiu na história para lhe dar um verniz de autenticidade, e mudou a primeira porção do livro da Styria para a Transilvânia. Embora discorde, entendo os motivos da imagem vilanesca que o personagem histórico assumiu para o público.
Sempre me frustrou, contudo, o fato de nunca terem feito um filme decente sobre o personagem, pois a biografia da figura é matéria prima fuderosa para um bom roteirista e um bom diretor. Nem precisava ser um filme excelente - afinal, figuras históricas muito mais relevantes, como os supracitados Alexandre, o Grande e Genghis Khan (Mongol foi um dos negócios mais broxantes que vi este ano, embora não seja propriamente um filme ruim) até hoje não tiveram uma cinebiografia que lhes fizesse justiça. Júlio e Ótavio César precisaram de uma série de 25 episódios de uma hora (o fantástico Roma, da HBO) para explorar parte de suas vidas com a riqueza merecida.
Quando li sobre o telefilme americano Dark Prince: The True History of Dracula (lançado no Brasil com o título Princípe das Trevas: A Verdadeira História de Drácula), em 2000, me empolguei. O fato de ser um telefilme já não era bom presságio, mas preferi esperar o melhor;- o Salem's Lot de Tobe Hooper também foi feito para a TV, numa época em que os níveis de tolerância a violência na televisão americana eram bem mais rígidos, e é um de meus filmes de vampiro preferidos. A informação, que surgiu, depois, de que o filme tinha apenas 90 minutos de duração, também não foi muito encorajadora, mas continuei otimista. Afinal, Witchfinder General é um filme histórico excelente, sobre um período igualmente complexo e focado num personagem igualmente infame, e tem duração menor do que isso. Quem sabe não podia acontecer coisa semelhante? A escolha do magricela alemão Rudolf Martin também não inspirou muita confiança. Afinal, além de não ter a menor semelhança física com o personagem histórico, o ator só precisava de uma cabeleira black power para se enquadrar no conceito clássico de "cotonete de orelhão". E uma coisa sobre Vlad Tepes é indiscutível - o sujeito tinha que ter um porte físico razoavelmente parrudo. Porque, obviamente, ninguém consegue participar de vários combates de armadura e espada (com bons resultados, pelo menos) se tiver a massa muscular da Kate Moss. Mas permaneci indevidamente otimista - de repente baixava o De Niro no cara, pensei, e ele ganhava uns dez quilos de músculo para interpretar o personagem.
Pois é. Meu otimismo foi completamente idiota. O filme, embora tenha suas virtudes, passa boa parte do tempo numa frescura sobre a Igreja Ortodoxa apoiar ou não o filho de Drácula para ser sucessor ao trono (nada a ver: quem decidia isso era um conselho de boyars [a aristocracia romena]).Tal frescura é explicada pelo fato de o príncipe ter se convertido ao catolicismo romano (outra bobagem: a conversão de Drácula ao catolicismo romano, para conseguir apoio político e militar do rei húngaro, Matthias Corvinus, causou alguma antipatia, mas nada muito relevante) e pelas suspeitas dos sacerdotes ortodoxos de que ele seja o Anticristo (!), devido, além de suas atrocidades, a uma lenda (completamente inventada pelo roteirista do filme) de que uma imagem da Virgem chorou sangue quando ele nasceu (além de inventada, idiota; se eu estiver errado, podem me corrigir, mas creio que Igrejas Ortodoxas tem ícones, não estátuas de santos). A história também se atém muito à relação entre Drácula e sua esposa, Lídia (o que também não faz muito sentido, pois era comum os voivodes da Valáquia terem uma cacetada de concubinas, de modo que a relação entre os dois é só uma maneira anacrônica de tornar o personagem mais "contemporâneo"), a princesa que, reza a lenda, cometeu suicídio se jogando no rio (o filme também conta uma versão totalmente infiel ao folclore romeno); passa muito tempo explorando a inimizade entre Vlad e seu irmão Radu, que se tornou um vassalo do sultão turco e passou boa parte da vida tentando tomar o trono da Valáquia (igualmente sem propósito: Radu, o Belo, como o rapaz era chamado, acabou destronando o irmão, mas morreu de sífilis, bem antes de Drácula; além do mais, a história do Empalador tinha intrigas bem mais interessantes do que o manjado "irmãos que se tornam inimigos"). O pior de tudo, entretanto, é que o roteiro se desdobra (a história da virgem chorando sangue é só um exemplo) para associar o Drácula histórico a vampirismo e ao Drácula de Stoker, coisa que, como já mencionado, não tem o menor cabimento. Enfim, o filme passa uma hora e meia tentando fazer o que o Drácula de Coppola fez em cerca de cinco minutos (e, por mais defeitos que tenha, o Drácula de Coppola nunca alega ser um relato fidedigno da vida do Drácula real). O Dark Prince, apesar de ser "a verdadeira história de Drácula", passa a maior parte do tempo tentando ser prólogo de um filme de vampiro - e filmes de vampiro com o Drácula já existem de sobra. E, puta que o pariu, dava pro Rudolf Martin, se não queria levantar peso, pelo menos ter colocado um bigode postiço? A imagem mais conhecida de Vlad III mostra um cidadão com um bigode de deixar o Belchior com inveja, e nem isso os caras puderam providenciar? O filme não é horrível, apesar de minhas críticas; se tiver oportunidade, veja. Trata-se apenas de um filminho mediano que tinha potencial para ser excelente, o que me deixa muito mais frustrado que um filme simplesmente fuleiro.
"Bom", pensei, "a vida é assim mesmo. Quem sabe inventam uma forma de congelar as pessoas criogenicamente antes que eu morra e, daqui a 103 anos, façam um filme decente baseado na vida de Vlad Tepes e eu possa ser ressuscitado para vê-lo..." Conformei-me com o fato até que, alguns anos mais tarde, descubro que, em 1979, foi feito um filme romeno sobre a vida do personagem. Aí me animei. Afinal, na Romênia, Vlad Tepes é visto como um herói patriótico. E o filme foi feito durante o regime de Nicolae Ceausescu, outra preciosidade inspirada pela "obra" de Marx. Ceausescu era um filho da puta que, embora com menos notoriedade no ocidente, perpetrou atrocidades da mesma qualidade que as de Stalin, Mao, Pol Pot e aquele filho da puta com óculos de vovozinha da Coréia do Norte e "governou" a Romênia de 1974 até 1989, quando a moçada finalmente surtou, derrubou o escroto e o fuzilou (junto com a besta-fera de sua esposa, Elena) em público, para a alegria geral de todos (um detalhe hilariante, para os amantes do humor negro: o casal era tão querido que centenas de pessoas se ofereceram para participar do esquadrão de fuzilamento; o esquadrão, na hora do vamos ver, estava com tanta boa vontade para fazer o serviço que nem esperou o casal ser amarrado e vendado, como é de costume, mandando bala logo que os dois entraram na linha de fogo). O fato de o filme ter sido feito durante seu regime, entretanto, me serviu de alento em um ponto: pelo menos a obra era menos propensa a demonizar o protagonista, já que estava sendo feita num país que o tinha como herói e durante o governo de um indivíduo que, francamente, fazia o Empalador parecer Martin Luther King.
Infelizmente, levei um tempão para finalmente ver o filme, pois ele nunca foi lançado oficialmente no ocidente e a única maneira de vê-lo era fazendo o download de um bootleg em romeno e sem legendas. Felizmente, há alguns meses, algum romeno bem-aventurado teve a cortesia de fazer legendas em inglês e disponibiliza-las na internet. As legendas são péssimas (o tradutor obviamente tinha um conhecimento limitado de inglês), mas não vou esculachá-las, pois é um daqueles casos em que se aplica o ditado popular sobre cavalo dado.
Bem, de fato, o filme não demoniza o príncipe. E esse é o problema. O filme não apenas não demoniza o príncipe, como se esforça para fazer o espectador crer que todas as histórias sobre suas tendências mais anti-sociais foram distorcidas ou inventadas descaradamente pelos boyars, pelos turcos e pelos comerciantes alemães da Transilvânia (que, aqui, fazem o papel do "burguês reacionário e decadente", em contraponto à "ditadura do proletariado" de Drácula). Eu sempre achei que o personagem até que se prestava a propaganda comunista (tendo em vista sua repugnância à aristocracia, respeito pelos camponeses e completa desconsideração de status na hora de impor penas), mas o roteiro de Mircea Mohor forçou a barra. Além do mais, a exemplo da obra brasileira Eu Matei Lúcio Flávio (objeto de excelente resenha no blog Filmes para Doidos) o filme é meio difícil de compreender para quem não tem muita noção do contexto histórico em que se passa. A diferença é que, para quem conhece o contexto, Eu Matei Lúcio Flávio é espetacular, ao passo que Vlad Tepes é irritante. Mas vamos ao filme.
A história começa com um letreiro que explica que é 1456 e o Império Otomano acaba de ser frustrado em sua tentativa de invadir o continente Europeu graças aos esforços de Iancu de Hunedoara, que dá uma sova nos turcos em Belgrado. Três dias depois da vitória, contudo, este morre de peste bubônica, deixando o caminho livre para novas investidas do sultão Mehmed II, o Conquistador (chamado de Mahomed II no filme) e a Valáquia, enfraquecida pelas disputas internas entre os boyars, particularmente vulnerável.
Corta para um bando de cavaleiros que marcham de encontro a um cidadão grisalho que não sabemos quem é (e, mesmo depois de ver o filme umas três vezes, não logrei identificar o indivíduo por nome). Os cavaleiros anunciam que são cidadãos de Tirgoviste e desejam se unir ao exército de Iancu de Hunedoara. O grisalho anuncia que vai levá-los ao "capitão" de Iancu...
O "capitão" de Iancu de Hunedoara é ninguém menos que Vlad Drácula. E sua primeira aparição já me deixou otimista - além da semelhança física razoável, Stefan Sileanu tem porte físico e interpreta o personagem com maneirismos que, imagina-se, um líder político e militar do período tivesse. Drácula resmunga, pragmático, que, com a morte de Hunedoara, qualquer esperança de ajuda externa se foi e ele agora vai ter que se virar sozinho. Sem tempo para choramingar, o aspirante a príncipe manda seu escudeiro grisalho (de quem, repito, até agora não sabemos o nome) sair pelas vilas conclamando todos aqueles dispostos a morrer pela pátria a se unir ao seu exército.
A estratégia parece funcionar, pois na cena seguinte, Drácula já está partindo para o quebra-pau, comandando um exército de cavaleiros rumo ao combate com seus inimigos (que, também, não sabemos quem são) a toda velocidade.
Antes que o combate comece, entretanto, o líder do exército inimigo é sacaneado e a batalha acaba preliminarmente: numa cena que, não sei por que motivo (acho que lembra as batalhas de Monty Python and the Holy Grail), me mata de rir, um de seus próprios homens, sem a menor cerimônia, acerta o vilão pelas costas com uma lança.
O exército do falecido não perde tempo e logo se rende a Drácula, jurando vassalagem ao novo monarca. O engraçadinho que deu cabo do príncipe anterior ainda se apresenta contando vantagem e esperando recompensa por ter "aberto o caminho de Vossa Alteza ao trono". Vlad, entretanto, não enxerga a situação de forma tão irreverente: ele manda enterrarem o defunto rival com "as honras devidas a um Lorde" e "matar o assassino com a mesma lança que ele usou para assassinar". "Se eu não tivesse feito isso, Vossa Alteza o teria", desespera-se o traidor, acabando de perceber que vai tomar onde o sol não bate e tentando evitar desaconchego de tamanha gravidade. "Eu não jurei lealdade a ele", replica Drácula, secamente. Como diria Jorge Amado, "se fodeu".
Drácula aceita os juramentos de vassalagem dos boyars, poupa o exército do inimigo, liberta os prisioneiros de guerra deste e, mostrando logo que não gosta de fazer corpo mole, convoca uma reunião do conselho de boyars para dar as ordens.
Faço aqui uma pausa para começar minhas ladainhas. Em primeiro lugar, trata-se de uma sequência inicial em que os defeitos e virtudes do filme são sintetizadas. As virtudes: boa direção, edição, fotografia e interpretações. Os defeitos: Drácula é mostrado como um indivíduo bem mais generoso do que ele realmente era e a trama só é compreendida por quem sabe alguma coisa sobre a biografia do personagem. Quem não sabe, a essa altura do filme, já deve estar se perguntando coisas como "quem caralho era Iancu de Hunedoara", "quem era aquele sujeito com quem Drácula ia lutar" e "qual era o motivo da luta?" Para isso fazer sentido, é necessária uma superficial lição de História ministrada pelo tio Kurt.
Em 1456, o Império Otomano estava, de fato, em franca expansão. A maioria dos Estados Europeus, contudo, tendo suas próprias broncas internas para resolver (e.g., A Guerra das Rosas na Inglaterra e a recuperação dos prejuízos da Guerra dos 100 anos na França), ficou indiferente à ameaça otomana; mesmo após o pontificado de Pio II, que considerava os turcos a "maior ameaça à Cristandade" e tentava veementemente ressuscitar o espírito das cruzadas na luta contra os otomanos, a maior parte da Europa permaneceu, basicamente, de pau na mão. João Hunyadi/Hunedoara Janos/Iancu de Hunedoara era um nativo da Transilvânia que, não obstante suas origens humildes, conseguiu, graças a muita habilidade política e militar, se tornar um dos mais prestigiosos líderes da Europa Oriental, alcançando a posição de príncipe da Transilvânia e chegando a se tornar, durante a menoridade do rei húngaro Ladislau V, o "Póstumo" (alcunha decorrente de seu suspeito nascimento após o óbito do pai), regente e governador-geral da Hungria. Hunyadi foi um dos poucos a concordar com o ponto de vista do papa e se tornou um dos principais combatentes à ameaça otomana. Foi também, um dos mentores políticos e militares de Drácula, o que, em si, é um fato dos mais interessantes.
Isso porque tudo indica que o levante de boyars que resultou na morte de Vlad II e Mircea, irmão mais velho de Drácula, enquanto este se encontrava em cativeiro turco, foi articulado por Hunyadi, que não via com bons olhos a política "em cima de muro" de Vlad Dracul em relação aos turcos e preferiu colocar Vladislav II no trono da Valáquia. O sultão, apesar da inutilidade dos reféns, cujo pai agora estava morto, preferiu manter Drácula e Radu vivos e "cultivá-los", considerando a possibilidade de tê-los como aliados caso um dos dois viesse a conquistar o trono da Valáquia posteriormente. Em 1448, aos 17 anos, Vlad foi libertado do cativeiro e colocado pelos turcos no trono da Valáquia; o primeiro reinado durou pouco tempo, sendo o príncipe destronado pelo próprio Hunyadi, que invadiu o país e reempossou Vladislav II. Drácula fugiu para o principado da Moldávia, ficando sob a proteção de seu tio, o príncipe Bogdan, até este ser assassinado por inimigos políticos em 1451 (pois é, a vida desse pessoal era repleta de fortes emoções). Vlad, então, decidiu optar pela filosofia do "mandando o bom senso às favas" e fugiu para a Hungria, então controlada por seu inimigo Hunyadi. Este acabou ficando impressionado pelos conhecimentos que o rapaz tinha sobre o funcionamento do Império Otomano (adquirido graças aos anos que passou como refém do sultão) e pelo ódio deste por Mehmed II, e acabou se tornando seu padrinho político. Contribuiu para o início dessa bela amizade o fato de o até então preferido de Hunyadi, Vladislav II, estar adotando uma política progressivamente pró-otomana.
Nada disso explica, contudo, como Vlad conseguiu ignorar o fato de que seu novo mentor havia sido, pelo menos, um dos autores intelectuais do homicídio de seu pai e seu irmão. Em minha opinião, foi basicamente lógica e pragmatismo político: Hunyadi estava simplesmente cuidando dos próprios interesses e não tinha nenhuma dívida de lealdade para com Vlad Dracul, ao contrário dos boyars vira-casaca que de fato o executaram. E suspeito que foi mais a falta de lealdade dos boyars e menos o amor ao paizão (que, como já mencionei, o deixou como refém dos turcos e, posteriormente, violou tratados, colocando sua vida em risco) que suscitou o ódio de Drácula pela aristocracia de seu país.
Enfim... em 1456, Mehmed II tentou invadir a Hungria através de um ataque náutico via Belgrado. A defesa desta ficou a cargo de uma força militar comandada por Hunyadi, enquanto Drácula, comandando um exército majoritariamente composto por mercenários romenos, ficou incumbido de proteger o flanco oriental da Hungria, na Transilvânia. Ficou implícito que Drácula tinha carta branca para destronar Vladislav II quando achasse conveniente, reforçando a resistência à invasão turca, e foi exatamente isso que ele fez: logo que os turcos foram derrotados por Hunyadi em Belgrado, Vlad não perdeu tempo lamentando a morte de seu padrinho político. Ele avançou Valáquia adentro e, após uma série de baculejos, capturou e matou Vladislav II e assumiu o trono. É essa a batalha que inicia o filme e já vou começar a reclamar.
Primeiro: porra, nada é abordado sobre a infância de Drácula, sua vida de refém no Império Otomano nem sua complicada relação com Hunyadi (como já disse, o espectador sem interesse histórico na região provavelmente nunca nem ouviu falar neste indivíduo). Segundo: não houve nada de "convocação dos camponeses a se unir a Drácula", prontamente atendida pelo campesinato - isso é só picaretagem típica de propaganda política. Como mencionado, Vlad III conquistou o trono com um exército de mercenários, coisa que o governo comunista romeno certamente não admitiria que fosse mostrado no filme. Então, vá lá, até que dá pra entender. Terceiro: embora a reação do Drácula do filme ao sacana que matou Vladislav II pelas costas realmente tenha muito a ver com a personalidade do voivode (o homem tinha uma intolerância inflexível com deslealdade), o evento é totalmente inventado. A verdade é que Drácula capturou Vladislav e o executou (provavelmente depois de torturá-lo barbaramente). Quarto: a boa-vontade de Drácula para com os boyars que viraram a casaca rapidamente... bom isso tem a ver com outro trecho do filme onde a história é completamente distorcida, então cheguemos lá primeiro. Só posso adiantar que os partidários de Vladislav II teriam um destino bem menos aprazível que o mostrado no filme.
Como dito, o príncipe recém-coroado não perde tempo comemorando e parte logo para o trabalho, reunindo os boyars e dando as ordens. Primeiro, ele indaga quantos príncipes cada um deles já viu no trono da Valáquia e cada um se sai com um número maior que o outro. Emputecido, Drácula passa na cara dos cretinos que a culpa é deles, que vivem virando a casaca (não nesses termos, mas trata-se de um diálogo que, segundo várias fontes, realmente ocorreu) e deixaram o país no estado lastimável em que se encontra. Em seguida, determina que todos os presos devem ser libertados e os crimes esquecidos; a partir de agora, contudo, aqueles que violarem a lei serão punidos severamente. E é nesse momento que eu digo, "vão pra porra". Aí já é querer transformar o homem num santo. A parte sobre a violação da lei ser punida severamente procede, com toda a certeza; já a parte sobre "vamos ser legais e perdoar a quem nos tenha ofendido" é tão ridícula que não tem nem graça. Isso nunca aconteceu. O príncipe determina a formação da armaş, sua guarda pessoal. Após a reunião, o voivode chama o sujeito que escolheu para chefiar a armaş e manda que este despache homens de confiança para serem "seus olhos" em todos os povoados do país (mais ou menos como o regime que financiou o filme tinha a Securitate, por coincidência, mas esse detalhe, pelo menos, é verídico).
Enquanto isso, os boyars já estão reclamando das ordens do novo governante e ponderando se mudar de lado foi realmente a melhor decisão. Acabam decidindo que, mais cedo ou mais tarde, vão acabar domando o rapaz...
Após várias cenas de Drácula passeando pela zona rural da Valáquia (que, de fato, é muito bonita) e observando o trabalho dos puros, inocentes e sofridos camponeses (demonstrando qual é a verdadeira afinidade do príncipe: ele está ali para governar pelos trabalhadores, não pelas oligarquias opressoras, companheiros), surge o primeiro momento de conflito: comerciantes da cidade de Braşov, ao passear pela Transilvânia, têm sua mercadoria furtada e vão se queixar com o príncipe. Drácula promete resolver o problema e dá uma esporro nos boyars, que só querem começar as reuniões ao meio-dia (mostrando que são um bando de parasitas indolentes, vivendo do trabalho suado dos camponeses. Vá lá, a alegoria é pouco sutil, porém válida: os boyars realmente eram assim). Em seguida, através da armaş, localiza os ladrões e devolve a mercadoria roubada aos comerciantes, deixando os meliantes como edificante lição de moral, na beira da estrada:
Não sei por que não foram fiéis à anedota que provavelmente inspirou a cena: conta-se que um comerciante resolveu passa a noite em Tirgoviste, sendo informado que podia deixar sua carruagem na rua, pois não havia risco de furto. Na manhã seguinte, dez ducados de ouro haviam sido furtados da carruagem do comerciante que, inconformado, foi reclamar com o voivode. Drácula, fiel adepto da filosofia de que "contra a força bruta não há argumentos", usou um método dos mais eficientes para resolver o problema: divulgou que, caso o larápio não lhe fosse entregue em 24 horas, julgaria toda a população da cidade responsável e agiria de acordo. O ladrão foi logo entregue ao voivode, sendo prontamente empalado, e o ouro, devolvido ao comerciante. Este, porém, observou que havia um ducado a mais do que havia sido furtado e o devolveu ao príncipe. Drácula, satisfeito observou que a moeda a mais havia sido colocada de propósito e que, se o comerciante não a tivesse devolvido, acabaria empalado junto com o ladrão. Acredito que a história não foi contada assim porque, como todos sabem, comunistas não têm senso de humor...
Em seguida, temos um fato histórico distorcido que é a maior picaretagem do filme. Na verdade, é a segunda maior picaretagem, mas é de uma cara-de-pau tão grande que chega a ser admirável. Fato histórico: Vlad Tepes odiava profundamente mendigos e vagabundos de qualquer espécie. Ele os julgava pior que os ladrões, porque, em suas palavras (paráfrase, pois, por mais interessante que ache a figura, não vou ficar decorando o que ele dizia) "se você for mais ágil ou mais vigoroso que salteador da floresta, pode escapar do assalto; mas esses indivíduos, pedindo insaciavelmente, roubam o dinheiro conseguido com o suor do trabalhador tão destrutivamente quanto qualquer ladrão." Para resolver tal problema, o monarca adotou uma solução tão simples quanto a utilizada para localizar o ladrão do episódio anterior: mandou a armaş reunir todos os mendigos da Valáquia e trazê-los para um grande banquete. Enquanto os mendigos lambiam os beiços, Drácula resolver marcar presença e, após muitas saudações empolgadas, indagou: "Vossas Senhorias gostariam de jamais ter preocupações ou pesares novamente?" A resposta foi um sonoro "Sim", ao que o voivode replicou "Pois assim será" e mandou trancar a sala com todos os mendigos dentro e incinerá-la, queimando os pedintes vivos e resolvendo o "problema social". Realmente, fica meio difícil falar em defesa do príncipe neste caso, mas há quem especule que a medida teria um caráter sanitário: o número elevado da população de mendigos na Valáquia, à época, facilitava a proliferação de epidemias.
Versão do filme: aparentemente, o roteirista levou a equiparação que o Empalador fazia entre mendigos e ladrões ao pé-da-letra: logo após resolver o problema dos comerciantes, Drácula fica emputecido com os ladrões, que, explica um diálogo entre o príncipe e seus homens de confiança, passam o dia disfarçados de mendigos e praticam crimes à noite. E, assim, reúne todos os mendigos do país para um banquete. Isso mesmo: numa chicana tão descarada que chega a ser linda, o roteiro do filme afirma que sim, Drácula matou todos os mendigos da Valáquia, mas isso foi besteira, pois eles eram mendigos de dia e assaltantes à noite e, como todos sabem, bandido bom é bandido morto. Caramba, eu sou o único sujeito que conheço que defende o homem e nem eu conseguiria me sair de cara lisa com uma racionalização tão obviamente furada. É sério: tem até uma cena em que um mendigo "perneta" tira a perna de pau, revelando, por baixo dela, uma perna perfeitamente saudável e outra em que um mendigo "cego" tira a venda dos olhos, revelando não ser cego porra nenhuma. Desse jeito, fica impossível não torcer pros putos serem queimados. Mal sabem os cretinos que Drácula está entre eles, disfarçado. Testemunhando toda essa canalhice e concluindo que tinha razão, o príncipe resolve concluir o banquete com o mesmo desfecho da história real (menos a "charada" de mau gosto, pois como eu já disse, comunistas não têm senso de humor).
