quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Zombie Lake - Parte 2: Zumbis Não Choram

Imagino que meus fãs devem estar intrigados com meu desaparecimento desde o último post, mas tranquilizo a todos: sim, desde que publiquei a primeira parte de minha rigorosa análise de Zombie Lake e suas repercussões sociais, fiquei inexplicavelmente enfermo. Mas Blackenstein, Dracula vs. Frankenstein e Manos: The Hands of Fate não conseguiram me derrotar e, se Rutgar acha que vai triunfar onde tantos outros fracassaram, assevero, categórico: SÓ PODE HAVER UM! E este, com certeza, não será um zumbi nazista com a cara pintada de verde.

Mas, enfim, continuando, Helena está, aparentemente, sendo criada por Velhinha Gorda e passa a maior parte do tempo ponderando os mistérios da existência sentada sobre uma pilha de feno, num celeiro. Mordaz sátira social ou falta de dinheiro para construir um set que passe por quarto de criança? Falta de dinheiro. Como já indaguei previamente, contudo, uma questão intriga o espectador: em que ano esta fábula se passa? RSB foram assassinados no final da Segunda Guerra, mas Helena não parece ter mais que dez, onze anos. O prefeito Howard Vernon não parece ter envelhecido muito, de modo que deduzo que a história deve se passar na década de 1950, apesar de tudo mais indicar que a história se passa na década de 1980, quando a "obra" foi filmada. E a próxima cena, claro, deixa tudo ainda mais confuso: um time de vôlei, a caminho não sei de onde, resolve estacionar sua Kombi às margens do "Maldito Lago dos Malditos" e dar um mergulho. Se você acionar as CLOSED CAPTIONS nesta cena, todos os diálogos são condensados numa única frase:

Jean Rollin: "MULÉ PELADA, PESSOAL!"
E, de fato, trata-se de mais uma cena com abundância de jovens despidas, brincando despreocupadamente nas plácidas águas do "Maldito Lago...", fazendo desafios intrigantes ("Vou atravessar metade do lago antes de você tirar a roupa!") e ouvindo réplicas ainda mais instigantes ("Isso não é justo! Você nem está usando calcinha!). Tudo ao som de uma trilha sonora que deixaria o Chacrinha orgulhoso. Sem exageros: embora Jean Rollin mostre a que veio, esbanjando full frontals, a trilha sonora corta qualquer apelo à libido do espectador e desencadeia acessos de riso não muito diferentes do emitido pelo Cartman ante o orador motivacional verticalmente desafiado. Duvida? Tente ouvir esse "da-la-da-da-ra-da-ra" e manter a cara lisa:

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Repare que, mesmo quando o momento mágica das beldades é interrompido pela aparição dos zumbis do lago, continuamos ouvindo, simultaneamente, o "tema de terror zumbi" e o "tema das atletas peladas brincando no lago". Mas tudo que é bom chega ao fim: os zumbis atacam e dão impiedosos caldos homicidas nas mancebas. Somente uma escapa para contar a história. Ela corre, histérica, para a bodega da vila e, com toda a eloquência que uma mulher pelada num boteco cheio de manés cachaceiros pode invocar, exclama: "O LAGO! O LAAAAAAAAAGO!" E desfalece.

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Percebendo que a coisa é séria, Howard Vernon finalmente resolve tomar uma atitude: pedir reforços policiais. E é aqui que Jean Rollin mostra que não se deixa aprisionar por paradigmas: nesse tipo de situação, personagens de filmes de terror costumam tentar ocultar de quaisquer forasteiros o segredo sombrio do vilarejo. Howard Vernon, pelo contrário, decide que transparência é sempre a melhor atitude e liga para o (presumo eu) chefe de polícia, conta logo que sua vila está prestes a ser atacada por fantasmas assassinos e que um time inteiro de vôlei foi "devorado pelo lago". Achando que o prefeito é um maluco, mas sem saco para trocar juízo com o debilóide, o prefeito encontra a solução: enviar dois Inspetores (brinque!) à vila, um dos quais é interpretado pelo próprio Jean Rollin.

Chegando à vila, os policiais Spitz e Moran são recepcionados por Bigodão que, presumo eu, é o mestre de cerimônias oficial do lugarejo. Mais uma vez, o inconveniente indivíduo instrui os intrépidos homens da lei a procurarem o prefeito em sua casa, coisa que os dois não perdem tempo em fazer. Vernon (a essa altura já conformado com gente chegando em sua casa fora do expediente) recebe os policiais com a mesma franqueza exibida em seu apelo ao chefe de polícia: ele declara, sem nenhuma ressalva, que acredita que os ataques recentes foram obras de "fantasmas" e fica injuriado com o ceticismo dos policiais. Tolos! Eles insistem em duvidar do Vernon quando ele aduz que, na Idade Média, o lago foi palco de "sacrifícios humanos", nos quais crianças eram lançadas no lago para acalmar espíritos malignos que, caso contrário, se ergueriam para saciar sua sede de sangue! E digo mais: eu também não acredito neste puto! Ele não falou nada disso à Katia News, de modo que fico inclinado a  acreditar que ele está inventando essa lorota agora, para tentar convencer os policiais. Os moradores da vila também tentam convencer os Home, mas são qualificados por estes de "bando de matutos". Não tema, prefeito e moradores da vila: se há algo que filmes ensinam, é que idiotas supersticiosos estão sempre certos. Em consequência, os Inspetores vão investigar o lago, encontram a Kombi das atletas apalpadas por zumbis e são atacados pelos mortos-vivos do Partido Nacional-Socialista Alemão. A tática destes, pelo que pude observar, é plantar mortíferas fungadas nos cangotes dos agentes da lei, que morrem instantaneamente.