Seguimos para a MAIOR picaretagem do filme. Os boyars, concluindo que o novo príncipe está radical demais para seu gosto, resolvem conspirar para dar cabo do voivode, planejando pegá-lo de surpresa, dar um golpe de Estado e colocar outro príncipe, mais maleável, em seu lugar. A primeira pergunta que vem à cabeça do espectador é "por que, exatamente?" Ora, até agora, a única coisa "ameaçadora" que ele fez à aristocracia foi dar esporro. Ele empalou ladrões e queimou um monte de mendigos vivos, mas não logro vislumbrar como isso seria uma ameaça ao status quo. E, na vida real, a situação era idêntica (a diferença é que os mendigos que Drácula queimou eram só mendigos mesmo, de modo que ele é um precursor intelectual daqueles moleques de Brasília que tocaram fogo no índio pataxó "achando que era um mendigo"). Mas eis que, enquanto os monopolizadores dos meios de produção e exploradores do campesinato estão com a farinha, Drácula já vem com o bolo não mão... ou a pizza, ou seja lá o que for. Enfim, Drácula chega de supresa e pega todo mundo no flagra, barbarizando geral.
Alguns dos boyars mostram toda sua bravura correndo para uma igreja e se escondendo debaixo da batina do padre. O voivode, entretanto, não se curva diante desses sacerdotes, que, afinal, nada mais são do que um instrumento de alienação das massas, prendendo imediatamente os covardões.
O padre se revolta com a falta de respeito de Drácula, mas este parte para um bate-boca teológico com o traficante do ópio do povo. Tudo bem, piadinhas anti-comunistas à parte, a cena é muito boa e realmente faz justiça à personalidade de Vlad Tepes: os argumentos utilizados pelo príncipe para rebater o discurso religioso manjado do padre (em síntese "Vossa Alteza está desrespeitando a casa de Deus e atentando contra os Dez Mandamentos") realmente se coadunam com o que o personagem real utilizava como "fundamentação teológica" para suas práticas, quando travava discussões com alguns clérigos que o repreendiam (geralmente antes de dar cabo dos mesmos). Ele alega, por exemplo, que "eles deviam ter buscado a Igreja antes de errar, não depois", que "a vontade de Deus é que os homens sejam retos, mas não se obtém retidão através de pedidos. É através do medo e de exemplos, assim como os fiéis vêm à Igreja por temor ao inferno, não por amor a Deus", finalizando com "se for necessário matar 10 homens para que 100 se turnem justos ou 100 para que 1000 corrijam sua conduta, assim será feito" e acrescentando que está apenas castigando aqueles que descumprem os dez mandamentos e que o país deve estar fortalecido quando a ameaça muçulmana chegar, o que não será logrado através de boas ações.
Presos os conspiradores, Drácula condena todos à mesma pena: execução por empalamento, provando de forma inequívoca que, na Valáquia do século XV, bandido, literalmente, tomava no cu. Um de seus homens, cujo irmão é um dos condenados, tenta dissuadir o príncipe, alegando que "empalamento é punição para ralé". Realmente, trata-se um argumento dos mais sólidos e é uma supresa que não faça o príncipe mudar de idéia. Bom, na verdade, faz (e esse "gracejo" é mais um fato histórico): inspirado pelo comentário, Drácula decide que a altura da lança com que cada infeliz será empalado corresponderá a seu status, "para que todos vejam de longe que minha justiça é a mesma para todos". E assim, o Empalador se livra da aristocracia que tanto detesta. Inexplicavelmente, assim que as execuções vão começar, o filme corta para um bando de boyars que tiveram a sorte de chegar atrasados à reunião dos conspiradores e, portanto, tiraram o deles da seringa. Ou, para ser mais literal, de estaca de madeira. Pela maneira tosca que a transição é feita (apesar de todas as minhas reclamações sobre a falta de exposição e "licenças dramáticas" do filme, tenho que reconhecer que a edição é muito competente), e pelo logotipo de televisão visível na cópia que vi, acredito que se trata de uma edição censurada. O que, há de se concluir, é meio imbecil, tento em vista que a TV era estatal e o filme foi financiado pelo Estado. Eles censuraram um filme cuja produção eles mesmo supervisionaram? Vá lá que lógica, coerência e bom-senso não são o forte de ditaduras marxistas, mas até para a turma de um maníaco desvairado como o Ceausescu, isso é tabacudo demais.
Enfim, os aristocratas sobreviventes, notando, sagazes, que a atual situação não é das mais favoráveis à continuidade de suas existências, chegam ao consenso de que é melhor procurar outras vizinhanças e vão atrás de um "pretendente" ao trono que decidem apoiar. O filme também não deixa muito claro no momento, mas esse pretendente era Dan III, do clã Daneşti, o mesmo do falecido Vladislav II e rivais históricos da família de Drácula (os Draculeşti; pois é, o pessoal não era dos mais criativos) na reivindicação do trono da Valáquia.
Mas paremos por um instante e retornemos cinco parágrafos. Lembra que eu falei que os eventos narrados acima são a maior picaretagem do filme? "Como assim?" alguém poderia indagar. "Quer dizer que Vlad, o Empalador, não matou mesmo toda a aristocracia de seu país. Hmmm... Bem que eu achei esse negócio meio exagerado". Não, isso é verdade. Drácula realmente empalou praticamente toda a aristocracia da Valáquia. A picaretagem é que não houve nenhuma conspiração que motivou o castigo. Lembra quando eu falei, no começo da resenha, que Drácula é retratado no filme como bem mais misericordioso com os inimigos do que, de fato, era?
O que aconteceu na realidade foi o seguinte: desde que assumiu o trono, Vlad III já tinha um profundo ódio pelos boyars - o que é perfeitamente compreensível, levando em conta que os escrotos mataram seu pai, cegaram seu irmão mais velho a ferro em brasa e o enterraram vivo - e, tudo indica, nenhuma intenção de dar a outra face. Ele simplesmente esperou algum tempo para consolidar seu poder antes de dar o bote. Este bote ocorreu na Páscoa de 1457, quando o príncipe convocou a maior parte dos boyars da terra para uma suntuoso banquete, bem como os cidadãos de Tirgovişte. E os debilóides foram. Sinceramente, depois daquele episódio com os mendigos, eu evitaria qualquer festividade promovida pelo monarca. Talvez por isso eu seja um mero funcionário público que escreve abobrinhas sobre filmes quando tem tempo livre, e não um aristocrata europeu na iminência de conhecer intimamente a extremidade pontiaguda de uma estaca. Servido o banquete, quando todo mundo estava curtindo a vida e comendo do bom e do melhor, Vlad fez uma triunfal entrada a cavalo, cumprimentando todos com um aceno de seu chapéu. Que era o sinal para seus soldados marcarem presença, estragando a festa, subjugando todos os boyars e os principais cidadãos da capital (que estiveram envolvidos na execução de Vlad II e Mircea) e dando início ao verdadeiro festejo que o príncipe tinha em mente: dar cabo de todo mundo. Drácula, contudo, era um homem prático: a princípio, ele só empalou os idosos, os inválidos e as crianças. Os adultos com alguma aptidão física ele levou acorrentados até o Castelo Drácula, em Poenari (a cerca de 300 quilômetros). Os que não morreram no caminho foram obrigados a fortificar e ampliar o castelo (o que levou, especula-se, de dois a três meses). Ao final do suplício, os que tiveram a força e determinação para sobreviver foram recompensados com o já popular empalamento. Um pouco diferente do "eles conspiraram e tiveram o castigo merecido", mas, sinceramente, não acho o fato tão horripilante assim. Afinal, os adultos e idosos participaram do brutal assassinato do pai e do irmão mais velho de Drácula. As crianças... bom, é foda, mas o velho argumento fazia perfeito sentido para a época: elas provavelmente buscariam vingança quando crescessem. E quanto ao trabalho forçado... tenho que admitir que dei boas risadas quando soube dessa história pela primeira vez. Para que simplesmente matar um bando de almas sebosas quando, antes disso, você pode utilizá-los como mão-de-obra em um trabalho de importância estratégica e sem custar um centavo ao erário? Além de picaretagem, achei a distorção covarde e desnecessária - posso até entender que omitissem a morte das mulheres e crianças para tornar o personagem mais simpático, mas os boyars eram um bando de filhos-da-puta que, além de terem matado a família de Drácula, estavam há anos abraçando a política do "vamos encher o bolso de grana enquanto o resto do país se fode". Alguém realmente tem pena desse tipo de gente?
Resolvido o problema, o príncipe resolve reorganizar seu ministério. Mais uma vez distorcendo a história para torná-la mais "ideologicamente pertinente", o filme mostra um Drácula que, ao invés de escolher criteriosamente os novos boyars entre seus homens de confiança (como fez, com boa dose de sensatez, na vida real), convoca sua rapaziada e solicita que aqueles que se julgarem dignos se ofereçam para os cargos. É verdade que ele deixa claro que, quem não cumprir suas funções com o máximo de presteza vai ser punido, como diria o Borat, da maneira sentida por 9 entre cada 10 condenados da Valáquia, mas mesmo assim... é um negócio meio idiota, bonitinho demais e difícil de engolir até mesmo para quem não sabe nada sobre o personagem. Alguns intrépidos indivíduos (e digo isso sem nenhum ironia, pois o homem, evidentamente, era adepto da política do "tolerância zero" com trabalho feito nas coxas) se oferecem e assim o novo conselho é composto.
Corta para representantes do capitalismo imperalista, reacionário e opressor das massas (tudo bem, vou parar com essa babaquice; estou começando a parecer com aquele camponês anarcossindicalista de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado), os governantes de Braşov (cidade saxônica da Transilvânia, de onde vieram os mesmos comerciantes cuja mercadoria roubada Drácula recuperou, os quais, só para não deixarmos de perceber como esses filhos da puta são ingratos, estão presentes), em reunião, ficam indignados com as novas e absurdas normas impostas pelo príncipe da Valáquia: de agora em diante, só será admitida a entrada de mercadorias que não tenham equivalente nacional (Drácula já era um adepto do protecionismo!) e desde que seja permitida a entrada de mercadorias valáquias (que igualmente não tivessem equivalente nacional no principado vizinho, pois o príncipe é justo) mediante o pagamento de igual tributação. "Ora, porra!" exclamam os comerciantes (não exatamente nessas palavras) "Tudo de valor que a gente vende aos turcos tem na Valáquia! E agora? Como vamos auferir lucro e comprar bens caros e supérfluos através de livre-comércio com os filhos da puta que querem invadir nosso continente?" O diálogo não é exatamente assim, mas a sutileza não é muito maior. O roteiro deixa bem claro que os comerciantes de Braşov são um bando de miseráveis mercenários sem um pingo de patriotismo, que pensam unicamente no lucro e em nada mais. E é por isso que eles decidem difamar Drácula por todo o Ocidente, espalhando histórias sobre como ele é um tirano sanguinário e maligno, praticamente um demônio, cujo único prazer é empalar gente inocente e que matou 300 comerciantes de Braşov, com suas mulheres e filhos. "Contemos essas histórias uma, dez, cem vezes, e as pessoas acabarão acreditando," diz um dos comerciantes, quando alguém suscita a possibilidade de acharem a história meio mentirosa. "E é por isso, espectador ocidental cujos olhos foram tapados pela propaganda capitalista", explica o filme, "que o virtuoso príncipe Vlad III é visto como um monstro em seus países, quando na verdade ele era bom, simples e justo. E adorava criancinhas, cachorrinhos, a beleza da natureza e passear pela praia em dias de sol. Tal como o nosso glorioso líder, Nicolae Ceauşescu." Assim, os parasitas sociais resolvem se aliar a Dan III, rival de Drácula na reivindicação do trono da Valáquia e, segundo o filme, igualmente vendido. Enquanto isso, para complicar a situação de Vlad Tepes, os turcos começam a invadir o país e saquear aldeias.
A verdade sobre os saxões era bem mais simples: Drácula realmente era protecionista, estipulando tributação que tornava a vida dos comerciantes das colônias alemãs na Transilvânia bastante difícil. Estes, descontentes, resolveram apoiar e dar guarida a dois dos rivais do Empalador ao trono: o supracitado Dan III e Vlad, o Monge, um filho bastardo de Vlad Dracul. Com a diplomacia que o tornou um astro, Drácula respondeu invadindo a Transilvânia e destruindo várias cidades colonizadas pelos alemães, além de atacar caravanas de comerciantes saxões que adentravam a Valáquia. Mais uma vez: para os padrões da diplomacia contemporânea, pode não parecer a coisa mais bela do mundo, mas, no seu devido contexto, foi uma maneira mais ou menos padrão de resolver atritos de natureza econômica. Poder-se-ia alegar isso e, ainda assim, mostrar o príncipe como um governante que colocava os interesses de seu país em primeiro lugar. Mas, claro, isso poderia dar a impressão de que um sujeito que recebeu a alcunha de "o Empalador" não era exatamente um docinho de côco e resultaria em ambiguidade moral complexa demais para ser abordada em propaganda.
Prosseguindo, Drácula recebe uma convocação do rei da Hungria, que mediará um armistício entre o príncipe e a Transilvânia. O representante enviado, entretanto, acaba amarelando ou sendo enrolado (não fica muito claro) e celebrando um tratado de paz altamente favorável aos comerciantes por tempo indeterminado, contrariando os desejos do princípe, que queria, no máximo, um armistício (mentira: na vida real, Drácula, a fim de manter uma boa relação com o rei da Hungria, cujo apoio político era essencial para manter o trono e resistir à ameaça otomana, acabou concordando em rever sua política tributária e reembolsando os prejuízos causados por seus ataques nas cidades saxônicas; mais tarde, o príncipe romeno acabaria violando o tratado). Drácula engole a raiva e poupa o representante (quando, na vida real, provavelmente executaria o idiota brutalmente).
Entrementes, alguns dos boyars do lado de Vlad, de saco cheio com essa vida de trabalho, decidem se mancomunar com os nobres da Transilvânia. O plano dos traidores é executar o voivode quando ele está fazendo suas orações, na capela do castelo. O príncipe, entretanto, dá uma de Vincent Price e deixa um boneco encapuzado ajoelhado diante do altar, o qual os conspiradores atacam a espadadas, sendo flagrados no ato e tendo destino previsível (esse episódio, embora não seja historicamente preciso, pelo menos é plausível - Drácula tinha um dom quase sobrenatural para farejar complôs).
Irado com a sacanagem dos turcos, que continuam invadindo e atacando aldeias próximas ao Danúbio, apesar de a Valáquia continuar pagando "tributo" de vassalagem ao sultão, para mantê-lo satisfeito, Drácula decide mandar a diplomacia para a profissional do sexo que lhe deu à luz e parar de pagar. Três anos se passam e emissários de Mehmed II vem cobrar satisfações sobre a inadimplência do voivode.
Aqui finalmente temos uma cena em que o filme não adocica o fato em que se baseia. As vítimas variam conforme a fonte (alguns dizem que foram emissários do Vaticano, outras que foram turcos), mas a essência é a mesma: os três emissários adentram o salão do palácio do príncipe para indagar o motivo de não ter havido pagamento do tributo nos últimos três anos. Drácula, curiosamente bem humorado, indaga por que os cidadãos não tiraram seus turbantes, como mandam os bons costumes. Os três zebas respondem que sua religião o proíbe, "especialmente diante de infiéis". Após uma aparentemente gratuita discussão ("E se o vento tirar seus turbantes? Será pecado também?", indaga Vlad. "Sim, mas não muito grande, pois teria sido contra nossa vontade." "Mas se vocês saem ao vento, assumem o risco de ter os turbantes arrancados. Alá não deve ser ofendido, nem proposital nem acidentalmente."), Drácula mostra ser um um homem à frente de seu tempo, mandando uma resposta ao sultão que sintetiza, com perfeição, a máxima de que "uma imagem vale mais do que mil palavras".
HAHAHAHAHAHAHA!!! Badass! Ainda lamento que o filme não contenha a frase de efeito proferida por Vlad antes de mandar pregar os turbantes nas cabeças dos manés ("Eu respeito suas crenças. E quero reforçá-las." O príncipe era praticamente um Bruce Willis medieval.), mas só o fato de terem mantido a história assim (da maneira como o roteiro anda, eu temia que mostrassem os emissários tentando atacar o príncipe, e este fincando pregos nos turbantes "em legítima defesa") já é um ponto positivo para o filme.
Extremamente desgostoso com o rumo das negociações, o sultão manda Yunus Bey (nome islâmico de Thomas Catavolinos, mercenário grego que foi capturado pelos turcos em combate, ficou em cativeiro com Drácula quando este era adolescente e, mais tarde, se converteu ao Islã e se tornou homem de confiança de Mehmed II) para a Valáquia. Quando Catavolinos chega a Tirgoviste, depara-se com uma caravana de carruagens repletas de mercadoria, aparentemente abandonadas. Inquirindo um velhote transeunte sobre o motivo de aquela mercadoria estar abandonada, o grego descobre que não se trata de abandono: os mercadores apenas fizeram uma pausa para almoçar e, como não há mais furtos no país, deixaram, tranquilos a mercadoria desprotegida (fato, ao que tudo indica, verídico; por outro lado, quando se considera a pena para furto e o índice quase inexistente de impunidade na Valáquia de Vlad III, não é de se admirar).
Recebido por Drácula, Catavolinos explica que o tributo foi criado por Murad II, pai do atual sultão, que não tinha vontade de mantê-lo, mas não podia deixar de cobrá-lo, sob pena de demonstrar fraqueza. A proposta de Mehmed II para resolver a desinteligência, explica o grego, é um negócio da China: basta que Drácula não se oponha à passagem de soldados turcos pela Valáquia rumo à Transilvânia e a Hungria. Quando esta for finalmente conquistada, o sultão garante que a Valáquia não será tocada. Tanto era um negócio da China, aliás, que o Empalador histórico, durante um determinado tempo (quando estava consolidando seu poder em casa e eliminando rivais ao trono), aderiu a tal tratado, somente deixando de cumprí-lo quando tinha deixado as coisas suficientemete em ordem para se dedicar integralmente a combater os turcos. Pode parecer hipocrisia, ainda mais quando se leva em consideração que Vlad Tepes se tornou um herói nacional na Romênia basicamente porque impediu que o país fosse ocupado pelos turcos, mas dentro do contexto, era uma questão de bom senso e pragmatismo político: o príncipe chegou ao poder em um país caótico, com uma aristocracia hostil e traiçoeira, vários rivais ao trono, criminalidade vultosa, economia estagnada e forças armadas ínfimas. O apoio da Hungria morreu com Hunyadi e a vizinha Transilvânia não só não ajudava, como apoiava rivais do voivode ao trono. Torna-se perfeitamente compreensível que, em tais circunstâncias, o homem entrasse temporariamente em acordo com os turcos, por mais que lhe desagradasse. Contudo, como já falei reiteradas vezes, o objetivo do filme não é contar uma boa história, com questões intrigantes e personagens complexos, mas apenas fazer propaganda do regime romeno. O Drácula do filme, portanto, responde com um firme "NÃO", alegando que a Valáquia se tornaria "uma ilha num mar muçulmano" e que, mais cedo ou mais tarde, os turcos quebrariam a palavra. Catavolinos insiste, sem sucesso, e, vencido, acaba propondo uma reunião com o sultão na fronteira, em Giurgiu, onde, conversando, os dois governantes acabarão se entendendo. O príncipe acede, pois, afinal, é um homem de extrema boa vontade e sempre aberto ao diálogo com seus opositores. Como era o grande líder, Nicolae Ceauşescu.
Tenho que comentar, ainda, que a cena mostra Catavolinos como um tremendo covarde, que só passou para o lado turco porque achava que o Império Otomano acabaria dominando o mundo. Sem nenhum exagero, todos os diálogos são proferidos pelo ator que o interpreta com uma voz trêmula, tímida e insegura - parece que o homem está prestes a chorar diante de qualquer ameaça. A idéia é que só um pusilânime desprezível acabaria se convertendo à religião do inimigo e se tornando um servo deste. Pelo pouco que sei sobre o personagem, estou inclinado a acreditar que tal retrato é injusto: Catavolinos não era um bundão frouxo que passou para o lado do inimigo por medinho; ele era um mercenário (portanto, só estava defendendo o próprio bem-estar financeiro) dos mais competentes que, após um longo período aprisionado pelos turcos, acabou aderindo à religião destes e adotando sua causa. Parece-me mais plausível que essa conversão tenha ocorrido por convicção genuína (em caso contrário, por que porra um mercenário "mudaria de causa" e permaneceria fiel a esta? À primeira oportunidade, o indivíduo acabaria se voltando contra seu novo empregador, coisa que Catavolinos não fez), tal como se costuma retratar de forma "edificante" em filmes como Dança com Lobos e O Último Samurai. A ótica limitada deste filme, contudo, não consegue conceber tal possibilidade - se o cara foi pro lado dos turcos, só pode ser um covarde sem um pingo de fibra ou princípios. Trata-se, por outro lado, de uma bela lição para aqueles pseudointelectuais que ejaculam na cueca toda vez que um filme iraniano insuportavelmente chato entra em cartaz e criticam o cinema norte-americano por ser "ignorante", "intolerante" e "etnocêntrico".
Drácula vai à reunião e (por essa eu não esperava!), trata-se de uma cilada: um exército de centena de otomanos está esperando o voivode. Mal sabem eles que Drácula, com seu inimitável detector de roubadas, tem uma cilada ainda maior preparada (e se Mel Gibson não viu essa cena antes de dirigir Coração Valente, eu sou Spartacus).
Os soldados valáquios perseguem os turcos até a fortaleza de Giurgiu, um memorável quebra-pau se segue, com derrota dos otomanos e avanço do exército do empalador Império Otomano adentro, capturando várias fortalezas estratégicas dos turcos às margens do Danúbio.
Mais uma vez, o roteiro "reimagina" fatos históricos, para fazer Vlad III parecer a epítome da perfeição: na verdade, não houve tentativa de emboscada nenhuma. Drácula simplesmente concluiu, após colocar a casa em ordem e passar três anos sem pagar o tributo ao sultão, que uma invasão otomana em grande escala era inevitável. Astucioso, o príncipe decidiu fazer, na surdina, um ataque preventivo: aproveitando que a maior parte do exército otomano estava do outro lado do mundo, no cerco de Coríntio, o Empalador fez uma estratégica série de ataques-surpresa a fortalezas mantidas pelo inimigo dos dois lados do Rio Danúbio, minando consideravelmente a vantagem que o sultão teria em uma tentativa de invasão da Valáquia.
No meio da diversão, o Empalador é informado que, do outro lado de seu reino, uma invasão comandada por Dan III e um exército de mercenários está ocorrendo (é, esse indivíduo o roteiro deixa claro que tentou tomar o trono com o auxílio de um exército de mercenários). Tendo em vista a desvantagem numérica dos soldados valáquios que resistem à invasão (já que a maior parte do exército está esculachando os turcos), Drácula manda que estes recuem e criem obstáculos para os invasores até sua chegada, em dois dias. Anuncia, ainda, que quer Dan e seus boyars capturados vivos.
Não vemos a batalha entre os homens de Vlad e Dan III, só o resultado: o segundo e seus boyars são derrotados e capturados e, num raro momento de fidelidade histórica, Drácula determina que Dan cave sua própria cova, enquanto seus ritos fúnebres são lidos por um padre. "Se ele não soube morrer como um voivode", justifica o príncipe, "que pelo menos seja sepultado como um".
Corta para o sultão, que, emputecido, convoca Radu, irmão de Vlad, e o ameaça de morte. Borrando-se de medo, a alternativa que o mancebo encontra para tirar o seu da reta é se oferecer para combater o irmão. Mais uma vez, o roteiro simplifica a situação e deixa uma porrada de perguntas sem resposta. Em primeiro lugar, quem é Radu e por que ele está entre os turcos? Radu Drácula, ou Radu, o Belo, como o rapaz era conhecido (porque... bom, acho que o apelido é auto-explicativo), era o irmão mais novo e bem-apessoado de Vlad III, que ficou em cativeiro otomano com este. É inegável que a história demonstra uma certa fraqueza de caráter do príncipe - afinal, ao contrário do irmão, ele se deixou aculturar no cativeiro. Por outro lado, Radu tinha oito anos de idade quando se tornou refém dos turcos, o que torna mais fácil assimilar sua conversão. Mas, enfim, Radu acabou se tornando um dos assessores mais próximos de Mehmed II (acredita-se que essa confiança decorria do fato de os dois serem mais do que simples amigos, se é que vocês me entendem, e acredito que entendem) e pretendente ao trono da Valáquia (em parte porque It's Good to be the King, e, em parte, porque ele e Vlad se detestavam desde crianças) e, como sua conversão ao Islã tornava praticamente impensável qualquer apoio europeu à sua pretensão, se apresentou ao sultão como um voivode valáquio bem mais viável que seu irmão inflexível. Foi assim que, quando Drácula finalmente emputeceu o Mehmed, Radu participou, ao lado deste, da invasão da Valáquia. Não porque o sultão deu um faniquito, ameaçou matá-lo e o jovem, desesperado, apelou pra qualquer negócio.
Os turcos cruzam o Danúbio e Drácula parte para lhes dar boas-vindas. Emputecido, o voivode toma conhecimento de o exército não compareceu todo porque parte dos boyars (sempre eles) amarelou e não quis marcar presença. O proletariado, contudo... digo, os camponeses, inclusive idosos e crianças, compareceram em massa (outra lorota). O rei da Hungria, Matthias Corvinus (filho de João Hunyadi, embora o filme não faça menção a isso) também está se dirigindo para ajudar a Valáquia, mas, observa o príncipe, ainda se encontra na metade do caminho e provavelmente não chegará a tempo de influir decisivamente no combate. Mais uma vez, Drácula constata que terá que se virar sozinho para defender sua pátria da agressão imperialista estrangeira, como Cuba faria cinco séculos mais tarde... HAHAHAHAHA, mais uma piada de comunista. Eu me mato de rir. Estou sacaneando, claro: se Fidel não tivesse corrido pra barra da saia da mãe, a URSS, sua "revolução socialista" não teria durado três anos.
A maneira como a resistência à invasão otomana é retratada no filme é um dos poucos momentos de fidelidade histórica do roteiro e mostra o brilhantismo de Drácula como estrategista militar. Percebendo que a inferioridade numérica de seu exército tornaria suicida uma guerra travada nos moldes tradicionais, o voivode bateu estrategicamente em retirada e, conhecendo a geografia de seu país muito melhor que o invasor, utilizou, para enfraquecer a máquina de guerra turca, táticas de guerrilha e o equivalente medieval de guerra biológica: ordenou que seus homens queimassem todas as aldeias e plantações, matassem todo o gado e envenenassem todos os poços d'água, deixando o exército invasor privado de água e alimentos. Qualquer destacamento de soldados que se afastasse do exército (como ocorre, no filme, com um pelotão que Mehmed envia para buscar água no Danúbio) era emboscado pelos valáquios, caravanas de suprimentos eram aniquiladas e os acampamentos do exército otomano eram assolados por constantes ataques-surpresa noturnos. Só lamento que tenham deixado a tática mais sacana de fora: colocar portadores de doenças contagiosas para se infiltrar entre os turcos, espalhando moléstias entre os soldados inimigos. Mas tudo bem. Contribuindo ainda mais para derrubar o moral dos invasores, Mehmed e seu exército se deparam, no meio da marcha, com a legendária "floresta dos empalados", a mais famosa obra de Vlad Tepes, erigida com os corpos de Thomas Catavolinos e seus homens, agora em avançado estado de decomposição.
Lamentavelmente, o orçamento dedicado aos efeitos especiais da produção parece ter sido o equivalente a uma semana de ração... digo, alimentação... de um cidadão da Romênia de Nicolae Ceausescu. O momento em que o exército turco se depara com a floresta dos empalados é excelente - a marcha se interrompe abrutamente, a câmera dá um zoom no rosto de Mehmed e, em seguida, corta para o motivo de seu estarrecimento: uma quantidade considerável de abutres sobrevoando a área e, descendo, revela, abaixo destes, as centenas de corpos empalados (reza a lenda que a "floresta" era composta por vinte mil cadáveres, mas provavelmente se trata de exagero). Quando o exército passa por entre os corpos, entretanto, fica patente que os "cadáveres" são aqueles esqueletos de plástico vagabundos, encontrados em qualquer festa de Halloween. Para ser justo, a iluminação até tenta disfarçar, mas a tosqueira é óbvia.
Aproveitando o declínio do entusiasmo dos turcos, o Empalador decide dar o golpe de misericórdia que encerrará de vez a invasão: seus homens capturam uma caravana que trazia água do Danúbio, mata os soldados e rouba os uniformes. Disfarçados, os soldados, liderados por Drácula (que, lembre-se, passou quatro anos vivendo entre os turcos e fala o idioma fluentemente), se infiltram no acampamento do sultão. Quando cai a noite, o voivode invade a tenda de Mehmed, desce a punhalada no ocupante da cama, e incendeia a tenda, sem saber que seu alvo, na verdade, havia saído para fazer sabe-se lá o que e o mané adormecido era só um zeba qualquer (provavelmente um amante do sultão, que, apesar da fé islâmica, era chegado também num oba-oba com ambos os sexos). Entrando no clima de "já matou", Drácula, ainda disfarçado, sai pelo acampamento anunciando que os infiéis se disfarçaram e mataram o sultão, provocando uma tremenda desordem, que o exército valáquio aproveita para desferir mais um ataque surpresa, numa cena de batalha extremamente bem-dirigida, a despeito da fotografia escura. O resultado é uma tremenda sova sofrida pelos muçulmanos, seguida por uma estratégica batida em retirada dos valáquios. Embora o filme não mostre e nenhuma fonte histórica respalde minha tese, acredito que os romenos saíram com uma mão segurando as rédeas dos cavalos e a outra voltada para trás, punho cerrado exceto pelo dedo médio erguido.
Amanhece o dia e Drácula está feliz da vida, seguro de ter dado cabo do sultão. Segue-se uma ridícula cena em que o voivode, alegre, lampeiro e, pela primeira vez no filme, exibindo um sorriso que não esconde a segunda intenção de matar algum mané, observa seus soldados dançarem e cantarem (parece que os diretores achavam que o Empalador era adepto da mesma escola de RP que Boris Ieltsin).
Enquanto isso, tudo é tristeza entre o exército invasor: com o moral dos homens em baixa e sua superioridade numérica severamente reduzida, Mehmed resolve dar para trás e voltar para a terrinha. Persistente, contudo, o sultão ainda não se dá por vencido e o roteiro se sai com mais uma picaretagem: é revelado que um destacamento de soldados turcos, liderado por Radu, sequestraram as famílias dos boyars que apoiaram Vlad III.
No acampamento de Drácula, este leva um chute nos bagos seguido, rapidamente, por outro ainda mais severo: é informado por um de seus homens que Mehmed ainda está vivo e, pouco depois, seus boyars são confrontados por Radu e colocados diante do seguinte dilema: ou traem Drácula e passam para o lado do inimigo, condenando o príncipe ao exílio, ou suas mulheres e filhos viram comida de minhoca. Altruísta, o príncipe não suporta ver seus homens sofrerem o peso de tamanha decisão e os ordena que o abandonem, aduzindo que vai fugir e buscar apoio junto ao rei húngaro, e, assim, retornar e recuperar o trono. É tudo muito comovente e mais mentiroso do que os comerciais do Walter Mercado.
Na verdade, o que ocorreu foi o seguinte: Drácula, de fato, acabou botando os turcos para correr, mais ou menos da maneira como o filme mostra. Mehmed II, entretanto, não entregou completamente os pontos. Ele deixou Radu na Valáquia com um contingente de soldados para tentar conseguir o que não foi possível através das armas mediante diplomacia. A tática funcionou: por mais que Drácula tenha contribuído para a prosperidade da Valáquia e protegido seu principado de invasores estrangeiros, a verdade é que ninguém se sentia 100% seguro ao lado do príncipe. Entre ficar com um príncipe que podia, a qualquer momento, num surto de paranóia ou simplesmente um acesso de mau-humor, empalar o infeliz que estivesse por perto e a lábia de Radu - que prometia manter a autonomia da Valáquia em relação ao Império Otomano e uma liderança mais "flexível" - os aristocratas acabaram sendo convencidos a optar pela segunda alternativa. Pois é, eram um bando de cretinos covardes. Como já dizia a Madre Teresa, eu odeio gente. Drácula, diante de tal sacanagem, fugiu para a Hungria, buscando o apoio de seu, então, aliado, o rei Matthias Corvinus.
De volta ao filme: mal sabe o príncipe que forças ocultas conspiram contra seu plano. Com "forças ocultas", claro, quero dizer "a burguesia detentora dos meios de produção e opressora das massas": os comerciantes de Brasov recebem uma carta de Radu solicitando seu apoio para impedir que o rei húngaro se alie ao Empalador. Inescrupulosos, os filhos da puta forjam uma carta de Drácula para o Sultão, na qual aquele se rende às forças otomanas e oferece sua vassalagem e colaboração na invasão da Transilvânia e da Hungria. Em seguida, dão um jeito de a carta cair na mão de Corvinus. Drácula chega à Hungria achando que vai ser recebido de braços abertos e acaba sendo recebido com um baculejo e aprisionado como traidor.
O filme se encerra assim, com legendas nos informando que Drácula passou doze anos como prisioneiro do rei húngaro, voltando ao poder novamente em 1476, com o apoio de Corvinus e de seu primo, Stefan, príncipe da Moldávia. Seu reinado, contudo, só duraria dois meses, encerrando-se com seu assassinato. Fim.
Essa conclusão é... mas ou menos verdadeira. De fato, Drácula foi buscar refúgio na Hungria, esperando que o rei lhe desse o apoio militar necessário para retomar seu principado. De fato, o voivode acabou sendo preso por Matthias Corvinus, em razão de correspondências que - tudo indica - foram forjadas por seus inimigos políticos, para sabotar qualquer possibilidade de retorno do Empalador ao trono da Valáquia. Com "tudo indica", entretanto, quero dizer que era óbvio para praticamente todo mundo que a correspondência era forjada. Os termos com que ele suplicava o perdão de Mehmed II nas cartas eram exageradamente submissos, exagerados e distintos do tom utilizado pelo príncipe em suas correspondências; comparados com a atitude radical e inflexível de Drácula, tornavam-se risíveis. Eram o equivalente medieval aos "fundamentos" de teorias conspiratórias retardadas que circulam por aí hoje em dia (como a história de que foi o governo Bush quem arquitetou o ataque ao World Trade Center ou aquela série idiota de livros e filmes "Deixados Para Trás", que sustenta que o Anticristo vai ser [pffffff] o Secretário-Geral da ONU). E, também ao que tudo indica, "todo mundo" incluía o rei húngaro. À época, Matthias Corvinus estava tendo conflitos internos para consolidar seu poder e não estava muito interessado em travar uma guerra em dois fronts. A idéia de deixar Radu Drácula no comando da Valáquia (que permaneceria independente e, ao mesmo tempo, em razão das boas relações entre o novo voivode e o sultão, impediria uma invasão turca), parecia, a curto prazo, mais conveniente. Foi, em síntese, por isso que, apesar de todo mundo achar as "correspondências traiçoeiras" uma fraude gritante, Corvinus preferiu dar-lhes credibilidade e sacanear com seu aliado. É óbvio que nem a pau um filme maniqueísta e obviamente destinado a ser utilizado como propaganda nacionalista/comunista insinuaria tal coisa contra os companheiros socialistas da Hungria, de modo que Vlad Tepes prefere retratar Matthias Corvinus como um inocente manipulado pela burguesia mercenária. Enfim, doze anos mais tarde, com o poder consolidado, o rei húngaro ficou de saco cheio com o voivode valáquio, Basarab Laiota (sucessor de Radu, que morreu de sífilis), que estava sendo amistoso demais com os otomanos para seu gosto. Drácula, nesse ínterim, havia feito o possível para conquistar a confiança de Corvinus, tendo, inclusive, se convertido ao catolicismo romano e se casando com uma aristocrata húngara - provavelmente uma prima ou sobrinha do rei. Assim, Tepes finalmente conseguiu apoio militar húngaro e moldávio para retomar seu trono. Como o filme aduz, contudo, ele só durou dois meses no trono, sendo assassinado em circunstâncias obscuras, que abordarei depois.
Quem costuma ler os message boards da IMDB sabe que, sempre que fazem um filme americano sobre personagens ou eventos históricos de outro país (como o Alexandre de Oliver Stone), há sempre um bando de idiotas desocupados que, imbuídos de orgulho patriótico, tratam de expressar sua insatisfação, geralmente através de textos escritos com a irretocável verve de um semi-analfabeto com paralisia cerebral, com o que julgam ser a "distorção de nossa história pelos ianques ignorantes". O caso mais hilariante que me vem à mente foi a histérica revolta dos iranianos com 300, que, alegavam os "descendentes dos persas", era "uma declaração de guerra" ao seu país e ao Islã. Porque, como qualquer pessoa sensata pode perceber ao ver o filme, a intenção de Frank Miller e Zack Snyder era retratar a batalha de Termópilas priorizando o realismo e a fidelidade histórica. E o Irã contemporâneo e o islamismo têm tudo a ver com o Império Persa. Vlad Tepes é o filme que todos esses manés com excesso de sensibilidade deveriam assistir. Parece que a obra foi a maneira que a Romênia encontrou para dizer: "Viu? Nós conseguimos distorcer nossa história e inventar lorotas com a mesma criatividade que qualquer ianque ignorante!" Aposto que, se John Wayne estivesse vivo e disposto a trabalhar por um prato diário de papa, eles teriam colocado The Duke para interpretar Drácula. O filme consegue ser mais fantasioso que o americano Dark Prince e, ao contrário deste, tem um roteiro praticamente ininteligível para quem não vai ao filme sem saber alguma coisa sobre Vlad Tepes e o contexto histórico em que este viveu. E quem sabe vai apenas se irritar com as "licenças dramáticas".
Como já falei, boa tarde da infâmia atribuída a Vlad Tepes se deve, em parte, à propaganda disseminada por seus inimigos desde sua própria época. O filme, entretanto, sustenta que TODA má fama da figura decorre de propaganda inimiga, o que já é demais para engolir, e acaba sendo o primo romeno de O Patriota. Como o "épico sobre a Revolução Americana" de Roland Emmerich, Vlad Tepes pega um personagem histórico de inegável importância a seu país (Francis Marion, no caso de O Patriota), mas de métodos brutais e valores moralmente questionáveis, e o eleva a uma condição de retidão moral tão extrema que se torna implausível e, francamente, risível para quem já estudou a figura (O Patriota, pelo menos, teve o senso de ridículo de mudar logo o nome do personagem e torná-lo uma figura fictícia "inspirada em fatos reais"). O Drácula do filme é um personagem que sempre toma as decisões corretas, nunca comete uma injustiça, nunca peca pelo excesso e só usa da violência e da intimidação quando estes recursos se tornam a única alternativa possível. É praticamente um Billy Jack romeno. Não há qualquer ambiguidade moral, qualquer momento em que a superioridade ética do homem seja colocada em dúvida. E é até bom, porque, caso houvesse, seria impossível para o espectador chegar a qualquer conclusão, por falta de fundamento: sua infância, sua adolescência em cativeiro turco, a deposição e assassinato de seu pai, enfim, tudo que poderia contribuir para entender como sua personalidade se formou são deixados de lado. Pensando bem, eu fui injusto: o personagem de Mel Gibson em "O Patriota" podia não ser um enigma, mas pelo menos o filme deixa brecha para que o público questione algumas de suas ações. E até aquela história manjada de "homem com um passado sinistro que encontrou a paz interior nas coisas simples da vida" é mais instigante que o maniqueísmo que vemos aqui.
O mais triste é que, assim como Dark Prince, Vlad Tepes não é um filme tosco. Percebe-se que havia potencial para fazer algo de respeito. A reconstituição de época é bastante autêntica e o fato de as filmagens terem sido feitas na região onde a história se passou também não atrapalha. A edição faz o filme fluir com um bom ritmo (com exceção de algumas transições toscas que, creio eu, decorreram de censura) e as cenas de batalhas são bem dirigidas, realistas e, por vezes, empolgantes - coisa surpreendente para um filme feito na Romênia comunista de 1979. Stefan Sileanu está excelente como o protagonista - a interpretação do ator corresponde, pelo menos superficialmente, à imagem que eu tinha do Drácula histórico (ao contrário do Empalador de Rudolf Martin, que parece fantasia de alguma adolescente gótica) e é lamentável que roteiro não confira um mínimo de complexidade ao personagem. E aquele bigodão gigantesco é totalmente badass. O resto do elenco não chama a atenção. O problema, contudo, não é com os atores (que fazem o trabalho com profissionalismo), mas com os personagens, que são estereótipos (como se pode inferir do texto, não lembro do nome de nenhum dos companheiros de Drácula e só lembro de figuras como Radu e Catavolinos porque já tinha lido sobre eles): temos "os aristocratas covardes e traiçoeiros", "os burgueses gananciosos", "o braço-direito leal", os "camponeses puros e honestos" e assim por diante. Personagens relevantes à história, como Matthias Corvinus e seu pai, Janos Hunyadi, são ignorados ou entram em cena perfunctoriamente, sem deixar qualquer impressão. Mehmed II, que poderia ser um vilão brilhante, não tem qualquer traço de personalidade marcante: a única coisa que se sabe é que ele quer dominar o mundo e manda matar os subalternos que não atendem às suas expectativas. Tudo bem, ele era assim mesmo, mas também era um muçulmano bissexual, um mecenas, um entusiasta da cultura renascentista e um megalomaníaco que queria entrar para a História ao lado de figuras como Alexandre, Júlio César e Aníbal. Dava para transformar o personagem em algo mais que "vilão barbudo de turbante". E, apesar da excelente interpretação de Sileanu, o roteiro não trata Drácula de forma muito diferente: ele é simplesmente um sujeito fodão de bigode. A única diferença é que ele é "do bem" e "está preocupado com o bem-comum", enquanto seus inimigos "só pensam em acumular bens materiais". Por mais entusiasmo que eu eu tenha por heróis fodões e bigodudos (uma raça em trágica extinção, mas que um dia renascerá; então, ao invés de Keanu Reeves e Tom Cruise, teremos novamente heróis de ação como Franco Nero, Maurizio Merli, Burt Reynolds e Tom Selleck), é um desperdício. Sei que estou batendo na mesma tecla e que minhas críticas não fazem sentido, pois a intenção dos produtores nunca foi fazer um épico histórico, mas usar um personagem histórico para fazer propaganda política. Mesmo assim... porra... Será que não dava para fazer um filme decente e apresentar a abobrinha ideológica de forma um pouco mais sutil? Como em, digamos, A Profecia (que, segundo certas teorias, bastante interessantes, é propaganda anti-católica). Mesmo com todos os defeitos de Dark Prince, sou obrigado a concluir que os ianques ignorantes acabaram fazendo um filme mais fiel à vida de Vlad, o Empalador, do que seus conterrâneos.
E... porra, dava para acabar o filme de forma menos broxante do que um letreiro explicando o que aconteceu com o protagonista? Principalmente porque a morte de Drácula é o tipo de negócio mal contado que qualquer escritor com um mínimo de imaginação poderia explorar (como já fizeram em livros como Children of the Night, de Dan Simmons, e Lord of the Vampires, de Jeanne Kalogridis). Há pelo menos duas versões: segundo a primeira, Drácula teria se disfarçado de turco durante um combate e sido, por um mal-entendido, morto por um de seus homens. A outra versão, mais aceita, é a de que os turcos infiltraram um assassino entre a guarda do príncipe, o qual o assassinou. Qualquer que seja a versão, o fato é que a cabeça de Drácula foi levada a Constatinopla, para exposição pública em uma estaca, e o corpo decapitado, enterrado no monastério de Snagov. Ambas as versões fedem a lorota, pois 1) Vlad Tepes não era um débil mental e 2) o detector de emboscadas do homem era tremendo. Considerando-se que o século XV não era, precisamente, a era da informação (dificilmente alguém ia comparar minuciosamente a cabeça decepada com o Orkut de Vlad) e que não era muito difícil arranjar uma cabeça romena bigoduda e nariguda (que provavelmente estaria apodrecendo ao chegar em Constantinopla), as possibilidades de teorias conspiratórias mirabolantes são imensas. E o filme reduz tudo isso a um letreiro de 30 segundos.
Seria, então, uma perda de tempo ver o filme? Não. Embora o filme não seja propriamente tosco, a propaganda política descarada é hilária. Eu diria que, como o Superman IV, é um filme ideologicamente trash, feito por gente que achava que o público era totalmente idiota e não perceberia as "mensagens" óbvias. E gente que defende o comunismo/marxismo/blábláblá com um misto de convicção inabalável e argumentos de adolescente emputecido porque ficou de castigo é sempre fonte de humor involuntário da melhor qualidade.
Finalmente, um disclaimer: antes que algum débil mental... digo, marxista orgulhoso me envie uma mensagem mal redigida, acusando-me de ser um fascista reacionário ou um burguesinho alienado, adianto que minha orientação política coincide com o que a maioria das pessoas costuma associar à esquerda. A título de exemplo (e tenho certeza que alguns de meus colegas blogueiros vão me sacanear incansavelmente depois de ler isso), votei no Lula duas vezes (e provavelmente votarei no candidato que ele apoiar), acho que o bolsa-família é um programa bem estruturado que só não funciona como devia por causa das administrações municipais, sou defensor da legalização do casamento gay, da regulamentação jurídica da prostituição como profissão legítima, da descriminalização do comércio de entorpecentes, da Lei Maria da Penha e, se fosse americano, provavelmente estaria entre aqueles manés que festejaram a vitória de Barack Obama como se fosse a segunda vinda de Cristo. Não concordo, contudo, com o sociologismo generalizado da esquerda sobre política criminal (em outras palavras: acho que investir no social pode gerar redução de criminalidade daqui a trinta anos, mas com o que já está podre, acredito que a prática mais sadia é excluir do convívio social e, se possível, do plano material) e odeio a abominação fascista que se convencionou chamar de "politicamente correto". Há, contudo, uma nítida diferença entre ser "progressista" e ser tapado. Eu sei que aquelas baboseiras de Karl Marx fazem sentido quando analisadas dentro do contexto histórico em que foram redigidas, que ainda se pode destilar algo de útil daquele amontoado de baboseiras (nada, porém, que o bom senso não ensine de forma bem menos trabalhosa) e blábláblá, mas que se foda. Usar hipérbole é mais divertido. Aquilo é uma bosta. É o equivalente ideológico a defender que a Terra é quadrada. E se Vlad Tepes estivesse vivo hoje, certamente concordaria comigo. Com a diferença que, ao invés de escrever um blog divagando interminavelmente sobre filmes, ele empalava gente. Reflitam sobre isso, amigos.
Isso mesmo. Pode sacanear. Estou escrevendo um post usando o título de uma música de Dorgival Dantas. Pode ser considerado (e eu considero) bastante imbecil, mas explica perfeitamente minha relação com este filme. Podia ser pior: se eu tivesse escolhido um hino de corno do Amado Batista ou alguma mela-cueca do Alexandre Pires, a pertinência temática seria a mesma.
O filme, submetido a uma análise mais detida, é uma porcaria. A primeira vez que assisti, minha conclusão foi, basicamente: "as cenas de ação são do caralho (inacreditável que tenham sido dirigidas por um picareta do calibre do tal "McG"), Bryce Dallas Howard e Moon Bloodgood são gostosas, Christian Bale e Sam Worthington são fodões, o Arnoldão CGI e Michael Ironside são totalmente kickass, mas a premissa do roteiro é essencialmente imbecil e a caracterização é quase nula." Enfim, terminei com a sensação de que o filme até que deu pro gasto (principalmente porque minhas expectativas não eram das melhores), mas não o suficiente para ver outra vez.
Entretanto, uma série de fatores conspiraram para resultar na minha doentia relação de atração/repulsa por esta "obra". Primeiro, foram as súplicas desesperadas de milhares de fãs deste blog. Com "milhares de fãs", quero dizer, na verdade, o Just Daniel, do Nascido em 29 de Março, um dos quatro ou cinco bem-aventurados que, creio eu, acompanham este site quando a única alternativa viável de entretenimento é ver tinta secar. Por "súplicas desesperadas", entenda-se que o Danny Boy deixou uma mensagem perguntando se ia ter post sobre o filme e dizendo que estava a fim de debater a série com alguém. Respondi com um comentário sucinto (para meus padrões), não muito diferente do parágrafo anterior, ao que o JD replicou suscitando alguns pontos bastante interessantes. Em seguida vieram os posts do Ronald Perrone e do Felipe Guerra. O primeiro apresentou uma visão bem mais positiva do filme que a minha; o segundo apontou buracos ainda mais escabrosos no roteiro do que eu havia percebido. Tudo isso, somado à minha compulsão de sempre ver qualquer filme pelo menos duas vezes (minha opinião definitiva geralmente só se forma assim), acabou me levando a assistir a Terminator Salvation mais uma vez. E para minha surpresa, um estranho fenômeno, até então inédito em meu contato com o cinema, ocorreu: concluí que o filme era uma porcaria ainda mais lastimável do que eu havia pensado da primeira vez e, ao mesmo tempo, percebi que também gostei ainda mais do filme na segunda vez que assisti. E tenho certeza que voltarei a vê-lo. E acabarei comprando o DVD.
Devo esclarecer que não gostei do filme da maneira como gosto, por exemplo, de The Incredible Melting Man. Gostei genuinamente desta porcaria. Poucas vezes na vida meu intelecto e meus sentidos sofreram tamanho conflito. Como um corno manso que insiste em manter seu "relacionamento" com a maior vadia do bairro, embora esta ataque descaradamente qualquer coisa que tenha um pênis, cheguei à amarga conclusão de que adoro este filme, mesmo reconhecendo que se trata de uma típica porcaria caça-níqueis hollywoodiana. Como explicar tamanha inconsistência? Não sei. Só sei que é para desvendar tal mistério que, cerca de dois meses após praticamente todo mundo já ter visto e esquecido o filme, vou analisá-lo em mais um "texto interminável", como costumam dizer meus milhares de fãs (mais uma vez: "milhares de fãs"="JD e Ronald Perrone, que passam bem longe do conceito convencional de 'fã' " e "costumam dizer"="comentaram uma ou duas vezes").
O filme se inicia em 2003, com uma cena onde somos apresentados a Marcus Wright, (Sam Worthington), hóspede do corredor da morte na iminência de descobrir se a injeção letal é mesmo indolor, e a Dra. Serena Kogan (Helena Bonham-Carter), que tenta convencê-lo a assinar um documento permitindo que seu presunto seja usado em pesquisas científicas após sua execução. Marcus, ao contrário da maioria dos inquilinos de sua ala, não está nem um pouco interessado em procrastinar o cumprimento da pena e nem em ter uma "segunda chance" (argumento utilizado pela cientista para persuadí-lo) - o rapaz parece concordar plenamente com a sentença que recebeu. Finalmente, ele acede, em troca de um beijo da obviamente moribunda Dra. Kogan ("Então é esse o gosto da morte", observa o cidadão, após o amasso), e encerra a conversa afirmando, com todo seu joie de vivre: "Sou culpado. Corte-me até não restar nada." Segue-se a execução do personagem.
É uma boa sequência de abertura. Em primeiro lugar, deixa o espectador perdido - a cena se passa em 2003, aproximadamente pouco antes ou durante os eventos do T3, mas nenhum dos personagens parece ter qualquer relação com a continuidade da série - até Kogan sair e percebermos que a autorização assinada por Marcus cede seu corpo à Cyberdine Systems. As interpretações são decentes e o personagem de Wright, em particular, é intrigante. Trata-se de um daqueles raros casos em que o ator faz os sentimentos de remorso e repugnância por si mesmo do personagem parecerem genuínos e não uma frescura emo. O único outro caso recente que me vem à cabeça é o Budd de Michael Madsen em Kill Bill. Contribui para prender a atenção do espectador o fato de nunca ficar claro em que consistiu seu crime - ele apenas alude ao fato de ter provocado a morte de seu irmão e dois policiais. E, é óbvio, o personagem deve ter algum papel relevante na trama - afinal, por que outro motivo começariam o filme com essa sequência?
Corta para 2018, quando o holocausto nuclear provocado pelas máquinas já aconteceu e a guerra entre estas e a humanidade (com franca desvantagem para a humanidade) está em andamento. John Connor (que ainda não se tornou o líder previsto nos outros filmes da série, mas é visto por alguns como "um falso profeta" e por outros como um salvador) e uma tropa de soldados da Resistência chegam a uma base da Skynet para obter informações (o que, exatamente, não se sabe) e o pau come: após sua unidade cumprir a missão (descobrindo, de quebra, que há vários humanos aprisionados na base, além do desenvolvimento do projeto do T-800), Connor sobe para verificar por que os colegas que ficaram na superfície não estão respondendo e descobre que estes foram emboscados e massacrados por uma daquelas naves gigantescas da Skynet vistas nos "flashbacks para o futuro" dos filmes anteriores. Connor tenta perseguir a nave num helicóptero, uma explosão imensa se sucede e o helicóptero do herói, para usar uma expressão de South Park, imita a carreira de David Caruso no cinema, caindo numa cena espetacularmente filmada.
Após escapar da queda do helicóptero e de um mano-a-mano com um exterminador partido ao meio, mas ainda assim extremamente anti-social (que é resolvida num mano-a-metralhadora, com óbvia vitória de Connor, o portador da metralhadora), Connor vai à base da resistência chefiada por seu superior, General Ashdown (Michael Ironside, badass!), onde descobre o motivo de toda a operação: a Resistência descobriu um sinal eletrônico que consegue paralisar o funcionamento das máquinas, dando aos humanos a carta na manga que precisavam para vencer a guerra. Tal sinal, explica Ashdown, estava na base de dados invadida pelos soldados.
Enquanto isso, no local da operação, um sobrevivente emerge do subterrâneo, coberto de lama e puto da vida: Marcus Wright, o extremo oposto do Drácula de Leslie Nielsen - ele está inexplicavelmente vivo e nem um pouco feliz.
Enquanto Connor vai testar a nova arma, Marcus vaga sem rumo, tentando descobrir que porra aconteceu com o mundo e como ele foi parar na peculiar posição de condenado à morte que cumpriu a pena e continuou vivo. Chegando a uma Los Angeles deserta e em ruínas, o atormentado mancebo se depara com um vulto. Ao chamá-lo, pensando se tratar de um humano, Wright descobre, da maneira mais desaconchegante possível (qual seja, escapando de uma saraivada de balaços de grosso calibre), que se trata de um T-600 , sendo salvo da situação desagradável graças à engenhosa mente de um pirralho que acaba dando cabo do exterminador: o adolescente Kyle Reese, interpretado por Anton Yelchin, que, no primeiro filme da série, acabará sendo enviado ao passado por Connor e se tornando pai deste.
Aqui, temos mais um ponto em favor do filme: minha primeira reação ao ver Yelchin interpretando o personagem foi "Puta merda, ele parece demais com o Michael Biehn!" Quer dizer, não parece muito, mas as expressões, o timbre de voz e os maneirismos do ator tornam bastante crível que, dez anos mais tarde, ele se tornará o personagem interpretado por Biehn no primeiro filme - sua primeira frase ("Come with me if you want to live", a mesma de Reese no primeiro Terminator) é interpretada com perfeição e provoca exatamente a sensação que, acredito, o diretor visava - imediata identificação do personagem.
Por outro lado, temos também aqui um ponto negativo: a quase inútil coleguinha muda de Reese, Star, uma pirralha de (acho) cinco ou seis anos que não faz muita coisa ma história e nos deixa com a nítida sensação de que colocaram a personagem no filme só para agradar ao "público infanto-juvenil". Ou aos adultos babões que não podem ver uma criança que se derretem. Eu gosto de crianças, não tenho nada contra crianças em filmes (desde que em um contexto que faça sentido), mas essas baboseiras sempre me irritam. Não é nada demais, não prejudica muito o filme, mas me enche o saco. Pra que colocar um personagem infantil "fofinho" onde não tem cabimento? Aposto que o roteirista que concebeu a personagem, se indagado, regurgitaria alguma embromação sobre como seu propósito é mostrar a verdadeira dimensão humana do horror que foi o holocausto nuclear, reduzindo até mesmo crianças a um estado animalesco, onde só a sobrevivência importa, mas tal roteirista que vá fazer amor com sua genitora. Fora o fato de não falar, Star é uma criança bonitinha, aparentemente bastante sadia (nem a pau ela estaria desse jeito num mundo pós-nuclear e se alimentando de "coiote de dois dias") e psicologicamente sã. Talvez um pouco tímida, mas nada fora do normal para uma criança de sua idade. É óbvio que a verdadeira intenção de quem criou a personagem foi que todo mundo no cinema exclamasse "Aahhh... que tosinha más fofa!" quando ela entrasse em cena e que todo espectador com idade de um dígito se identificasse com ela. Quanto ao primeiro grupo, o efeito, comigo pelo menos, não funcionou. Não sei quanto ao segundo, mas eu já pertenci a ele e, na minha época, também não funcionava. Vão pra porra.
Através de Reese, Marcus toma conhecimento do que aconteceu com o mundo, da Skynet, da Resistência e de John Connor, que volta e meia transmite mensagens de rádio para dar apoio moral aos membros da Resistência. Aqui, à semelhança do Alien de Ridley Scott, o roteiro não entra em detalhes, mas sugere várias possibilidades interessantes sobre o mundo pós-apocalíptico em que se passa a história. Fica implícito, por exemplo, que a Resistência não é uma força militar bem coordenada, mas, basicamente, uma organização descentralizada de células de guerrilheiros que operam de forma mais ou menos autônoma, colaborando para a consecução do mesmo objetivo - ao contrário das máquinas, que seguem rigidamente um comando central (a Skynet). Isso fica óbvio quando Reese afirma, sem nenhuma ironia, que ele e Star são a "unidade da Resistência em Los Angeles" e nos discursos de Connor pelo rádio (que sempre mencionam algo na linha de "se está ouvindo isso, você é parte da Resistência"). Trata-se de um universo bastante plausível - lembra, por exemplo, as táticas usadas pelos comunistas (com sucesso) em Cuba, no Vietnã e (sem nenhum sucesso, o que eu não lamento) na América do Sul. Em ambos os casos, um confronto tradicional resultaria, sem sombra de dúvida, no massacre do lado mais fraco (os humanos, no caso do filme), de modo que a tática utilizada por este, embora pareça um improviso caótico, é, em última análise, a mais eficiente possível, dadas as circunstâncias. E, como dito, o roteiro não entra em detalhes - como o funcionamento do comércio intergaláctico e a interação com habitantes de outros planetas em Alien, todos esses aspectos sobre a organização da Resistência ficam nas entrelinhas. É aqui, contudo, que qualquer vestígio de sofisticação ou profundidade do roteiro acaba.
Marcus decide colocar um carro para funcionar e cair fora de Los Angeles, que apresenta condições de sobrevivência pouco animadoras. Reese quer ir para o Leste; Marcus para o Norte, para "encontrar alguém" (obviamente, a Dra. Kogan, que poderia explicar que diabos aconteceu com ele), idéia fortemente contrariada por seu novo amiguinho - um dos centros de controle da Skynet fica ao norte, em São Francisco. Em meio ao bate-boca, temos uma cena que consegue ser, simultaneamente, excelente e completamente retardada: quando Marcus finalmente consegue ligar o carro, o cd player, toca-fitas ou seja lá qual for o aparelho de som deste liga automaticamente e começa a tocar Rooster, do Alice in Chains. Wright fica em silêncio, ouvindo a música por alguns instantes. "O que é isso?", indaga Reese; "Algo que meu irmão costumava ouvir", responde Marcus, antes de desligar a música. O excelente? A música combina perfeitamente com a situação de Wright e seu tom melancólico, associado à expressão de pesar do personagem ao lembrar do irmão (o qual, mais uma fez, consegue evocar remorso e culpa com poucas palavras e sem parecer um mané emo), torna a cena genuinamente tocante, sem ser melosa ou forçada - lembre-se que o crime que levou Marcus ao corredor da morte provocou a morte de seu irmão. A idiotice? "O que é isso?" Tudo bem que Kyle é um adolescente, cresceu num mundo devastado pela guerra, mas... puta que o pariu, aí também, como diria o Shakespeare cearense, Falcão, não tem cu que aguente. O moleque não sabe o que é música? Nunca topou com um cd player que funcionava antes? Ninguém jamais cantou uma música pra ele? Nem quando ele era criança? Parece aquelas propagandas ecológicas ridículas que mostram algo como uma criança no futuro, visitando um museu e vendo uma árvore pela primeira vez. "O que é aquilo, vovô?". "É uma árvore, meu filho. Antes, o mundo era cheio delas, até que o homem, em sua infinita insensatez, permitiu que a poluição acabasse com todas." É o tipo de diálogo que não ficaria deslocado numa pérola trash como o The New Barbarians de Castellari ("Eles acreditam em algo chamado... Deus!"). Com a diferença que Fred Williamson consegue fazer até uma abobrinha dessa categoria ficar cool.
O debate dos personagens sobre o roteiro de viagem se encerra abruptamente com a chegada de um "não-sei-o-que Terminator" (confesso que não lembro exatamente da nomenclatura do modelo, mas é basicamente uma nave em miniatura), que leva nossos heróis a bravamente baterem em retirada e a mais uma cena de perseguição que termina quando Marcus, mostrando ser um homem que não gosta de ficar de frescura, derruba a máquina com o lançamento de uma chave-de-roda. Felizmente, a Skynet, como Hollywood e as novelas da Globo, abraça a diversidade, empregando tanto centenas de máquinas praticamente indestrutíveis do porte do Arnoldão quanto alguns poucos discos voadores nanicos e de inteligência artifical questionável, que não conseguem evitar colisão com um "projétil" facilmente contornável por qualquer passarinho ou até mesmo urubu, por mais bem-alimentado que estivesse.
Marcus, Kyle e Star acabam topando com um refúgio de humanos (que nos leva a outro momento de reflexão: esse pessoal não está saudável demais para quem sobreviveu a um "holocausto nuclear"?) que, por sua vez, é atacado por uma máquina gigante totalmente fodástica, resultando em um tremendo pandemônio e em mais uma cena de ação empolgante, envolvendo a tentativa (fracassada) dos heróis de explodir o colosso com um caminhão de combustível; uma fuga de exterminadores-motocicletas (não, não é assim que eles são chamados no filme, mas eu não vou ficar memorizando bobagens como a "classificação" de cada tipo de Terminator e vocês não podem me obrigar) que saem do monstrolão, a bordo de um guindaste; a queda de personagens de uma ponte, a captura de Kyle e Star pelo Terminator gigante, que se converte ou entra (até agora não sei direito) em em uma daquelas naves gigantescas (mais uma vez, não vou ficar decorando o nome dessas porras: elas voam, são grandes pra cacete e soltam bombas - vocês sabem do que estou falando); a intervenção de Connor e a força aérea da Resistência, que não ajuda muito a situação; e, finalmente, a queda de Marcus num rio, redefinindo a expressão "cair de mau jeito".
Finda a diversão, Marcus sai do rio e acaba encontrando Blair Williams, interpretada por Moon Bloodgood (se esse não for um nome artístico, aposto um olho que os pais da moça eram um casal de hippies que conceberam o nome após uma vigorosa sessão de consumo de cogumelos de legalidade controvertida), uma delícia anglo-coreana que devia ser garota-propaganda das virtuosas repercussões sociais da miscigenação. Lamentavelmente, o escroto mentiroso do McG, apesar de toda sua conversa mole sobre como o filme seria R-rated e Moon mostraria dois de seus fantásticos talentos, acabou cedendo, o filme levou a classificação PG-13 e a moça passa o filme todo vestida. Felizmente, a roupa é bastante justa, o que já é algum consolo - Bryce Dallas Howard, por outro lado, passa o filme inteiro usando o tipo de roupa que certos círculos da haute couturebatizaram de tit curtains, me levando a ponderar se a moça estava grávida durante as filmagens ou coisa parecida. E há sempre a possibilidade de sair um director's cut com Moon Bloodgood (e talvez até Bryce, porque, como diria Paulo Coelho, sonhar é preciso) mostrando o que realmente mantém o moral da Resistência em alta.
A beldade faz parte da resistência e escapou da queda de um dos caças utilizado por Connor e sua turma para barbarizar as máquinas. Após ajudá-la a se desenroscar do pára-quedas, Marcus resolve seguir com a moça atrás de Connor - apesar de Blair afirmar que o pessoal que foi levado pelas máquinas pode ser praticamente dado como morto, o rapaz acredita que o aspirante a líder da Resistência pode ajudá-lo a resgatar Kyle e a pirralha.
Os dois seguem viagem, são atacados por um bando de maloqueiros que tentam estuprar a moça (sendo frustrados em seu propósito por uma violenta e admirável surra aplicada por Marcus) e...
Bom... para quem não viu o filme ainda, vem spoilers por aí. Muitos. Avisei.
A base da Resistência onde Connor e sua turma estão entocados é protegida por um campo de "minas magnéticas" (que, em tese, só explodiriam caso a área fosse invadida por máquinas). Wright, contudo, acaba atraindo uma delas e provocando sua explosão, conduzindo à reviravolta do filme:
Pois é. Marcus é uma máquina. Um cyborg, tecnicamente, já que ele combina órgãos humanos (como um coração turbinado) com componentes mecânicos, além de um "córtex híbrido", parte humano, parte "chip interface", segundo a descrição de Kate Connor (Bryce). Resumindo: o infeliz é um robô que não sabe que é robô. Não obstante as alegações de incompreensão do rapaz, a recepção de Connor não é das mais calorosas, conforme se pode inferir da foto acima: Marcus é acorrentado e acusado pelo herói de ter sido enviado para matá-lo.
Não sei do público em geral, mas eu não achei essa revelação tão surpreendente assim. Afinal, o filme começa com o personagem concordando em doar seu corpo para a empresa que vai acabar criando a Skynet e sendo executado. Quinze anos depois, quando as máquinas estão em guerra com a humanidade, o rapaz ressuscita inexplicavelmente (saindo de uma base da Skynet, diga-se de passagem) e passa cerca de quarenta minutos aguentando baculejos que deixariam qualquer ser humano normal em pedaços (o mais inacreditável é a queda de Wright no rio). Além de tudo isso, há a cena em que ele cobre de porrada os orebas que tentavam estuprar Blair: em um momento que faz parece que McG estava morrendo de rir atrás da câmera, pensando "hihihihihihi... O pessoal nem vai se ligar!", Wright leva um soco na cara que derrubaria qualquer um e reage apenas virando o rosto para o lado e, em seguida, voltando-se novamente para o agressor, sem esboçar qualquer incômodo, e tratando de cobrí-lo de pancadas. A cena é idêntica a várias similares vividas pelo exterminador interpretado pelo Governator nos três primeiros filmes e, para mim, deixa bem óbvio o que a Cyberdine tinha feito com o cadáver de Marcus.
Ainda assim, o momento de "revelação" é muito bem executado. Tanto Bale quanto Worthington estão excelentes, interpretando com intensidade plausível a reação dos personagens à situação: o primeiro deixando evidente o ódio que sente pelas máquinas e a indignação com a criatura que julga ter sido enviada para matá-lo e com a Skynet em geral; o segundo, demonstrando, primeiro, incredulidade; depois, desespero diante de sua atual condição; e, por fim, revolta com a acusação. O confronto chega a um impasse quando Marcus, ao ser acusado de ter "matado meu pai, Kyle Reese", afirma que, se quisesse, o teria feito há dois dias, em LA, e aduz que Reese está sendo levado para uma base da Skynet.
Enquanto Connor entra em conflito, remoendo-se de dúvidas sobre a possibilidade de Marcus estar falando a verdade ("Eu olhei nos olhos daquela coisa e ela acredita em tudo que está dizendo", afirma ele a sua esposa, enquanto eu me pergunto se teria sido este o momento em que o diretor de fotografia resolveu, imprudentemente, ficar mexendo na iluminação, ensejando o célebre e hilariante faniquito de Bale no set). Blair, por seu turno, convencida de que Marcus é um cara legal (fazendo-me repreender mentalmente o personagem por não ter aproveitado seu momento "heróico" para dar uns pegas na agradecida beldade), decide sacanear e libertar o prisioneiro.
Mais uma cena de ação repleta de balaços e explosões é desencadeada. O conflito se encerra com Wright e Connor chegando a um trégua relutante: o primeiro, a fim de descobrir e se vingar de quem o transformou no que é (não sei vocês, mas se eu acordasse de manhã e descobrisse que ganhei superforça e fiquei praticamente invulnerável, a última coisa que ocuparia minha mente seria desejo de vingança contra quem fez essa "maldade" comigo; por outro lado, eu, ao contrário do personagem, não provoquei a morte de meu irmão nem estou ansioso para ser punido por meus pecados, de modo que minha perspectiva talvez não seja a mais adequada para julgá-lo), se compromete a chegar à base da Skynet em San Francisco e viabilizar a entrada do segundo no local, para que este possa resgatar Kyle. É lá onde ocorrerá o clímax do filme, com mais uma fodástica sequência de ação que inclui a revelação do verdadeiro "plano da Skynet" (a suprema imbecilidade do roteiro, que tratarei mais adiante), uma participação especial do T-800, encarnado por um dublê com rosto CGI do Schwarzenneger, um quebra-pau entre este, Connor e Marcus e o trágico final de Marcus, que resolve se sacrificar para salvar o futuro líder da Resistência e, assim, encontra a redenção.
Bom, parafraseando a Tiazinha, "a vida é muito difícil porque tem muitas dificuldades", mas vamos lá. Em primeiro lugar, as sequências de ação do filme são, para minha incredulidade, realmente espetaculares e extremamente bem dirigidas. A primeira coisa que pensei quando soube que o tal McG dirigiria o filme foi "lá vem merda". Bom, na verdade, a primeira coisa que pensei foi o que sempre penso quando escuto ou leio o "nome de guerra" do diretor: "Que porra de nome retardado é esse? Quem esse imbecil pensa que é? Cantor de hip-hop? Você é um adulto, sua besta quadrada! Deixe de ser mané e se chame de Joseph McGinty, como seus pais queriam. Pare de se portar como um adolescente debilóide que se acha o máximo porque inventou um apelido ridículo e quer que todo mundo passe a usá-lo. Ou como um apresentador brasileiro xarope, mas inexplicavelmente popular, que insiste em ser chamado de 'Faustão' só porque não consegue se livrar da obesidade. Por que você não morre? MORRA, PORRA, MORRA! AHHHHHHHHHHH" Mas a segunda coisa que pensei foi "lá vem merda". É comum colocarem o McG na mesma categoria de gente como Brett Ratner, Francis Lawrence ou Marcus Nispel: aquele tipo de diretor bovino, submisso e sem personalidade que os estúdios chamam quando querem alguém para dirigir, sem dar trabalho nem manifestar "frescura de artista", um blockbuster concebido por comitê para vender brinquedos e atrair adolescentes ou render dinheiro fácil em cima da popularidade do astro ou de personagens já famosos (e.g., X-Men 3, Dragão Vermelho, Eu Sou a Lenda e as "reimaginações" de Sexta-Feira 13 e O Massacre da Serra Elétrica).
Eu não sou uma dessas pessoas. Sempre achei que McG era um diretor muito pior do que os outros mencionados e ainda mais cínico e picareta. Independentemente dos defeitos dos demais (tais como falta de qualquer nota autoral em seus trabalhos, preponderância de estilo sobre substância, submissão fácil a qualquer imposição de executivos que não sabem porra nenhum sobre cinema), é inegável que seus filmes, pelo menos, são dirigidos com um mínimo de profissionalismo. Digo mais: contrariando o que parece ser um consenso, acho o Dragão Vermelho de Ratner excelente e o considero uma adaptação da obra de Thomas Harris quase tão boa quanto o Manhunter de Michael Mann (já achei até superior, mas, depois de rever Manhunter recentemente e fazer uma comparação, mudei de opinião). Já o McG, para mim, sempre foi a epítome de tudo que eu mais detesto em videoclipeiros (sendo superado apenas pela outra abominação de um nome só, Pitof) e, até ver este filme, eu achava até generosidade chamá-lo de "diretor". Era o tipo de sujeito cujos filmes não tem graça nem como diversão trash: em minha opinião, eles são simplesmente desinteressantes, medíocres e só tem apelo para quem nunca teve oportunidade de ver um filme realmente bom. O sucesso de suas duas asneiras inspiradas pelo seriado "As Panteras" sempre foi um enigma para mim: nunca achei que aquelas porcarias funcionassem nem como filme de ação, nem como paródiasde filme de ação, nem como paródia da série de TV, e suas únicas virtudes são as protagonistas gostosas - e se eu quiser ver filme só por causa de mulher gostosa, vou ver um pornô dos anos 70, onde pelo menos elas tiram a roupa. É o tipo de injustiça que sempre me emputeceu: caras como William Friedkin, John Milius e Michael Cimino estão praticamente no limbo hollywoodiano (apesar de Milius ter escrito para a HBO o que considero a melhor série de TV de todos os tempos, Roma), Enzo Castellari, Michele Soavi e Sergio Martino estão virtualmente aposentados ou dirigindo bobagens para a TV italiana e um jacu como o McG continua dirigindo filmes com orçamentos milionários.
Por tudo isso, fiquei estarrecido com a competência do indivíduo na direção do filme. Todas as vezes que descrevi alguma cena de ação de Terminator: Salvation como "espetacular", "fodástica" ou análogos, o fiz sem nenhuma ironia: o homem demonstra uma habilidade inédita na condução das cenas de ação, que são todas (por mais implausíveis) completamente convincentes, despidas de qualquer dos tiques de videoclipeiro que infestam o cinema de ação atual e provocam uma imersão completa do espectador. Nada de câmera tremendo, dez cortes por segundo ou floreios estilísticos retardados e sem propósito que impedem o espectador de entender o que está se passando (a título de exemplo, veja Quantum of Solace). A fuga de Reese, Marcus e Star no reboque, por exemplo, me fez lembrar cenas de perseguição prolongadas e espetaculares de filmes como Operação França e Viver e Morrer em LA, de Friedkin, Os Implacáveis, de Peckinpah e La Polizia Incrimina, La Legge Assolve de Castellari. Não me entendam mal: não estou comparando T4 a nenhum desses filmes. As cenas de ação, entretanto, têm o mesmo espírito: embora auxiliadas por uma caralhada de efeitos digitais, nenhuma das sequências pauleira de Terminator: Salvation vai deixar você pensando coisas como "porra, é óbvio que isso foi um efeito especial" , "peraí, que aconteceu aqui mesmo?", "cara, esse negócio já rendeu o que tinha que render" ou "Puta que o pariu, eu não estou conseguindo entender nada!" Lembram, enfim, os bons filmes de ação das décadas de 70 e 80, onde os diretores não achavam necessário ficar sacudindo a câmera ou cortando para outro ângulo a cada dez segundos para deixar manter a atenção do público.
As interpretações, na medida do possível, são igualmente eficientes. Pelo menos as de Bale, Worthington e Yelchin. Como já falei, Anton Yelchin faz uma emulação perfeita do personagem interpretado por Michael Biehn no primeiro filme da série. Os outros dois atores foram, em geral, esculachados pela "crítica profissional de cinema", mas, como Tolstoy já escreveu, "a 'crítica profissional de cinema' pode ir para a morada da genitália masculina".
O problema não são as interpretações, mas ao roteiro que investe pouco em caracterizações. E nem isso considero grande defeito, dentro dos padrões em que se enquadra o filme: trata-se de um blockbuster de ação. A trama e as situações não deixam margem para que os atores façam muito além do necessário. Não se pode dizer, por exemplo, que seja uma "má caracterização" o fato de Connor não sofrer conflitos com a necessidade de enviar o próprio pai ao passado, sabendo que isso vai provocar a morte do genitor - ele só encontra Kyle Reese no final do filme, de modo que não há, propriamente, uma relação entre os dois na história. A crítica de que Bale passa a maior parte do filme falando grosso, gritando e basicamente parecendo puto da vida é vazia: de que outra maneira seu personagem deveria se comportar? Ele está no meio de uma guerra e de um lado que está em imensa desvantagem. Seria meio ridículo que o personagem parasse para ter momentos de ternura ou refletir sobre as complexidades da existência. Alguém, sinceramente, achou que os momentos de "interesse humano" de Neo, Trinity, Morpheus e Link acrescentaram alguma coisa a The Matrix Reloaded, além de minutos de duração? O mesmo se pode dizer do personagem interpretado por Sam Worthington. O ator contribui com o necessário: ele tem uma presença forte, convence como um sujeito que está confuso e amargurado a maior parte do tempo e seu momento de altruísmo no final do filme é totalmente coerente com as motivações do personagem. Mais uma vez, não é nada fantástico, mas atende ao propósito do filme.
Onde, então, está o problema? No roteiro. A trama, quando analisada com mais cuidado, é profundamente imbecil em vários níveis. É inacreditável que tantos roteiristas tenham "polido" o texto e ninguém tenha percebido isso. E cada análise deixa mais um buraco evidente.
Em primeiro lugar, vamos ao "grande plano da Skynet": ressuscitar Marcus Wright como um robô que não sabe que é robô, para que o dito cujo a) encontre Kyle Reese, para que este acabe sendo capturado; b) se infiltre na Resistência e encontre John Connor; c) convença John Connor de que não tem a intenção de matá-lo, que Kyle Reese foi capturado e está correndo risco de vida; e d) invada uma das bases da Skynet, permitindo a entrada de Connor, a pretexto de salvar Kyle, para que este possa ser emboscado e morto.
Tudo isso acontece no filme. O problema é que tudo acontece como fruto do acaso. Como Marcus encontra Kyle? Por acaso. Como ele conhece Blair e acaba descobrindo o esconderijo de Connor? Sorte. Ele convence Connor de toda a história? Sim. Era previsível que isso acontecesse? Nem fodendo. Wright só não vira sucata porque Blair tem um fraco por ele, o que também não era previsível. Querer convencer o espectador de que tudo faz parte de um plano minuciosamente arquitato pelo maligno vilão cibernético é mais ou menos como eu querer convencer alguém de eu determino quando vai chover e quando não vai, apontando como prova o fato de que, toda vez que chove, eu encho a boca para dizer "eu sabia que ia chover".
Em segundo lugar, vamos ao papel de Kyle Reese. Tenho que, preliminarmente, fazer uma observação já feita pelo Felipe Guerra: o filme se passa em 2018; o primeiro Exterminador (bem como Reese) foram enviados ao passado em 2029. Sendo assim, como caralho a Skynet sabe que Reese vai se tornar pai de Connor? Ela é onisciente? Consegue ver o passado e o futuro? É a única explicação. Caso contrário, por que Connor arriscaria a vida para salvá-lo?
Tudo bem, esqueçamos esse detalhe por um instante e abordemos outra idiotice: já que a Skynet sabe que Reese é o futuro pai de John Connor, por que, ao capturá-lo, não o mata logo? Pela lógica, isso não impediria o nascimento de Connor, tornando desnecessária toda a emboscada, já que a existência do personagem seria simplesmente anulada? Suscitei esse ponto ao falar sobre o filme com o Just Daniel, que rebateu com os seguintes argumentos: "Cara, mas eu acho que isso tem até uma explicação coerente e simples: Quem garante que John Connor não vai nascer apenas pq Kyle Reese não será o pai da criança? Uma das coisas que o Cameron criou até meio q sem querer foi as "intervenções temporais" que ocorre na série. O destino da história é mudado conforme quem é mandado ao passado (Ou no caso desse filme, no futuro) E acho isso uma das coisas mais fascinantes do filme! Se vc pensar bem, por mais louco que seja para o cérebro assimilar, todos os filmes depois do primeiro, podem ser considerados uma espécie de "prequel" para o primeiro filme! Vamos finalmente descobrir como foi o relacionamento entre John e Reese, contado no primeiro filme! Outra coisa bizarra que vc precisa pensar sobre o esquema-Reese-Connor: O primeiro terminator mandado para o passado em 84 foi mandado para matar o JÁ existente John Connor, independente da resistância humana ter mandado o Reese ou não. Ou seja, Connor já existia. Aconteceu a "intervensão do tempo" com Reese sendo o pai, mas ele teria nascido de qualquer forma." A explicação faz sentido, mas tenho um contra-argumento bem mais singelo: "Seguro morreu de velho." A Skynet podia muito bem matar logo Reese, só por precaução, sem que Connor tomasse conhecimento disso (e como ele poderia saber se Reese está ou não vivo antes de cair na cilada?). Era ganhar ou ganhar: ou a existência do herói era anulada e o problema estava resolvido, ou ele continuaria existindo por algum outro motivo e cairia na emboscada. Seja como for, um fato é incontestável: não havia qualquer motivo minimamente razoável para manter Kyle Reese vivo. Quanto ao fato de um John Connor já existente ter enviado Kyle Reese para o passado no primeiro filme (significando que, de uma maneira ou outra, ele teria nascido)... bom para falar sobre isso, vou ter que falar sobre a série como um todo, e na verdade foi isso que realmente me fez decidir (após ler o post do JD) a publicar um post sobre o filme, ao invés de simplesmente responder à mensagem.
Tenho que confessar um coisa quase tão bisonha quanto minha afeição por este filme: eu gosto mais do Terminator 3 do que do segundo, mesmo achando o segundo melhor. Deve ser difícil assimilar (na verdade, imagino que quem ler isso vai questionar meu nível de inteligência, não necessariamente com tanta diplomacia), mas minha justificativa é que acho o terceiro mais fiel ao espírito do Teminatororiginal (que considero o melhor da série) que o Judgment Day. O que conduz a uma assertiva das mais contraditórias (pois é, eu sou um homem extremamente complexo): embora, basicamente, eu goste de todos os filmes da série (até mesmo desta bomba), minha opinião é que a melhor continuação para o primeiro Terminator seria nenhuma continuação. O final do primeiro filme, para mim, conclui da história de maneira perfeita e qualquer continuação seria contraditória (como foi o caso do T2) ou desnecessária (como as outras duas). Por que?
Porque, apesar de toda a conversa sobre "não há destino além do que fazemos", a idéia que se pode tirar do primeiro filme é que, naquele universo, o futuro está, sim, escrito, e que qualquer tentativa de mudá-lo é inócua. A Skynet envia um Exterminador para dar cabo de Sarah Connor antes que esta tenha a chance de ter o filho; Connor envie Reese para protegê-la. Dois são os resultados: 1) Sarah, inicialmente uma garçonete cabeça-de-vento, desenvolve a personalidade forte e a obsessão militarista que vai ser crucial para a formação do futuro líder da humanidade; 2) Reese acaba partindo para o oba-oba com Sarah, resultando na concepção de Connor. Em resumo: a tentativa da Skynet em evitar o nascimento de Connor acaba provocando a existência deste. A cena final do filme encerra a história com uma elegância ímpar: "There's a storm coming." "I know." Sarah sabe que o holocausto nuclear está por vir e que este é inevitável; resta-lhe apenas proteger a si mesma e cuidar da criação do filho, garantindo o futuro da humanidade. Fim. E o filme tinha aquele tom fatalista muito comum no cinema sci-fi e policial da década de 70 (que chamei de "clima de shit happens" ao falar sobre The Incredible Melting Man) que sempre me pareceu mais fiel à realidade.
Considero o Terminator 2, devo adiantar, um dos melhores filmes de ação/ficção científica de todos os tempos. O roteiro é excelente, as interpretações são ótimas e os efeitos especiais, pioneiros à época, ainda hoje impressionam. A relação entre o John Connor adolescente e o exterminador "bonzinho" do Arnoldão (que poderia ser um troço pra lá de piegas) é totalmente envolvente, equilibrando drama e humor com maestria e sendo, ao final, geuinamente comovente, até para um puto insensível como eu; Sarah Connor é uma das heroínas mais fodonas do cinema (aquela, ao contrário das "panteras" do McG, me convence de que consegue arrombar um macho na porrada); o vilão é igualmente badass e não deixa o espectador incrédulo quando está batendo a poeira do Schwarzenegger; e as cenas de ação, como era típico nos filmes de Cameron, são todas fantásticas. Como o primeiro filme da série, é um espécime raríssimo hoje em dia - o blockbuster de ação inteligente, mesclando cenas de ação espetaculares e boas caracterizações sem jamais perder o ritmo ou insultar a inteligência do espectador.
Mas... entre um e outro filme, Cameron envelheceu. E a tendência da maioria das pessoas (gente como eu e o augusto Renzo Mora sendo óbvias exceções), à medida em que envelhece, é amolecer, especialmente quando são bem sucedidas. Mesmo quando a pessoa em questão é um notório control freak e escroto sádico, porém extremamente talentoso, como o Cameron. Não se pode dizer que T2 seja um filme para pessoas com sensibilidades delicadas, mas é inegável que é um filme feito por alguém mais sensível do que quem dirigiu The Terminator. Via de conseqüência, a atmosfera pessimista (embora extremamente coerente) do primeiro filme é substituída por uma visão mais Disney (repito: em comparação ao primeiro filme), com um final feliz incluindo até narração que pode ser sintetizada como "ainda há esperança para a humanidade". Então, eu admito que o filme é excelente, mas esse "estado de espírito" completamente antagônico ao antecessor sempre me incomodou e me deixou com a sensação de que o sentimentalismo falou mais alto do que a consistência para o "King of the World". Não é nada demais, não é coisa tão braba quanto o melô de Titanic, pode até ser considerado frescura minha, mas me incomoda. E convenhamos, a história é, essencialmente, um repeteco do primeiro filme, mas anabolizada, com efeitos especiais muito melhores e um tom mais light. De qualquer maneira, com aquele final, a história estava, definitivamente encerrada.
O que nos leva ao terceiro filme. E, antes de mais nada, essa história de que Mostow é um picareta capacho de executivo e que o filme foi idéia de um bando de idiotas que só queriam ganhar dinheiro fácil é bobagem. O filme seria feito de qualquer jeito e, se não fosse o sucesso de Titanic (e a subseqüente desnecessidade de trabalhar), Cameron seria o diretor. O roteiro talvez até tivesse algumas babaquices a menos, mas a história, creio eu, não seria muito diferente. Quando se tem em vista que o roteiro foi escrito por Michael Ferris e John Brancato (autores de preciosidades como Catwoman e The Net), a qualidade do texto se torna até surpreendente. A mesma generosidade não se conceder ao T4, que, apesar de inicialmente escrito pela dupla dinâmica supracitada, foi recauchutado por uma porrada de roteiristas, inclusive o celebrado Paul Haggis e Jonathan Nolan, co-autor de The Dark Knight, e continuou sendo podre. Mas, enfim, como eu disse ao falar to T1, qualquer sequência seria contraditória ou redundante. E neste último caso que se enquadra o T3. Gosto mais deste do que do segundo porque ele é bem menos sentimental, tem mais a ver com o espírito do primeiro (eu gosto especialmente da maneira como John Connor é retratado no início do filme - agora que o futuro e seu destino heróico foram, presume-se, anulados, o personagem se torna basicamente um mané fracassado), o Exterminador bonzinho não é tão bonzinho assim (só programado para não fazer mal a certos humanos; eu sempre dou uma risada com o desinteressado "I killed you" do personagem) e o final espírito-de-porco me lembra exatamente aquela atmosfera de shit happens que o primeiro filme capturou tão bem. E Kristanna Loken é gostosa pra caramba. Não é uma vilã do calibre do T-1000, mas gostei do estilo "Barbie Assassina" da T-X e nunca achei a interpretação da moça ruim como parece ser a opinião geral. Certo, ela não é tão fodona quanto o T-1000, mas convence. Além do mais, é bem mais plausível ela se aproximar de mim e arrancar meu cérebro de surpresa do que um Robert Patrick mal-encarado. As cenas de ação do filme são excelentes, máxime quando comparadas com o "padrão" dos filmes de ação da época - em 2003, a mania chata de filmar toda cena de ação imitando a série Matrix ainda estava em alta. E o já referido final nem um pouco feliz, em minha opinião, retoma a idéia do original - de que o futuro já está escrito e que qualquer tentativa de alterá-lo será inócua. O argumento de que "não é possível mudar o futuro, no máximo adiá-lo" não é tão elegante quanto a inevitabilidade retratada no primeiro (nem poderia, pois o Cameron tornou isso impossível com o T2), mas acho bem menos irritante do que "não há futuro além do que fazemos" - que, convenhamos, já era um clichê muito manjado mesmo à época do original. Claro que o filme tem vários defeitos: o principal deles é que John Connor, apesar de toda a criação espartana que, presume-se, teve da mãe até esta ser internada, se torna um tremendo oreba, que leva uma rasteira até de Claire Danes e começa a choramingar diante do menor sinal de perigo. Por outro lado, pode-se argumentar que o fim da idéia de que o seu destino seria se tornar o grande líder da humanidade fez o personagem perder toda a motivação para se tornar alguma coisa que preste.
Embora alguns critiquem o fato de o filme torna nulo tudo que aconteceu no segundo (e torna mesmo), há de se levar em consideração de que, se o T2 tivesse tanta consistência assim, John Connor teria deixado de existir no final do filme. Vejamos: Connor do futuro manda Kyle Reese para proteger sua mãe do Terminator no passado, Kyle engravida Sarah e Connor nasce. No segundo filme, a Skynet manda mais um exterminador; Connor manda outro, "reprogramado" para protegê-lo; no final do filme, os Connor e cia. impedem a existência da Skynet. Para o filme ser inteiramente lógico, no momento em que a criação da Skynet foi impedida, Connor, o T-800 e o T-1000 se desintegrariam. Afinal, sem Skynet, não haveria exterminadores, não haveria envio do T-800 para matar Sarah Connor, não haveria bem-bom entre esta e Kyle Reese e, por conseguinte, não haveria concepção de John Connor.
Mas como não, se Kyle Reese foi enviado pelo passado por um John Connor já existente, como sugeriu o JD? Porque passado, presente e futuro já estão preordenados. Eu poderia citar Stephen Hawking e parecer inteligente e culto pra caramba, mas não vou mentir: não tomei conhecimento da idéia de que o tempo é simultâneo, sendo apenas a percepção humana limitada que nos leva a vê-lo de forma linear, lendo Física Quântica ou Cosmologia. Foi lendo Watchmen. Não sei se essa teoria corresponde à realidade ou não (embora a idéia explique várias coisas que parecem não fazer sentido, de forma bem mais lógica do que crença no sobrenatural), mas acredito que o universo do primeiro filme se encaixa perfeitamente nela. Assim, embora certas pessoas, cuja opinião respeito bastante, reclamem que o filme torna sem propósito tudo que ocorreu no segundo filme, pode-se dizer que tudo que ocorre no segundo filme após a explosão da Cyberdine torna o próprio segundo filme nulo. Logo, o terceiro filme não me incomoda por isso, nem o quarto.
Toda essa embromação, contudo, torna um fato inequívoco: conforme escrevi reiteradas vezes, o roteiro de Terminator Salvation é, essencialmente, uma bosta. Não há um motivo razoável para as máquinas manterem Kyle Reese vivo. A Skynet, no universo do quarto filme, é basicamente um Dr. Evil digital.
Vamos a outras falhas: reparem que, na minha "síntese" da história, pouco mencionei a personagem de Kate Connor. Isso é porque a única função de Bryce Dallas Howard é embelezar o cenário - a personagem não faz praticamente nada e, ao contrário de sua colega Moon Bloodgood, nem usa roupa que valorize seus talentos infradramáticos. Fora Connor, Marcus, Reese, e Blair, os "personagens" são tão despidos de personalidade que é difícil lembrar seus nomes (mesmo o Ashdown de Michael Ironside só causa alguma impressão porque é interpretado por Michael Ironside, que é totalmente foda. Star só é memorável porque é a única criança da história). Nunca fica claro por que a Skynet está levando uma reca de gente para São Francisco (só para acobertar o fato de que o verdadeiro objetivo era capturar Kyle? Não engulo. O encontro deste com o monstrolão também foi inteiramente casual. E também havia um monte de humanos aprisionados naquela base no início do filme.) A insinuação de que tudo que Marcus viu em sua incrível jornada estava sendo "filmado" pela Skynet é igualmente sem nexo: não seria mais fácil, então, a Skynet simplesmente ter invadido o "underground lair" de Connor e dar cabo do rapaz? Ou ter capturado Kyle quando eles estavam em LA, sem todo aquele trabalho? Aliás, como caralho Kyle sabe dirigir um carro? A cena em que Marcus consegue botar um veículo para pegar deixa implícito que o moleque provavelmente nunca tinha sido passageiro em um veículo automotor, quanto mais motorista.
E temos, claro, o Arnoldão CGI que, posso presumir, todo mundo acha absolutamente badass. E é. Mas, como já observado por terceiros, no primeiro filme da série, Reese e o Exterminador são enviados à década de 1980 em 2029; Terminator Salvation se passa em 2018. Quer dizer que a Skynet passou onze anos utilizando o mesmo T-800 que vemos em aqui? Porra, em cerca de quatro anos, o mané do Steve Jobs conseguiu lançar uns quatro modelos diferentes de iPhone (todos igualmente fuleiros); não vamos nem contar quantas versões de iPod o cidadão e sua empresa conseguiram inventar. A super-hiper-ultra-foderosa vilã digital Skynet, por seu turno, só consegue produzir um modelo mais moderno de Terminator depois de mais de dez anos? E, assim que consegue, sai com um modelo mais espetacular que o outro? E as conversas de Reese no primeiro filme sobre como precisava esperar o Exterminador atacar Sarah para identificá-lo? Como isso se conforma com a sugestão, contida no Salvation, de que todos os T-800 são idênticos ao Schwarzenegger? E a história, no primeiro filme, sobre os T-600 terem uma pele de borracha, claramente de fajuta, que tornava fácil identificá-los, quando os T-600 que vemos aqui nunca tem qualquer arremedo de pele?
Mais bobagens? Se toda a jornada de Marcus foi um plano minuciosamente arquitetado pela Skynet (e isso é tão plausível quanto a teoria de que o ataque de 11 de setembro ao WTC foi uma conspiração tramada pelo governo americano ou que o Red Bull é um estimulante desenvolvido pela CIA durante a guerra do Vietnã para "bombar" os soldados), por que porra todas as máquinas que ele encontra até seu "segredo" ser descoberto por Connor tratam o rapaz com a mesma cortesia que o T-600 na foto acima? Por que esse comportamento muda assim que ele descobre o que é e decide invadir a base da Skynet? E pra que porra Helena Bonham-Carter queria tanto, especificamente, o corpo dele, no início do filme? Não servia outro defunto?
Posso passar mais várias páginas falando sobre outros detalhes estapafúrdios do roteiro, mas nada disso responde às questões que me atormentam: por que, mesmo compreendendo plenamente que o roteiro deste filme é uma afronta a qualquer pessoa com um semblante de inteligência, eu adoro esta porcaria? Por que já vi quatro vezes (invariavelmente com exclamações do tipo "essa cena foi totalmente do caralho" e, em seguida, resmungando, para o tédio de minha esposa e de qualquer pessoa que esteja por perto, coisas como "bicho, isso é muito idiota" ou "esse 'plano' é tão retardado que não dá nem pra falar" e provocando questionamentos válidos como "então por que raios você está vendo esse filme de novo?")? Por que já estou prestes a abrir a carteira assim que o DVD sair? E voltar a abrí-la quando o Director's Cut sair? E por que nada disso decorre do fator trash do filme (que, convenhamos, é inexistente em face de preciosidades como The Incredible Shrinking Man ou Blackenstein)?
Eu posso especular. Talvez seja porque, em uma época de filmes de ação com heróis sensíveis, politicamente corretos (porra, até o James Bond deixou de tratar as mulheres como objetos na época do Pierce Brosnan, até Daniel Craig mostrar como um 007 de verdade se comporta) e metrossexuais (veja, por exemplo, Tom Cruise e Jonathan Rhys-Meyers em Missão Impossível III), em que as gatinhas chamadas de Jonas Brothers levam menininhas à loucura e e em que é socialmente admissível (e até encorajado) um homem heterossexual passar horas num salão de beleza ou escolhendo sapatos e condicionadores, seja um alento ver um filme onde os homens são homens e as mulheres são gostosas. Onde os heróis são uma dupla de brucutus mal lavados que passam o filme inteiro com a cara amarrada ou gritando e dando tiros e porradas (isso talvez também explique o fato de eu achar Jason Statham totalmente foda). Talvez seja porque, numa época de filmes de ação cujos cineastas acham que a náusea provocada por uma câmera trêmula e a impossibilidade de entender o que está se passando guardam relação de sinonímia com "empolgação do espectador", seja um alívio finalmente ver um blockbuster de ação onde as cenas de ação são de espectaculares e bem dirigidas, podendo ser acompanhadas do começo ao fim sem um momento de tédio, confusão ou vontade de encontrar o diretor e espancá-lo até a morte com um instrumento contundente. A última hipótese se torna ainda mais convincente quando eu lembro que, pouco antes de ver Terminator Salvation, vi seu extremo oposto, Quantum of Solace - uma obra com roteiro decente que poderia ser um filme muito bom, se não tivesse um diretor "sofisticado" que não entende merda nenhuma de cenas de ação e acha que tremer a câmera e inserir cortes aleatórios e "simbolismo" sem propósito vão mostrar toda a sua inteligência e habilidade. Ou talvez seja, simplesmente, porque eu gosto de filmes com explosões, robôs, Christian Bale quebrando o pau e chamando um T-800 de "filho da puta", Michael Ironside dando esporro nos outros, Moon Bloodgood e Bryce Dallas Howard.
A última possibilidade, admito, é um contradição inaceitável de minha parte. Afinal, eu escrevi mensagens, cuja descrição mais benevolente seria "prolixas", esculachando impiedosamente a paixão do JD pelo Drácula de Coppola e reduzindo a admiração do rapaz pelo filme a, basicamente, "confusão de incoerência com complexidade" e "se deixar levar por excesso de estilo sobre ausência completa de substância". Isso faz de mim um hipócrita? Provavelmente.
Em minha defesa, posso apenas afirmar que Bram Stoker's Dracula não tinha explosões, robôs, Schwarzenegger, Christian Bale dando porrada, Michael Ironside, Bryce Dallas Howard ou Moon Bloodgood.
Por outro lado, a supracitada obra, que eu odeio profundamente, tem Sadie Frost e Monica Bellucci seminuas, ao passo que as duas moças do T4 permanecem vestidas durante todo o filme.
Ed Wood, Al Adamson, Phil Tucker, Sam Katzman, Bruno Mattei, Albert Pyun, William "One-Shot" Beaudine... Todos fazem parte de um seleto grupo de cineastas cujas obras são caracterizadas por uma completa ausência de valor artístico, contraposta a um inestimável valor humorístico que jamais (há de se presumir) foi a intenção dos artistas. Há um nome pouco conhecido, contudo, que, por um memorável instante, integrou essa augusta elite. Seu momento neste Olimpo foi breve e sua queda foi tão célere quanto sua ascenção - logo após dirigir a obra que o elevou ao topo das montanhas do cinema teratológico, tal homem descambou para o sombrio vale de uma carreira de filmes softcore e melodramas medíocres dos quais ninguém ouviu falar. Mas, parafraseando Chuck Palahniuk, um instante é o máximo que se pode esperar da perfeição e um instante de perfeição vale todas as penas que custou. Por um efêmero e cintilante instante, o indivíduo de quem falo atingiu essa perfeição, contruindo uma obra consistente em autêntico vácuo de virtudes e, paradoxalmente, magnífica, tal como os titãs da ruindade supracitados. O homem é William A. Levey e sua obra é Blackenstein (subtítulo, para esclarecer a idéia aos menos sagazes: The Black Frankenstein).
O título, em si, já é indício das qualidades da obra. Um cinéfilo incauto, ao lê-lo, poderá pensar: "Evidentemente, trata-se de uma versão blaxploitation de Frankenstein." Neste aspecto ele estará correto. O hipotético cinéfilo poderá pensar, ainda: "A trama deve ser sobre um cientista negro que, em suas experiências bem-intencionadas, acaba criando um monstro." ("Negro não" poderá tal cinéfilo dizer, corrigindo-me, se ele for politicamente correto, "cientista afrodescendente". Ao que eu replicarei: "Eu não sou politicamente correto e o blog é meu, então foda-se. Você é fruto de minha imaginação e vai pensar o que eu quiser, da maneira que eu quiser. Isto não é um debate. Eu sou Deus e você é Jó, então tome uma centena de doenças horríveis, para aprender a controlar sua insolência!") Neste aspecto, o (agora moribundo) cinéfilo estará errado: provando que não leu o livro, nem viu nenhum dos filmes e que a única referência que tinha de Frankenstein era a icônica imagem de Boris Karloff nos filmes da Universal, o roteirista Frank R. Saletri escreveu (na acepção amplíssima do termo) um filme sobre um cientista branco que cria, acidentalmente, um monstro negro. Inobstante, o cinéfilo poderá pensar: "É uma premissa intrigante. Talvez o filme seja bom." Neste aspecto, o indivíduo imaginário estará profunda e verdadeiramente equivocado. Blackenstein não é um filme bom. É ruim. Muito ruim. Ruim como ser masturbado por Edward Mãos-de-Tesoura. Examinemos os fundamentos de tal constatação.
Começamos com uma sequência de créditos pra lá de original: uma mansão em noite de tempestade e, no interior desta, um indivíduo trabalhando num recinto repleto de máquinas cuja utilidade desconhecemos, mas que emitem ruídos dos mais diversos e soltam raios, o que só pode significar que se trata de um cientista.
Os créditos indicam, ainda, que a aparelhagem é de Kenneth Strickfadden - o mesmo responsável pela do Frankenstein de James Whale. Estou me repetindo, mas tenho que indagar: Strickfadden ficou viciado em heroína no crepúsculo de sua vida? Perdeu tudo em jogatina e foi morar debaixo da ponte? Primeiro "Drácula vs. Frankenstein" e, agora, isso? Caramba...
Depois de 2 minutos e 36 sólidos segundos do cientista mexendo em seus brinquedos (sim, eu contei), totalmente imprescindíveis à trama, a sequência de créditos continua com um avião pousando (em tempo real) em Hollywood e os passageiros descendo, ao som de uma melosa música soul. Acompanhamos uma das passageiras, uma atraente jovem negra, enquanto esta aluga um carro, espera colocarem a bagagem na mala deste, entra no carro, espera fecharem a porta, dirige por uma estrada até chegar à mansão da abertura, estaciona o carro em frente à mansão, desce, toca a campainha e é recepcionada pelo mordomo Malcomb (mais uma vez, tudo é mostrado em tempo real, o que é essencial à trama e, de modo algum, pretexto para encher linguiça e aumentar a duração do filme).
O mordomo Malcomb, vale referir, é uma figura ímpar: um negro enorme, com uma voz de deixar James Earl Jones orgulhoso, que destoa de sua expressão de... ehhh... pessoa excepcional. A jovem, descobrimos, se chama Wininfred Walker e quer falar com um certo Dr. Stein (criativo). Suspense é ensejado: será que o Dr. Stein é aquele cientista da abertura? É, sim. Obviamente.
Enquanto Malcomb vai chamar o cientista, Winnifred fica sentada numa poltrona ao lado de uma imensa estátua da Virgem Maria e de uma escada em espiral; no teto, pende um grande candelabro, no meio do poço da escadaria e logo acima da mocinha. Enquanto tais detalhes são observados por Winnie, uma estrondosa música genérica de filme de terror explode, inexplicavelmente, na trilha sonora. Isso demanda um trabalho de interpretação da cena. Será que se trata de simbolismo cristão? Talvez. Podemos interpretar o candelabro, que pode cair a qualquer momento, como a morte, e a imagem de Maria e a escadaria (que simbolizaria Cristo) como a redenção e a ascenção ao Paraíso. Ou simbolismo ateu: a imagem e a escadaria podem significar a falsa idéia de vida após a morte que trazem conforto ao ser humano e o deixam incauto, à mercê da morte (representada pelo candelabro), que está sempre espreitando. Uma terceira interpretação seria a de que a cena tem toques autobiográficos: talvez a mãe de William Levey tenha morrido esmagada por um lustre, mas o diretor, um católico devoto, espera que seu espírito permaneça vivo, tendo ascendido ao paraíso através da fé em Jesus Cristo (mais uma vez, a escadaria) e da intercessão da Virgem Maria. Ou talvez a cena não signifique porcaria nenhuma, a música estrambólica tenha sido usada só para criar tensão infundada e encher linguiça e eu esteja escrevendo um monte de bobagens. Você decide.
Dr. Stein é avisado pelo mordomo através de um gigantesco alto-falante e a mocinha é levada ao laboratório para encontrá-lo. Tomamos conhecimento de que Winnie foi aluna do cientista e acabou de tirar seu Ph.D em Física (ela não é meio nova para isso? Tudo bem, é mais plausível que a "Dra." Christmas Jones). Descobrimos, também, o motivo da visita da jovem ao seu antigo mentor: seu noivo foi ao Vietnã, pisou numa mina e ficou seriamente desaconchegado. Winnie quer que Stein a auxilie a fazer o possível para ajudar seu amado.
Após mais uma tomada da mansão numa noite de tempestade e relâmpagos (embora Winnifred tenha chegado em plena luz do dia), passamos a uma cena de jantar entre Winnie e o cientista, ao som de ópera, onde descobrimos que Dr. Stein ganhou o prêmio Nobel, e Winnie reitera seu pedido de ajuda ao cientista. Indagada sobre a natureza dos ferimentos do rapaz, a moça apenas diz que "prefere não dizer agora", mas que seu noivo chegará "amanhã". Mais uma cena inteiramente necessária ao desenrolar da trama, que se encerra com o médico pedindo licença para "continuar com seu trabalho" e Winnifred, sozinha, caminhando até uma das janelas e possibilitando que notemos que é dia. Cadê a tempestade? A trama é permeada de enigmas.
Ôpa! Mais uma cena de Winnie dirigindo, até chegar ao Hospital de Veteranos. Off-screen, ouvimos um diálogo em que ela explica a Stein o que, exatamente, ocorreu a seu noivo, Eddie: o rapaz, provando ter mais azar do que Catrionna McColl num filme de Lucio Fulci, teve os dois braços e as duas pernas arrancados pela explosão da mina. Nas palavras de James Coburn, "Man, that´s just mean. That´s mean, man!"
Winnie e o doutor entram no hospital, vão à recepção, perguntam pelo quarto de Eddie Turner a uma atendente, que pergunta a outra, que diz em que ala e quarto o rapaz se encontra. Mais uma vez, concisão no roteiro e dinamismo na edição .
Finalmente encontramos o infeliz Eddie, que está, educadamente, pedindo a um enfermeiro obeso e grosseirão por um pouco de sorvete. Na verdade, "educadamente" é um eufemismo: o rapaz está praticamente implorando. O enfermeiro filho-da-puta, ao invés de atender o pedido, fica fazendo piadinhas escrotas com a situação do rapaz, esculachando com o exército e fazendo pouco dos militares - porque tentou seguir carreira no exército e não conseguiu provar aptidão física (talvez por ser um gordo escroto?). Hmmm... Será que alguma coisa ruim vai acontecer com esse enfermeiro, fazendo-o pagar por esse momento de crueldade? A única maneira de desvendar esse enigma intrigante é continuar lendo ou ver o filme. Eu sugiro que você continue lendo. Antes de prosseguirmos, porém, devo observar que, durante toda a cena, Eddie aparece coberto do pescoço para baixo com um cobertor, o que nos impede de ver o estrago provocado pela explosão. Isso se deve, presumo, a William Levey ser um diretor sensível, que certamente achou que seria apelativo e de mau gosto mostrar de forma explícita a horrenda mutilação sofrida pelo rapaz. De jeito nenhum foi por falta de recursos para maquiagem e efeitos especiais.
Finalmente, Winnie e Stein chegam, interrompendo a escrotice do enfermeiro balofo. Eddie, num toque de criatividade do roteiro, repreende Winnie por ter vindo - o rapaz não queria ser visto pela amada em tal estado. O amor, entretanto, vence todas as barreiras, e ela está determinada a ajudar o mancebo a se recuperar. Stein, embora não prometa nada, explica que tem feito experiências com substituição de membros e que pode mudar o atual quadro médico do infeliz soldado. Este, contudo, permanece cético. Mas Winnie assevera que Dr. Stein é o maior fodão, tendo, inclusive, recebido o "prêmio Nobel da Paz por decifrar o código genético do DNA".
Pfffffffff....
Prêmio Nobel da Paz. Por decifrar o código genético do DNA. Ou, no original, para que minha tradução não deixe obscuridades: "received the Nobel Peace Prize for solving the DNA genetic code". Parem por um momento para assimilar esta preciosidade. Degustem esta iguaria de diálogo. HAHAHAHAHAHAHA! Puta que o pariu! Saletri realmente fez uma pesquisa minuciosa para escrever o roteiro desta maravilha. Aposto todos os meus bens que o homem não fazia a menor idéia do que significava "código genético", "DNA" e talvez nem mesmo o que é um "Prêmio Nobel da Paz".
Convencido pela segurança transmitida pelo cientista ("Não prometo nada, mas tenho obtido bons resultados. Se você for capaz de suportar horas e horas de procedimentos cirúrgicos... se Deus ajudar... se a Era de Aquarius finalmente tiver chegado... se eu jogar uma moeda e der coroa... e não chover... talvez, mas não estou garantindo nada, você tenha uma surpresa!" Parafraseei um pouco - um pouco mesmo: apenas acrescentei alguns exageros - as palavras do doutor, mas é nessa linha a confiança que ele passa) e pela genialidade inerente a um homem que ganhou o "Prêmio Nobel da Paz por decifrar o código genético do DNA" (e quem não ficaria?), Eddie acaba concordando.
Ao som da mesma música soul mela-cueca, mais uma vez nos deparamos com filmagens da fachada da mansão de Stein até que, finalmente, uma ambulância chega e, em tempo real, os enfermeiros retiram Eddie da mesma, numa maca, e o levam até a porta. Em seu laboratório, Stein é avisado por Malcomb, através dos colossais alto-falantes, que a ambulância chegou e autoriza o mordomo a permitir a entrada dos enfermeiros. Cada segundo neste filme conta. Se você piscar, poderá deixar passar um detalhe essencial e perder o fio da meada.
Numa cena comovente, marcada por brilhantes interpretações, Winnie explica a Eddie que, se o trabalho de Stein der certo, ele ficará novinho em folha e declara seu imenso amor pelo noivo. Este, por sua vez, exibe um entusiasmo contagiante com a possibilidade de voltar a ter pernas e braços. Com "brilhantes interpretações", quero dizer que Winnie está lendo suas falas de um cartão com a mesma desenvoltura de alguém nas primeiras fases da alfabetização e Eddie fala com a entonação de alguém que acabou de ver um documentário de dez horas sobre as repercussões do sono das codornas no ecossistema.
Após mostrarem que sabem manipular as emoções do espectador com maestria, LeVey e Saletri passam a mostrar seu igualmente titânico saber científico: Malcomb chega e Winnie explica a Eddie que este receberá "sua primeira injeção de DNA", que preparará seu corpo para a operação. A "aplicação de DNA", como a cena da escadaria, é acompanhada por uma inexplicável trilha sonora sinistra/bombástica (sim, a trilha sonora parte do sinistro para o bombástico sem nenhum motivo), seguida por mais imagens da fachada da mansão.
Enquanto aguarda o início do "trabalho" em seu noivo, Winnie resolve acompanhar o progresso dos demais pacientes de Stein. Podemos dizer que o trabalho do cientista é versátil: a primeira paciente é uma senhora que, através de injeções da fórmula do código genético do DNA (pfffffff), rejuvenesceu dos 90 para, aparentemente, uns quarenta e poucos anos. É necessário, contudo, que ela receba injeções da fórmula do código genético do DNA (HAHAHAHAHA!!!) a cada 12 horas, sob pena de voltar aos 90 anos e envelhecer ainda mais, rapidamente. Hmmm... Além de não ser muito encorajador, não vejo o que o experimento tem a ver com transplante de membros.
O próximo paciente é Bruno, que teve as pernas amputadas. Stein implantou novos membros com raios laser (hehehehehe), ministrando periodicamente injeções da fórmula do código genético do DNA (HAHAHAHAHA!!! Aí é foda! Eu morro!) para evitar rejeições. Tais injeções, contudo, não impediram um pequeno contratempo: uma das pernas do infeliz sofreu uma "involução" e Bruno agora tem uma perna normal e a outra, inexplicavelmente... essa é pra se lascar... listrada. Como a de uma zebra. Como diria aquele cara do "The Thing" de John Carpenter, "You´ve gotta be fuckin' kidding." Desde quando o ser humano pode "involuir" para uma zebra ou onça-pintada? Se eu não tivesse evidência fotográfica, ninguém acreditaria em mim.
Mas não se preocupem: o doutor está trabalhando em uma fórmula de RNA para reparar o que a de DNA não foi capaz de realizar. Hehe. Hehehe. Hehehehehe... HAHAHAHAHA...
Chega o momento que todos estávamos esperando: a "primeira fase" da operação de Eddie. Ele leva uma injeção para dormir, o doutor liga as máquinas cacofônicas e pirotécnicas e implanta os braços (da maneira como é mostrado, parece que ele simplesmente pegou uns braços que estavam largados por aí e colou com superbonder). E a operação se encerra, sem mais detalhes. Winnie, contudo, exclama que foi tudo "incrível". Teremos que acreditar na palavra dela, pois nada foi mostrado com clareza. De qualquer maneira, consideremos o seguinte: a operação consiste em implantes de membros, com injeções da fórmula do código genético do DNA (tudo bem, isso já não tem mais nem graça. É covardia) para evitar rejeições. O que nos conduz à seguinte indagação: qual é a função de todos aqueles aparelhos barulhentos? Só posso concluir que eles tem utilidade análoga àquela fantástica máquina que faz "PING!" na cena do parto de Monty Python's The Meaning of Life. Mas quem sou eu para questionar a sapiência de um homem que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por decifrar o Código Genético do DNA?
Corta mais uma vez para a nebulosa fachada da mansão de Stein, à noite. LeVey realmente adorou essa fachada...
Winnie e Dr. Stein, em seus quartos, escutam uma gritaria e correm para ver o que se passa: Bruno está tendo um piripaque, rugindo como uma pantera e forçando os profissionais a colocá-lo em uma camisa de força.
Mais um corte para a fachada. Agora, mostrando a versatilidade de seu diretor de fotografia e sua própria originalidade, LeVey mostra também a lua cheia, ao som de cães uivando. Winnie vaga pelos corredores da mansão e vai ver Eddie, cuja operação, ao contrário de todas as probabilidades, parece estar sendo um sucesso.
Entre uma e outra cena da fachada da mansão, Malcomb aproveita um momento a sós com Winnifred para declarar à moça que, desde que a viu pela primeira vez, ficou perdidamente apaixonado. Evidentemente, ele leva um chega pra lá, ouvindo aquela original conversa de "gosto de você como amigo". O sujeito é um idiota. A mulher só está lá por causa do noivo e ele acha oportuno dar em cima dela? Aparentemente, o mané se conforma, mas seu coração está em pedaços.
Enlouquecido pela rejeição, Malcomb resolve que, se não pode triunfar como amante, haverá de triunfar como um vilão, e mistura... alguma coisa... com o soro que vai ser injetado em Eddie. Caramba, isso está começando a parecer uma tragédia shakespeariana. Percebemos isso porque o soro que vai ser injetado em Eddie está em uma garrafinha de plástico com o rótulo (escrito à mão, de pincel) "Eddie Turner". A organização do laboratório de Stein é, sem dúvida, impecável.
Partimos para a segunda fase da operação de Eddie: Mais faíscas! Mais barulho! Mas, desta vez, não vemos as pernas serem coladas com superbonder, o que tira um pouco da magia da cena. Eddie dá um repentino piripaque e Stein injeta alguma coisa. Stein anuncia que a "fusão" parece ter sido bem sucedido, ao que Winnie exclama "Great, Doctor!", com o gusto de sempre (isto é, com uma interpretação digna de filme pornô DTV. Começo a entender por que LeVey, posteriormente, enveredou pelo ramo do softcore). É aqui que começa a tragédia: seguindo instruções do cientista, Winnie injeta duas doses da "fórmula de DNA de Eddie" adulterada por Malcomb.
Corta para o que, suponho, sejam alguns dias depois. À mesa, Stein anuncia que "hoje" é o dia em que Eddie poderá sair caminhando sozinho, ensejando apáticas exclamações de entusiasmo de Winnie (você pode achar que "apáticas exclamações de entusiasmo" seriam um paradoxo, mas mudará de idéia após ver a interpretação da moça). Quando os dois vão ver Eddie, porém, este afirma que não se sente bem... e o horror tétrico gerado pela nefasta interferência de Malcomb começa a mostrar sua face.
Alarmado, Stein ordena que seja preparada a sala de cirurgia, pois "devemos começar a trabalhar rápido". Nenhum dos testes indica erro na operação (e não houve: apesar do título e de todos aqueles exemplos de que o trabalho de Stein não é, digamos, irretocável, o problema não decorreu de equívoco do cientista, mas de um ato premeditado do mordomo mal-amado).
Na próxima cena, Winnie vai aplicar novas injeções em Eddie (que agora, inexplicavelmente, está em uma cela, numa masmorra) e Stein constata que seu paciente está ainda menos bem-apessoado e comunicativo, decidindo que vai aumentar as injeções em 50 cc. Isso vai resolver.
Várias cenas se passam, mostrando Winnie no laboratório, a fachada da mansão, os tubos de ensaio do laboratório, Winnie indo à masmorra ministrar as injeções, tubos de ensaio e máquinas do laboratório, Winnie indo ao laboratório de novo, Winnie desligando o equipamento do laboratório, Winnie saindo do laboratório... tudo isso contribui para construir uma tensão crescente (hehehe), culminando com a empolgante sequência em que o monstro desperta pela primeira vez e sai para semear o terror:
É brincadeira. Por 3:17 sólidos minutos, vemos o "monstro" (repare que, na verdade, só vemos um vulto) grunhindo e vagando pela masmorra, pelo laboratório, pela rua, até entrar em um prédio qualquer. "Bem", o espectador incauto pode estar se perguntando, "pelo menos, agora que ele entrou no prédio, alguma coisa vai acontecer, certo?" Certo. "Alguma coisa", nesse caso, significa mais cenas do monstro vagando e grunhindo sem rumo. Pelo menos, agora, podemos ver o semblante da horrenda criatura claramente:
Pois é. O ator que interpreta Eddie, só que com um cabeção quadrado, um black power igualmente quadrado e a pele pintada de cinza. Em favor de William LeVey, pode-se afirmar que a maquiagem não é tão ruim quanto a da criatura de Dracula vs. Frankenstein e... É só isso mesmo.
Após mais alguns segundos, descobrimos que o prédio onde o monstro entrou é o Hospital de Veteranos onde Eddie esteve internado. O suspense se instaura. Será que o enfermeiro gordo escroto finalmente pagará por sua crueldade? Flashbacks dos insultos do enfermeiro se passam. Várias vezes. Caso tal possibilidade não tenha ocorrido ao espectador. Se você ficar com a impressão de que William LeVey não primava pela sutileza, lembre-se que o título completo do filme é Blackenstein: The Black Frankenstein. Talvez LeVey achasse que alguém poderia supor que se tratava de uma versão blaxpoitation sobre a vida de Einstein e preferiu não deixar margem para dúvidas. Da mesma maneira que ele supôs, aqui, que ninguém iria imaginar que ia sobrar pro enfermeiro que foi mostrado, no início do filme, esculachando gratuitamente o indefeso Eddie.
Após mais intermináveis segundos do Blackenstein cambaleando pelos corredores do hospital, (se a idéia de ver um grandalhão cambaleando interminavelmente por corredores escuros parece empolgante, você vai se divertir à beça com este filme) a perguntar que não quer calar finalmente é respondida: sim, o enfermeiro escroto é a primeira vítima da fúria do monstro, numa sequência que mostra toda a influência do expressionismo alemão sobre a obra de Levey.
Mas o horror está apenas começando: a próxima vítima é um fofo cachorrinho encontrado pelo monstro em suas andanças sem rumo. Os donos do totó (uma loira peituda e um coroa pelancudo) escutam os gemidos de dor do cão e, após insistência da patroa, o cara acaba concordando em sair para ver o que aconteceu com o bicho. Um grito ecoa na noite, alarmando a loira, enquanto vemos duas pernas pálidas e peludas no chão, se debatendo.
Loiruda vai verificar o que ocorreu e se torna mais uma vítima da fúria homicida da criatura, sendo atacada e eviscerada numa cena que é um primor de edição: a moça sai da casa, com uma lanterna; ouvimos as batidas de coração que sempre indicam a presença do monstro; ela dá mais uns passos; corta para a loira, já sendo agarrada pelo monstro (que parece ter se materializado diante dela), vemos os pés da vítima se arrastando no chão; o monstro se atraca com ela por mais alguns segundos; escutamos o barulho de algo sendo estourado ou rasgado; a moça cai toda ensanguentada e percebemos que seu ventre foi rasgado e o monstro está brincando com suas tripas. Eu sei que esta crítica está cheio de vídeos, mas, sinceramente, não dá para fazer justiça à cena com meras palavras.
Deixando mais uma vítima para trás, Blackenstein (The Black Frankenstein) vaga de volta à mansão.
À mesa de jantar, Malcomb lança um olhar apaixonado para Winnie, enquanto esta retribui a paixão, à princípio, com um olhar que parece dizer "eca!" e, em seguida, com uma expressão de desconfiança. Stein, enquanto isso, lança um olhar sinistro sobre toda a situação, através do espaço entre os braços de uma estátua, colocada sobre a mesa, de dois amantes se beijando. É tudo muito intrigante e não contribui em nada para o progresso da trama.
Após mais uma cena inteiramente supérflua no laboratório, Winnie vai à masmorra e... Eddie está na cama. A moça injeta mais da tal "fórmula do DNA" e sai, fechando a porta da cela, mas não trancando. O que torna meio sem propósito toda a idéia de ter uma masmorra.
Partimos para mais uma vibrante cena de laboratório, onde a moça mistura alguns líquidos de cores diversas num tubo de ensaio. Intrigada por alguma coisa que nós, meros leigos, não logramos compreender, Winnifred pega a garrafinha da "fórmula de DNA" de Eddie, pousa, pensativa, sua cabeça sobre a mesa e cai no sono.
A criatura previamente conhecida como Eddie aproveita o ensejo para sair de sua cela e curtir a noite hollywoodiana. Aqui, vemos novamente aquele espetacular trajeto, percorrido lentamente pelo monstro, de sua cela até a rua.
Corta para o monstro no que parece ser um parque, grunhindo e cambaleando. A transição é essa mesma: num instante, o monstro está passeando pelo laboratório; no momento seguinte, vagando entre árvores. Um jovem casal chega ao local, num carro conversível. O rapaz começa a xavecar a moça, que não está nem um pouco interessada e rejeita rapidamente a lábia infalível do Don Juan, pedindo para ser levada para casa. O garotão, entretanto, parte da clássica premissa (origem da situação de incontáveis presidiários mundo afora) de que "quando uma mulher diz 'não', ela quer dizer 'sim'" e continua falando abobrinhas e tentando apalpar a garota. Esta perde a paciência e sai do carro, restando ao rapaz apenas sair em disparada, certamente com a intenção de chegar logo em casa e fazer justiça com as próprias mãos.
A donzela, por seu turno, é atacada pelo monstro (aposto que por essa ninguém esperava) e somos brindados por mais uma cena de pernas sendo arrastadas.
Na mansão, no dia seguinte, Winnifred, à mesa de jantar, é convidada ao laboratório por Stein. O inimitável Malcolmb (em uma cena "hilária") aproveita a ausência dos dois e come o que sobrou do almoço do cientista, feliz da vida. O que não tem qualquer repercussão sobre a trama, mas, a essa altura, já contribui, estranhamente, para a manutenção do ritmo da obra.
No laboratório, antes que qualquer conversa ocorra, o monstro, em sua cela (que agora parece estar trancada), ataca o doutor e sua amada. Nenhum dos dois parece estar surpreso com o estado do rapaz, embora seja a primeira vez que o filme mostre os dois encontrando o monstro acordado. Será que foram filmadas cenas dos dois se deparando com a transformação do gentil Eddie em uma criatura monstruosa e LeVey, profundo conhecedor da arte cinematográfica que é, decidiu, a fim de tornar o filme mais ágil, cortá-las na edição, deixando espaço para as imprescindíveis cenas do monstro vagando por corredores escuros por vários segundos e de Winnifred, Stein e Malcolm trocando olhares enigmáticos? Jamais saberemos.
Um novo elemento contribui para aumentar o intenso suspense da trama: uma dupla de policiais (um branco e um negro com um luxuoso black power, para que ninguém esqueça que estamos na década de 70) chega à mansão de Stein. O motivo da visita é saber se o cientista viu alguém estranho pela vizinhança que possa estar ligado à série de homicídios ocorrida recentemente. Basicamente, o médico diz que não e os dois policiais se dão por satisfeitos e vão embora. Essa foi por pouco. Não sei vocês, mas eu fiquei com o coração na mão.
Mais uma cena de Blackenstein grunhindo e cambaleando pelas ruas, ao som de música estrondosa.
Temos agora uma cena num nightclub. Para minha surpresa (embora seja mais uma cena totalmente desnecessária à trama), um humorista vai ao palco e conta duas piadas que até me fizeram sorrir (é tudo uma questão de contexto: levando-se em consideração a boa interpretação do humorista e o tédio excruciante do resto do filme, as piadas se tornam hilariantes). O comediante vai para os fundos degustar um cigarro após sua apresentação e acaba testemunhando a passagem do monstro. Felizmente, o rapaz, que foi o único ator minimamente decente a aparecer no filme até agora, escapa incólume.
Os próximos a cruzarem o caminho de Blackenstein, entretanto, não tem a mesma sorte. Trata-se de um casal que está num beco e a cena já começa errada: não há como saber ao certo se o casal estava simplesmente pretendendo mandar ver nos fundos do clube (e a moça, ao ver o monstro, faz uma expressão de horror) ou se a moça estava sendo estuprada (o que justificaria sua expressão de horror antes mesmo do monstro entrar em cena). Não vale a pena especular, pois tudo é interrompido pelo Frankenstein Negro. Após uma bem coreografada luta entre este e o amante-ou-estuprador (o cidadão é jogado no chão, levanta, dá umas duas porradas no monstro, é jogado no chão de novo, dá mais duas porradas no monstro e é jogado mais uma vez, caindo morto), a moça, ao invés de correr, adota o comportamento testado e reprovado em incontáveis filmes de terror vagamento: fica paralisada num canto, esperando pacientemente a criatura se aproximar e, em mais um momento de edição irretocável, é estripada pela criatura - num segundo, a moça está encostada na parede, tremendo; no outro, o monstro desfere uma pancada e a moça cai, abdomem e ventre rasgados, enquanto o Blackenstein se diverte com suas tripas. A criatura, aparentemente, não é das mais criativas na hora de escolher como barbarizar suas vítimas.
Agora a coisa fica preta: galvanizada pela série de hediondos assassinatos, o Departamento de Polícia de Hollywood mostra todo o seu peso, colocando uma força-tarefa de 2 (dois) veículos e cerca de sete policiais para deter a abominação homicida.
Entre esses bravos agentes da lei está o policial black power, interrogando o comediante, única testemunha viva dos horripilantes acontecimentos. Mostrando uma tendência a reimaginar a realidade, o humorista descreve ter ouvido um terrível grito e, em seguida, visto uma imensa criatura de três metros de altura. O que nos deixa um pouco confusos, pois 1) não foi assim que a coisa aconteceu (ele primeiro viu o monstro e, depois, o ataque ocorreu) e 2) nem fodendo aquele bicho tem três metros de altura.
Blackenstein retorna ao lar, onde, pela janela, flagra Malcomb tentando (após não lograr sucesso com o romantismo) conquistar o amor de Winnie mediante a única outra forma concebível pela sofisticada mente do mordomo: estuprando a moça. Inflamada pela fúria, a criatura sobe lentamente a escadaria, grunhindo, adentra o quarto e, diante do incrédulo olhar da moça... dá umas cambaleadas pra cima de Malcomb, que foge. E o monstro se volta para Winnie. A expressão da moça certamente deveria indicar pavor paralisante, mas só posso imaginar que a frase que a moça está pensando é "You fuckin' pansy!"
Malcomb, porém, não se deu por vencido. Corroborando nossas considerações sobre seu intelecto, o mordomo apaixonado retorna com uma pistola, disparando vários tiros contra Blackenstein e descobrindo, tarde demais, que devia ter imaginado um "Plano B".
Stein, alertado pela barulheira, sobe a escadaria em espiral. O simbólico lustre aparece uma vez, significando, concatenado com a escalada do cientista, que este está flertando com a morte. Encontrando o doutor, Winnie exclama que "O monstro é Eddie!"
Peraí... que porra é essa? Se a memória não me falha, essa maria cebola foi vista várias vezes dando injeções em Eddie após este ter se transformado no Black Frankenstein. Vimos, também, ela sendo atacada pelo mutante, bem como o cientista, e sabemos (como ambos devem saber) que a cela onde Eddie ficava "preso" estava sempre destrancada. Sinceramente... quem ela achava que estava cometendo uma série de homicídios nos arredores? Ali Babá e os Quarenta Ladrões? E por que Stein desconversou quando a polícia veio investigar? Por que Ali Babá, por coincidência, era parente dele? Puta merda, isso é tão idiota que adquire uma beleza transcendental...
Enfim, a debilóide e o cientista (que decifrou o código genético do DNA, não esqueçamos) saem correndo em disparada. Blackenstein, enquanto isso, aproveita o embalo para matar Bruno,e descer lentamente as escadas, grunhindo. Na metade da descida, entretanto, ele escuta os gritos de pavor da incrível mulher que rejuvenesceu, pensa melhor (não estou sacaneando, a cena é exatamente assim: o monstro escuta os gritos, pára por um instante e [só faltou dar um grunhido de reflexão] parece pensar melhor e mudar de idéia) e sobe as escadas para continuar a diversão. Mais uma vítima da vagarosa ameaça, que desça vez desce mesmo as escadas.
Blackenstein: The Black Frankenstein chega ao laboratório e percebemos que Winnie é tão ágil quanto seu noivo mutante: a moça está freneticamente (isto é, despreocupadamente) preparando uma injeção da "fórmula do DNA de Eddie" (cuja eficácia, como sabemos, já foi evidenciada reiteradamente). Mostrando uma percepção tão aguda quanto sua agilidade, Winnifred só percebe a presença do monstro gigantesco e barulhento quando este já está a alguns centimetros de distância e, para a surpresa de todos que nunca viram um filme de terror fuleiro antes, se encolhe num canto e fica gritando.
Em um momento de estonteante originalidade, Eddie, mostrando que ainda resta algo de sua humanidade no âmago de seu ser arruinado, reconhece sua amada e hesita. Stein, que estava sabe-se lá onde, aproveita a situação para atacar o monstro, confiante na impressionante capacidade de combate de que gozam todos os idosos. O resultado é pirotécnico, porém previsível.
Essa distração parece arrefecer o interesse do monstro em Winnie, fazendo-o retornar a dar vazão a seu verdadeiro amor: vagar lentamente pela rua e atacar uma cidadã que, até então, nunca tínhamos visto e jamais saberemos quem é.
A polícia chega ao laboratório e encontra Winnie. As peças estão no tabuleiro: tudo está em posição para um confronto apocalíptico entre o Frankenstein Negro e as forças policiais. Pelo menos era isso o que pensaria aquele cinéfilo hipotético que mencionei no início do artigo (se ele não tivesse falecido em razão das cem doenças que o fiz contrair). Mas não foi, entretanto, o que pensaram LeVey e Saletri.
Longe de se renderem a tal clichê, a obra segue uma direção mais interessante: o monstro carrega a vítima anônima para um depósito vazio. A moça se debate e consegue se libertar, sendo perseguida pelo monstro em mais uma eletrizante sequência onde Eddie caminha lentamente e rosna. Blackenstein não é, porém, páreo para a astúcia da vítima não identificada, que encontra um esconderijo infalível e passa despercebida.
A moça aproveita a oportunidade para fugir da maneira mais eficiente possível: subindo dois degraus de uma escada e emitindo gemidos audíveis a um quarteirão de distância. E, assim, para a surpresa de ninguém, Blackenstein encontra a intrépida jovem e faz mais uma vítima.
Quando tudo parece perdido, a polícia de Los Angeles recorre a uma tática inédita. Sabe aqueles "cães demoníacos" na capa do filme? Eles são (e isso não é piada; o negócio é tão retardado que qualquer piadinha seria redundante) os "Los Angeles County Canine Corps", que a polícia solta no depósito. Os bélicos totós atacam o mutante e, após um "apoteótico" confronto, evisceram a criatura. Percam o fôlego diante do clímax da obra, que os deixará empolgados como Renzo Mora após ler uma autobiografia de Preta Gil de 1500 páginas e narrada em terceira pessoa:
Após esse momento de intenso horror, Levey resolve adoçar a coisa com um "momento romântico" e totalmente sem pé nem cabeça entre Winnie e Policial Black Power, evidenciando que a moça ainda terá um longo caminho a percorrer na dura estrada para esquecer a morte de seu amado Eddie.
E, assim, todos vivem felizes para sempre. Não, porém, sem que sejamos brindados com uma última imagem da fachada da mansão de Stein.
Muito pode ser dito sobre esse filme. E eu já disse um bocado, é claro. Mas, além do que eu já disse, muito pode ser dito sobre Blackenstein. Dizer, porém, que o filme é uma porcaria, que a maquiagem é patética, que os atores são podres, que a "ciência" da história é digna de L. Ron Hubbard, que a fotografia faz uma novela da Globo parecer Suspiria, que a edição tem todo o vigor de quem acabou de ser atropelado por um ônibus e que toda a história pode ser resumida em questão de segundos é como dizer que levar um tiro no joelho dói. Embora eu tenha tentado reduzir a escrito a experiência surreal que é assistir a esta bomba, é preciso testemunhá-la pessoalmente (o que não é difícil: o trambolho está disponível em torrent e, creio eu, ninguém quis carregar a desonra de manter a "propriedade intelectual" da obra).
É óbvio que o único interesse dos culpados por Blackenstein foi faturar em cima do sucesso de Blacula, lançado no ano anterior. O problema é que, embora, à primeira vista, o "modelo" de Blackenstein pareça ser um besteirol do mesmo calibre, Blacula é um filme bastante decente, com um elenco geralmente competente, um vilão trágico interpretado com brilhantismo por William Marshall e um romance que, apesar de recorrer ao artifício de "amor reencarnado" que eu tanto odeio, consegue convencer. Quer dizer, o pessoal que fez Blacula decidiu sentar, pensar, escrever um roteiro e fazer um filme de verdade. Já Levey e sua turma viram um cartaz do Frankenstein de James Whale, pensaram, basicamente, "Ei, Drácula é tipo esse filme e Blacula é mais ou menos tipo Drácula, só que com um cara negro fazendo papel do Drácula. Então, se a gente pegar um cara negro, colocar uma maquiagem esquisita e um cabeção quadrado nele, o filme pode se chamar Blackenstein e também vai render uma porrada de dinheiro" e convenceram um bando de otários a financiar o "empreendimento". É altamente provável que ninguém envolvido em Blackenstein tenha visto uma das inúmeras versões cinematográficas da história.
Essa, entretanto, não é a beleza do filme, nem explica a experiência ímpar que é contemplá-lo. The Black Frankenstein, sinceramente, parece ter sido feito por gente que nunca assistiu a um filme antes e nem sabe exatamente o que é isso. A primeira vez que vê um personagem fazendo um monte de bobagens prosaicas e irrelevantes à trama, você pensa: "Hmm... alguém está querendo encher linguiça". Na segunda vez, a reação é a mesma. Já na terceira, o espectador começa e ficar intrigado e a ter a estranha sensação de que o "cineasta" e sua turma achariam que isso era genuinamente interessante. E na quarta (se o espectador já não ficou de saco cheio e parou de assistir) o processo se torna hipnótico. A mesma coisa com o monstro: depois de vários segundos da criatura cambaleando diante da câmera estática, você começa a ter a impressão de que algo finalmente vai acontecer; depois de dois minutos, o espectador já começa a ficar impaciente; após três minutos, a sensação é a de que a cena vai continuar assim eternamente; após quatro, tal sensação se torna estranhamente confortável, e, quando alguma coisa finalmente acontece, é quase decepcionante, por mais ridícula e hilariante que seja a técnica utilizada por Levey para filmar as "atrocidades" do monstro. O espectador começa a desenvolver um prazer masoquista com a idéia de que as andanças do monstro vão se estender eternamente. Em minha crítica de Incredible Melting Man, comentei que o roteiro era praticamente inexistente; comparado a Blackenstein, porém, aquele filme parece uma trama de James Ellroy.
Temos ainda, claro, a "ciência" do filme. A quantidade de asneiras é tão imensa e intensa que leva o espectador a questionar sua própria percepção da realidade: "Será que eu estou mesmo vendo isso?", indaga-se a vítima, intrigada. "Será que alguém achou que era possível ganhar um Prêmio Nobel da Paz por 'decifrar o código genético do DNA'? Será que outra pessoa, após ler o roteiro, não percebeu o tamanho da besteira e pensou que ninguém mais no mundo tinha noção do que é levado em conta para se receber um prêmio Nobel da Paz? Ou que o público também não sabia o que era 'código genético' nem 'DNA'? Ou que nada disso tem a ver com Nobel da paz e muito menos com um monte de máquinas barulhentas que emitem raios de eletricidade?" A resposta é um enfático "Sim, tudo isso é possível" e aspectos da realidade que o espectador sempre julgou evidentes começam a se tornar questionáveis. Nenhuma dessas bobagens foi um lapso: os personagens falam reiteradas vezes (como tentei mostrar ao longo deste texto interminável) no fato de Stein ter "decifrado o código genético do DNA" e nas injeções da "fórmula de DNA de Eddie".
A edição é igualmente desconcertante: enquanto um cineasta normal tentaria cortar cenas de exposição e se concentrar na ação, Levey faz questão de dedicar vários minutos a cenas de exposição absolutamente retardadas e ao monstro trôpego vagando por corredores escuros. Quando, entretanto, finalmente há uma cena de ação, cortes inexplicáveis turvam a compreensão do espectador. E não é o tipo de corte que evita efeitos especiais e, consequentemente, poupa dinheiro (Levey não hesita em monstrar barrigas rasgadas e tripas arrancadas, com efeitos que fazem o Nights of Terror de Andrea Bianchi parecer o Zombie de Fulci) - estou falando de cenas do monstro estrangulando alguém, trocando tapas, ou simplesmente arrastando a vítima, cujo acompanhamento se torna incompreensível graças a cortes durante a "ação". Para um exemplo típico, veja a morte da loiruda.
Trata-se, enfim, de um filme com fator trash dos mais elevados. Esqueça o bom senso e veja Blackenstein. William Levey tentou fazer uma tosca versão blaxploitation de Frankenstein, mas acabou fazendo o equivalente blaxploitation de Manos: The Hands of Fate.
Revi o clássico acima hoje e lembrei de uma boa contada por Stephen King em "Dança Macabra". Segundo o relato, um jornalista, à epoca do lançamento de Meu Ódio Será Sua Herança, indagou ao diretor por que este dirigiu um filme "tão violento". "I like shoot 'em ups", respondeu Sam Peckinpah, tranquila e definitivamente. Parece que o saudoso mestre, ao contrário de mim, era um adepto da máxima shakespeariana segunda a qual "concisão é a alma da sagacidade."
Tenho que deixar uma coisa clara: faço parte da maioria de fãs de gibis que considera os dois primeiros filmes da série Superman duas das melhores adaptações de todos os tempos e que o Superman II, embora inferior ao primeiro, ainda assim é muito bom. Isto posto (e talvez eu seja um fã retardatário), só ontem vi Superman II: The Richard Donner Cut e tenho que concluir: a culpa do segundo ter sido inferior ao primeiro é do diretor Richard Lester e acho que nunca mais vou querer ver a versão "original" novamente.
A história é manjada, mas tentarei resumir para quem não conhece: desde o início, a idéia dos dois filmes era um só épico dividido em duas partes. Segundo alegações de Donner, o roteiro original, escrito por Mario Puzo e reescrito por David e Leslie Newman e Robert Benton, seguia uma orientação camp, mais ou menos no estilo da série Batman com Adam West. Donner trouxe Tom Mankiewicz para a produção, creditado como "consultor criativo". Na prática, Mankiewicz reescreveu o roteiro, reduzindo drasticamente o fator camp e imprimindo à história o tom sério e épico desejado por Donner. Posteriormente ao lançamento do primeiro filme, com cerca de 75-80% da fotografia principal já feita por Donner, o pau comeu entre este e os produtores Ilya e Alexander Salkind. A verdade sobre a esculhambação é obscura, mas há várias versões: Marlon Brando, baseando-se no fato de o segundo filme ter várias cenas já gravadas com seu personagem, processou (e ganhou) para receber uma porcentagem da bilheteria; os produtores optaram por simplesmente suprimir as cenas com seu personagem, o que teria emputecido Donner. Os produtores, segundo este, estariam fazendo pressão para uma filmagem mais rápida e mais barata. Ilya Salkind, por seu turno, alega que Donner excedeu o orçamento e os prazos, demandava controle criativo total e final cut do filme e exigia a manutenção das cenas com Brando, sob pena de, à moda de Eric Cartman, "screw you guys, I'm going home". A conclusão da dramática baixaria é que Donner foi dispensado e a direção foi assumida por Richard Lester. Para este manter o crédito de diretor, segundo o Director's Guild (sindicato da categoria), teria que filmar pelo menos 51% do filme, resultando na maior parte das filmagens de Donner sendo limadas (estima-se que somente 25% do que este filmou foi mantido, e ainda assim só porque Hackman teria se recusado a participar de novas filmagens sem Donner na direção). Mankiewicz também caiu fora e, em conseqüência, praticamente todas as partes do roteiro que ele reescreveu retornaram à sua forma original.
Não posso falar por todo mundo, mas o que nunca gostei no versão original do Superman II (e acho que não estou sozinho) foi o excesso de "humor" acrescentado à história. Na verdade, mesmo no primeiro filme, já achei o Lex Luthor o ponto fraco justamente pelo roteiro tê-lo caracterizado de forma mais cômica. A interpretação de Hackman é excelente, e a dinâmica entre o personagem e seu capanga Otis, pelo menos, é genuinamente engraçada, mas nunca achei o personagem ameaçador - não obstante seu plano para se tornar o "proprietário" da Costa Leste dos EUA seja monstruoso, nunca assimilei aquele Luthor como um vilão de verdade. Achei o Luthor de Kevin Spacey muito mais eficiente. Neste aspecto, o segundo filme tinha o plus de ter três vilões de verdade. Não faço questão de que toda adaptação de gibi seja tratada com o tom de um drama sobre a Serra Leoa (o recente "Homem de Ferro", por exemplo, que tem um tom mais light, é excelente). O que acho difícil de encarar é um filme de super-herói cujo único adversário é um bufão. Mas, pelo menos, nunca achei o personagem insuportável e as virtudes do primeiro filme, em minha opinião, em muito superam as fraquezas. No segundo, porém, forçaram a barra com o camp e torna-se fácil entender por que Donner insistiu em trazer Mankiewicz para reescrever o filme.
A versão de Richard Donner, lançada em 2006, utilizando as cenas que ele já havia filmado e, para manter a continuidade e na ausência dos 20%-25% que ele nunca chegou a filmar, gravações de ensaios e testes. Não sei como foi solução jurídica para o problema após a morte de Brando, mas as cenas de Jor-El (cuja função, na versão original, foi substituída por Susannah York, que interpreta Lara, a mãe de Kal-El) foram restauradas. E os momentos mais xaropes do filme de Lester foram eliminados. Para evitar spoilers, tentarei ser breve ao mencionar as alterações.
Sabem aqueles inúmeros momentos "cômicos" em que Non tenta usar sua visão para queimar coisas e falha várias vezes, além de outras que fazem o personagem parecer não o psicopata animalesco descrito por Jor-El, mas um vilão da série "Esqueceram de Mim"? Fora.
Sabem toda aquela sequência com os terroristas em Paris e as trapalhadas de Lois Lane para conseguir um "furo" sobre o incidente, sendo resgatada pelo Super-Homem, que acaba, ao eliminar a ameaça dos terroristas, involuntariamente libertando Zod, Non e Ursa? Nada disso aparece na edição de Donner - a forma como os três vilões se libertam é bem mais sucinta e ligada diretamente ao primeiro filme.
Uma piada muito batida sobre os gibis e filmes do Super-Homem é que todo mundo no Planeta Diário deve ser imbecil, já que a "transformação" de Clark Kent no herói consiste, basicamente, em trocar de roupa, tirar os óculos e mudar o penteado. Pois é, isso não foi ignorado por Donner e Mankiewicz e é assim (mais o fato de que os dois nunca estão no mesmo local simultaneamente) que Lois Lane chega à sua teoria de que Kent é o Super-Homem.
Sabem aquela idiotice supostamente cômica e sem propósito de Lois Lane ter fixação por suco de laranja espremida na hora? Fora.
Tudo bem, a cena em que Lois Lane se joga na cataratas do Niágara para forçar Clark a se revelar era bem legal, mas foi substituída por outra muito melhor, e logo no começo do filme. Sabem aquela cena ridícula em que Lois finalmente descobre que Kent é o Super-Homem? Em que o herói, depois de vários malabarismos para convencer a moça que ela está errada, acaba, como um mané estabanado, tropeçando no tapete do quarto de hotel e enfiando a mão na lareira? Fora. É substituída por outra muito mais plausível e realmente cômica - ao contrário de Richard Lester, Donner e Mankiewicz não tinham o senso de humor estilo "Os Trapalhões".
As cenas entre o Super-Homem e sua mãe foram substituídas pelas originalmente filmadas por Donner com Brando. É uma alteração que faz enorme diferença: Jor-El e seu filho tem um debate que realmente enfatiza a natureza egoísta e as consequências da decisão que o Super quer tomar (no original, era basicamente um, "Manhê, mas eu quero ter uma namorada!" e "Meu filho, pense bem!") E quando, após levar uma série de porradas num bar e tomar conhecimento sobre a chegada de Zod, Ursa e Non, o herói se dá conta da merda que faz e decide voltar atrás e recuperar seus poderes... Porra, enquanto no original, Clark simplesmente encontra o cristal verde na Fortaleza de Solidão e não temos nenhuma outra explicação sobre sua recuperação, aqui temos uma cena com um show de interpretação de Brando e Reeve, que aborda e intensifica ainda mais as alegorias cristãs do primeiro filme e torna aquela frase de Jor-El sobre "o filho se torna o pai e o pai se torna o filho" algo muito mais que um diálogo bonito. Eu sugiro a todo mundo que veja o filme completo, mas, para quem não se incomoda com spoilers, eis a cena:
A batalha entre o herói e os três vilões em Nova York é mais prolongada e todos aqueles ridículos momentos pastelão foram excluídos (como o cara que, com o tufão provocado pelo sopro de Zod, Ursa e Non, leva uma "sorvetada" na cara e o imbecil que, mesmo em meio ao caos, continua falando no telefone e rindo como um débil mental).
O confronto final também é muito mais sucinto e lúcido, sem nada daquelas palhaçadas sobre os superpoderes holográficos ou o "S" gigante.
Aquela idiotice sobre o "beijo mágico que faz esquecer" também é excluída, sendo substituída por... tudo bem, a solução aqui também é bastante idiota, mas pelo menos é coerente com primeiro filme.
Enfim, mesmo que todas as queixas do produtor fossem a verdade absoluta, Ilya Salkind devia ter pago o que Brando queria e mantido Donner na direção, por mais insuportável que este estivesse sendo. Eu só toquei nos pontos principais. Todo o filme tem um ritmo muito melhor que o theatrical cut, mantém o tom épico do primeiro (apesar de ser cerca de dez minutos mais curto), a fotografia é muito superior e, francamente, embora tenha lido em vários sites sobre o estado precário das cenas "alternativas" utilizadas no lugar das que nunca foram filmadas, não notei tais discrepâncias. É a versão definitiva do filme e, depois de vê-la, você também não vai ter mais o menor interesse de rever o theatrical cut.
Finalmente - e eu gostaria muito de ter escrito isso primeiro, mas tenho que atribuir o crédito a quem é devido - vale mencionar essa consideração feita pela Cracked.com: seria justo dizer que todas as virtudes do theatrical cut de Superman II foram mérito de Donner e todos os defeitos, culpa de Richard Lester? Bom, quando Lester teve a oportunidade de dirigir sozinho e da estaca zero um filme com o personagem, o resultado foi Superman III.
Como diria Nelson Mandela, "this fucking movie kicks unbelievable amounts of ass".
Lançado no Brasil com o estapafúrdio título "As Bodas de Satã" (não tem nenhuma casamento demoníaco na história), este é um dos melhores (senão o melhor) filmes já produzidos pela Hammer, com uma das mais memoráveis interpretações de Christopher Lee (empolgante em um de seus poucos papéis heróicos); um roteiro enxuto, onde a ação parece nunca parar, embora não haja qualquer deficiência na exposição; uma seita satânica baseada em conhecimento considerável de magia cerimonial (não estou dizendo que acredito nisso, só que tenho um interesse acadêmico sobre o assunto e sei que o filme não saiu tirando sua mitologia do nada) e Charles Gray como o vilão satanista mais cool da história do cinema.
A trama tem início com a chegada do duque de Richleau (Christopher Lee) à Inglaterra, onde é recebido por seu amigo de guerra, o americano Rex Van Ryn (Leon Greene). O terceiro membro do grupo de compadres, Simon Aron (Patrick Mower), não comparece à reunião anual do trio. Tal ausência, tomamos conhecimento, é consistente com o comportamento retraído que o rapaz tem adotado ultimamente. Seus dois amigos, a fim de verificar o que está ocorrendo, resolvem fazer uma visita-surpresa ao rapaz, que se isolou numa mansão nos arredores de Londres.
Lá chegando, de Richleau e Rex percebem que entraram, involuntariamente, de penetras numa festa; Simon alega que não os esnobou, mas que se trata de uma reunião de uma "sociedade astronômica" a que ele se filiou recentemente. De Richleau e Rex, ignorando que sua presença não é bem-vinda (o duque ignora porque, já desconfiado, quer sondar o ambiente; Rex, porque realmente é meio sem noção), resolvem dar uma circulada e trocar umas idéias com a turma, que se revela um aglomerado de ricaços das mais diferentes nacionalidades, entre os quais o parrudo e enigmático Mocata (Charles Gray), que, aparentemente incomodado com a presença dos dois caras-de-pau, chama Simon para uma conversa particular.
Aproveitando o ensejo, de Richleau continua a sondar a área, captando fragmentos de várias conversas entre as diversas panelinhas da festa; Rex, enquanto isso, tenta xavecar uma jovem, Tanith (Nike Arrighi). A investida do "galã" se revela infrutífera: a moça, ao perceber que Rex não é membro da sociedade e, portanto, está excedendo o "grupo de treze" que deveria estar ali na ocasião, dá um célere chega-pra-lá no sedutor frustrado e se afasta.
Finalmente, Simon (claramente sob pressão de Mocata) percebe que os amigos não vão se mancar e resolve, delicadamente, sugerir que eles se retirem, dado que se trata de uma reunião exclusiva, prometendo entrar em contato em breve para que os três possam "tomar umas" mais à vontade. O duque não se ofende, pedindo apenas para dar uma olhada no observatório astronômico da casa. Ansioso para se livrar dos dois pentelhos, Simon concorda.
O observatório, é, digamos assim, meio suspeito, sugerindo que sutileza não é uma das notas características da tal "sociedade astronômica".
Os símbolos que adornam o recinto, associados a uma galinha branca e um galo negro (bom, pelo ocultismo, era para ser negro, mas na verdade é mesclado, negro e pardo) que de Richleau encontra em um dos armários confirmam suas suspeitas: sociedade astronômica é o escambau - Simon está envolvido em uma seita de magia negra. Resolvendo deixar a conversa de bêbado para delegado de lado, o duque vai direto ao ponto e confronta o jovem sobre o fato, recebendo o típico "a vida é minha e eu faço dela o que eu quiser" como resposta. De Richleau tenta, racional e calmamente, persuadir o rapaz, apelando para sua experiência e idade e explicando que, durante toda a sua vida, estudou esoterismo, e que o amigo está sendo induzido, ingenuamente, ao culto ao Maligno. Não logrando êxito em convencer Simon a abandonar suas "novas experiências", o duque perde a paciência e parte para uma abordagem mais convencional:
Aplicando um certeiro soco no jovem, que desmaia, le Duc abduz o rapaz e, na saída da casa, ainda bate a poeira do mordomo. Só pra sacanear. Isso é massa: menos de quinze minutos de filme e já temos Christopher Lee perdendo a compostura e descendo a porrada duas vezes.
De Richleau conduz o rapaz a sua casa, onde o submete a uma sessão de hipnotismo para reverter a "lavagem cerebral" que teria sido feita pela seita e o deixa em um dos quartos de hóspedes, com a sugestão hipnótica de dormir por oito horas e acordar "de mente clara". E com um crucifixo em torno do pescoço. Rex, claro, não entende nada e acha que o duque está levando o negócio a sério demais. Lamentavelmente para os rapazes, Mocata, líder da seita, também não é homem de ficar punhetando, e usa seus poderes sobrenaturais para fazer o rapaz fugir na calada da noite.
Percebendo a sacanagem que lhes foi aprontada pelo satanista, de Richleau e Rex retornam à mansão de Simon, onde não encontram o mancebo. Mas, no observatório, são confrontados diretamente, pela primeira vez, por uma manifestação física dos superpoderes de Mocata, escapando por um triz.
A situação, evidentemente, deixa Rex mais propenso a acreditar nas teorias de seu amigo. De Richleau, explica, então, o significado dos símbolos, do casal de galináceos, do antigo tomo de ocultimo que eles encontram na desagradável segunda visita à casa de Simon e tudo o mais: o jovem está prestes a ser induzido numa seita satânica, provavelmente liderada por Mocata, e seu batismo de sangue, que deveria ter sido realizado naquela noite, tornaria praticamente definitiva a perda de sua alma para o Tinhoso. É então que o duque se dá conta que a noite seguinte, véspera do primeiro de maio, é o maior Sabbath do ano, quando certamente Mocata aproveitará a ocasião para celebrar o batismo satânico de Simon.
As possibilidades de a dupla impedir o fatídico batismo melhoram quando Rex se lembra que já havia encontrado Tanith, a jovem que tentou xavecar na "festa", em outra ocasião e os dois, munidos do nome completo da moça, conseguem localizar onde está hospedada. Usando, presume-se, cantadas provavelmente mais eficazes que suas abordagens anteriores, Rex basicamente sequestra Tanith (que também ainda não foi "batizada") e, conforme acordado com o duque, a leva para a casa de de Richard e (Paul Eddington) Marie Eaton (Sarah Lawson), sobrinha de De Richleau.
A abdução, porém, não dura muito tempo: assim que chegam à casa, é só Rex estacionar e virar as costas que a beldade, sob a influência de Mocata, furta o carro e foge em disparada. Rex, sem muita cerimônia, pega o carro do casal emprestado e segue a fujona. Após uma frenética perseguição (bons tempos aqueles, em que ninguém achava necessário dez cortes por segundo para tornar uma cena de perseguição automobilística "mais emocionante"), Tanith, auxiliada pelos poderes malevólos do vilão e contrariando toda a sabedoria popular sobre mulheres na direção, acaba levando o herói a bater o carro e ficar comendo poeira na beira da estrada.
Por sorte, o destrambelhado herói, após quase ser atropelado na estrada por outro membro da seita, também a caminho do Sabbath, consegue seguir o autor do atropelamento fracassado até os portões de uma mansão (porra, todo mundo nesse filme é podre de rico e tem uma mansão...), em cujo jardim se encontram estacionados uma cacetada de carros, e testemunha Mocata, Simon e mais uma porrada de gente usando capas pretas saírem da casa e seguirem em carreata com os veículos. Sorrateiro, Rex consegue se entocar na mala de um deles, identificar o local onde ocorrerá a carimônia satânica e entrar em contato com De Richleau, que se apressa em chegar a tempo de impedir a sua realização.
Mocata realiza a liturgia que, para quem tem algum conhecimento de esoterismo e ocultismo é bastante autêntica, desde a indumentária aos apetrechos utilizados e invocações. E bastante atmosférica e sinistra, ao contrário de 99% dos rituais satânicos mostrados em filme, que geralmente são risíveis. Segue-se, broxantemente, a orgia satânica mais recatada da história do cinema (no livro, o negócio é um tremendo bacanal; aqui, é só um bando de manés vestidos, enchendo a cara e dançando, mas temos que dar um desconto: a censura britânica, à época, era tão cheia de frescuras que foi um milagre terem sequer permitido a produção, que a Hammer tentava tirar do papel desde 1964), culminando com a presença do Coisa-Ruim em pessoa...
De Richleau e Rex, entretanto, não perdem tempo e interrompem a farra na base de faróis, tentativas homicídio com veículo automotor, porradas e lançamento de crucifixos, finalmente resgatando Simon e Tanith, fugindo no carro de um dos satanistas e os levando para a segurança do lar do casal Eaton.
Mocata, contudo, é persistente como um adolescente lutando para se livrar do estigma da virgindade. De Richleau vai à cidade, fazer algumas pesquisas, deixando Simon e Tanith sob a guarda de Rex e Richard. O satanista aproveita a deixa e resolve fazer uma visita, a pretexto de devolver o carro do duque, que ficou no local do ritual após a fuga. E temos aqui uma das melhores cenas do filme, em que Charles Gray dá um show de interpretação e Mocata, de competência.
A princípio, de forma bastante razoável e persuasiva, o vilão tenta convencer Marie Eaton a permitir-lhe conversar com Simon e Tanith, aduzindo que as idéias do duque sobre suas práticas são baseadas em preconceitos supersticiosos; a conversa, entretanto, não convence a moça. Mocata, então, parte para uma demonstração ao vivo de seus poderes, e usa de hipnose para descobrir onde os dois se encontram, quase provocando a morte de Rex e Richard, deixando de lograr êxito por mero azar e saindo de cena com uma das melhores (tanto em teor quanto em entonação) ameaças do cinema de horror de todos os tempos: "I shall not be back, but something will. Tonight. Tonight something will come for Simon and the Girl." ("Eu não voltarei. Mas algo virá. Esta noite. Esta noite algo virá atrás de Simon e da garota.") O homem é foda! E a maneira casual como ele profere a ameaça (com a mesma despreocupação de quem diz "Então tá, amanhã a gente se encontra no boteco do Chico pra tomar umas") consegue ser, simultanemente, intimidadora e hilária. O sujeito é o Dean Martin do satanismo. Testemunhem:
A coisa toda culmina com um confronto de poderes esotéricos e de forças de vontade entre Mocata e De Richleau, envolvendo este, Simon, Richard e Marie, protegidos por um "círculo mágico" contra o "algo" que Mocata vai enviar. O "algo" abrange variados tipos de aparições, chicanas sobrenaturais, monstros gigantes e até o próprio anjo da morte. E isso ainda é antes do clímax do filme, que consiste numa corrida contra o tempo para impedir o sacrifício de uma criança. A conclusão da história, embora pareça extremamente "viajada" à primeira vista, faz bastante sentido dentro da lógica interna do filme e é extremamente satisfatória (ao contrário de reviravoltas de merdas recentes como "Identidade" e praticamente tudo que M. Night Shyamalam fez depois de "Unbreakable").
Não vou dizer que "não se fazem mais filmes assim", porque 1) ainda fazem, embora raramente; e 2) porque corro o risco de parecer um saudosista rabugento. Mas vou dizer que é extremamente difícil encontrar filmes assim hoje em dia. A trama é muito densa e repleta de reviravoltas, mas a direção e o roteiro, respectivamente, dos veteranos Terence Fischer e Richard Matheson conseguem condensar tudo em 95 minutos de filme, sem em momento algum perder a coerência. O ritmo é acelerado do início ao fim, mas não se deixa nada a desejar em caracterização ou exposição. Ao final, o espectador fica surpreso com com a curta duração - trata-se de um daqueles raríssimos casos em que você tem a impressão de que o filme é mais longo não porque ficou de saco cheio, mas porque parece improvável que tenha acontecido tanta coisa em tão pouco tempo. É uma experiência fascinante ver The Devil Rides Out logo após assistir a uma merda interminável e cheia de embromações como "Piratas do Caribe 3".
O filme é baseado num livro de Dennis Wheatley, que era amigo pessoal de Christopher Lee, extremamente prolífico e um best-seller à sua época, mas pouco lido hoje em dia. Só li três obras do autor (The Devil Rides Out, To the Devil... a Daughter e The Satanist) e entendo perfeitamente o motivo de sua atual falta de popularidade: apesar de ser um contador de histórias decente, baseadas em enciclopédico (embora, em meu entender, ideologicamente equivocado) conhecimento de ocultismo, Wheatley era também um racista virulento, um entusiasta do imperialismo britânico como instrumento de civilização de "culturas inferiores" e, suspeito eu, com base no que li, um defensor da eugenia em sua pior acepção. É sério: nos três livros citados, os vilões eram sempre estrangeiros (geralmente oriundos da Ásia ou da África), geralmente portadores de alguma deformidade ou deficiência física. O Mocata literário, por exemplo, ao contrário de sua sofisticada e inglesa versão cinematográfica, é um estrangeiro (de onde, não se sabe, mas fica claro que ele não é caucasiano) extremamente obeso e padece de uma língua presa que torna muito difícil levá-lo a sério; na primeira "reunião", praticamente todos os convidados, com exceção de Simon e Tanith, têm algum defeito físico berrante. Fica implícito, também, que foi o fato de Simon Aron ser judeu (e, pela lógica do autor, "mais fraco") que o teria deixado mais "vulnerável" à sedução do satanismo. Na verdade, na primeira página do livro há uma frase totalmente sem propósito a respeito de Richleau estar indo visitar seu amigo Simon Aron, "o judeu de Londres". Os mocinhos, por outro lado, eram invariavelmente britânicos, brancos e tradicionalistas. Eu detesto o "politicamente correto", mas esse é um daqueles casos extremos mesmo: o racismo do homem era um negócio tenebroso e acabava transformando histórias com tremendo potencial em palhaçadas. Seu anti-comunismo histérico também não ajudava. Compreendam: eu tenho uma profunda repulsa pelo comunismo e acho o apego historicamente retardatário da esquerda latino-americana às baboseiras marxistas um dos fatores que contribuem para o atraso da região. Mas Wheatley era daqueles que achavam que comunista come criancinha. The Satanist é o caso mais ridículo: toda a trama da história parte da premissa de que havia uma conspiração internacional envolvendo a União Soviética e o satanismo. Mas The Devil Rides Out ainda tem um parte chatíssima (felizmente ausente no filme) envolvendo a tentativa de Mocata localizar um tal talismã esotérico para levá-lo à URSS, o que ensejaria a hegemonia desta no cenário internacional. Matheson fez exatamente o que se espera de um escritor de seu calibre: expeliu tudo que havia de racista, fastidioso e ridículo no livro e fez um dos melhores filmes de terror sobre satanismo de todos os tempos.
Fisher não fica atrás, dirigindo com a segurança que o fez responsável pelos filmes que tornaram a Hammer um nome de peso no cinema de horror. A fotografia e cenografia, como de hábito nos filmes da produtora, são excelentes, e a recriação do período (o filme se passa na década de 30), é convincente e naturalista (ao contrário do visual dos góticos clássicos, que tinham um certa aparência artificial, típica de filmes totalmente filmados em estúdio, que lhes dava uma atmosfera de contos de fada macabros). A trilha sonora é, simplesmente, a melhor obra de James Bernard.
E o elenco, com exceção de Nike Arrighi (não sei se é o sotaque chato, não sei se é sua "beleza exótica", mas eu acho a personagem absolutamente xarope e não entendo o "amor à primeira vista" de Rex pela moça). Charles Gray, como já dito reiteradamente, compõe um vilão extremamente estiloso e carismático, inspirado no célebre (ou infame, dependendo do ponto de vista) Aleister Crowley. Francamente, o personagem se porta com tanta classe e expõe suas convicções de forma tão razoável, civilizada e inteligente que o espectador tende a se perguntar se os satanistas não teriam razão - até o momento em que ele mostra a verdadeira natureza de tais convicções, que incluem homicídio de quem contrariá-lo e sacrifício de crianças. Christopher Lee se destaca num papel atípico, conferindo a De Richleau, ao mesmo tempo, um ar de autoridade, integridade, decência e simpatia (o personagem poderia facilmente se tornar um xarope santarrão) que fazem o espectador a acreditar em suas suspeitas mirabolantes, de forma similar ao Van Helsing de Peter Cushing. Leon Greene, apesar de dublado para esconder o sotaque australiano, também convence, interpretando um indivíduo comum, basicamente decente, meio bronco, mas que jamais, felizmente, descamba para o comic relief. Sarah Lawson e Richard Eddington, apesar dos papéis reduzidos, não fazem corpo mole e tem especial relevância em momentos cruciais do filme. E nem a criança da história enche o saco. O fato de toda a trama ser tratada com extrema seriedade por todos, sem um vestígio de ironia, aliás, é um dos motivos que fazem o filme funcionar: assim como outro clássico do gênero, Night of the Demon, trata-se do tipo de história que poderia facilmente descambar para o ridículo caso não houvesse comprometimento total dos envolvidos com o tom sério do filme. E tal tom ajuda a engolir alguns efeitos especiais meios toscos (repare que eu nem os mencionei, pois os julguei desprezíveis em face da excelência do resto do filme).
Um servidor público que, após dois anos estressantes num cargo de chefia (que se arrombe quem vem com essa história que "serviço público é comer no mole") teve um ataque de síndrome de burnout e, impedido, sob recomendações médicas, de fazer qualquer coisa produtiva (tipo estudar ou trabalhar), saiu de licença médica e descobriu que expor suas opiniões não solicitadas em resenhas de filmes é um passatempo terapêutico. Cessada e causa da licença e de volta ao trabalho, continuou a escrever suas bobagens cinematográficas prolixas. Fortalecido pelo tratamento e pela interação com colegas blogueiros que compartilham de sua paixão duvidosa, ele agora é um servidor público fodão que, diante de explosões, não pára para olhar e continua seguindo em frente, a passos largos e em slow motion.