Previsão metereológica: "It's raining men! Hallellujah!"
Enquanto os policiais investigam o mistério e são fatalmente aliciados pelos Zumbis Nazistas ("Zumbistas"? Hahahaha! Eu me mato de rir!), uma trama paralela, mas vital à narrativa, se desenvolve: Rutgar, sem mais nem menos, resolve fazer uma visita a sua pimpolha, Helena. E... puta que o pariu, eu gostaria muito de dizer que isso é piada, mas não posso, porque o Rollin trata a história com total seriedade e nem minha imaginação é tão retardada... Momentos Mágicos afloram, pois o Zumbi percebe que o vácuo em sua existência não é fome por carne humana ou ausência de batimento cardíaco, mas necessidade de participar da vida de sua filha, que recebe o genitor-com-a-cara-pintada-de-verde como se tivesse passado a vida toda esperando por este momento. É sério: o relacionamento entre Rutgar e sua filha é mostrado com tamanha pieguice que parece que a história tosca de zumbis se tornou, de uma hora para outra, um comovente "filme família". Apenas parece, pois os zumbis antissemitas, tão logo dão cabo dos policiais, vão (aparentemente tentando dançar capoeira), até a vila e barbarizam geral, atacando moradores e vomitando extrato de tomate sobre estes em várias cenas pessimamente editadas, antes de, saciados, retornarem a seu sepulcro aquático.

Agora, é pessoal! Inconformados, os moradores se reúnem na frente da casa do prefeito, clamando por justiça. O prefeito, provando que é o William Wallace francês, profere um eletrizante discurso, com o entusiasmo de quem está na fila do banco na hora do almoço ("É melhor encararmos o fato de que os zumbis declararam guerra! Aqueles dois policiais foram céticos; nosso destino, agora, está em nossas próprias mãos! Precisamos encontrar uma maneira de salvar nossa cidade dos loucos zumbis assassinos! Não somos impotentes! Precisamos agir! Vamos emboscá-los se eles saírem esta noite. É a única maneira de nos livrarmos deles de uma vez por todas! Todo mundo que tiver uma arma de fogo... É melhor se preparar! Vamos esperá-los no oeste! Tenho certeza de que eles virão pela entrada oeste!), levantando o moral de seus eleitores ("Vamos lá! É! Vamos lá!"; Bigodão: "É isso aí! Conte comigo!). O plano, entretanto, não dá muito certo (os zumbis batem a poeira dos moradores) e o prefeito fica desconsolado, até que a Katia News lhe dá uma sugestão: usar uma arma, em suas palavras, "não tão mística, mas tão eficiente quanto o Apocalipse: Napalm!" E Bigodão, que, "por coincidência" (creepy motherfucker!), estava passando por perto durante a conversa, lembra que um dos moradores tem um lança-chamas! Katia News estava errada: é, na verdade, algo muito místico. Afinal, desde quando lança-chamas é algo que se encontra todo dia, "por acaso", guardado na casa de um aldeão francês? Mas, enfim, falta uma apenas uma peça para completar o quebra-cabeça: convencer Helena a atrair seu genitor morto-vivo e colegas de lagoa para o abate. Como terminará este drama? Será que a Helena vai jogar o pai aos cachorros? Vai. Ironicamente, aqui, são os vivos quem sacaneiam com os parentes zumbis. Será que a Katia News vai sobreviver? Não, ela acaba sendo vitimada pelo extrato de tomate. Será que alguém finalmente vai mandar o Bigodão se mancar e aprender a ter noção? Não. Será que você deve ver este filme? Com certeza! Mesmo tendo sofrido consequências sérias em razão de meu contato com a obra (Pode ser coincidência, mas duvido: foi só eu postar sobre esta bomba que passei quase duas semanas acometido por uma dor de cabeça crônica e excruciante), não posso deixar de recomendá-lo. Como outras primorosas obras que já analisei (e.g., Blackenstein), Zombie Lake é fascinante: o espectador fica estarrecido ao perceber que alguém pagou (por menos que tenha sido) dinheiro para fazerem este filme e, ao ver o resultado final, não só não processou o responsável para receber o dinheiro de volta, mas decidiu que seria boa idéia lançá-lo. Como o Matheus Ferraz observa, ninguém na produção, desde o diretor até a moça que servia o café, parecia ter idéia do que estava fazendo. A coisa toda parece fruto da imaginação de quem tinha apenas um vago conceito do que é um filme. E a cereja, naturalmente, é a "comovente" relação entre Rutgar e sua filha: desde a primeira cena em que o zumbi resolve dar um alô para a menina até o "tocante" final, é evidente que, para Jean Rollin, o tema "A Girl and Her D(e)ad" era o alicerce emocional da historia. "Não me esqueça!", esclama a pequena, enquanto o papai vira churrasco. "Eu não esquecerei!" Eu suspeito que ele não vai esquecer, Helena. Se minha filha me atraísse para ser alvo de um lança-chamas, eu tenho certeza que ia passar o resto da vida assombrando a pirralha miserável e, quando ela morresse, estaria esperando no inferno para cobri-la de porrada por toda a eternidade. Toda a frescura entre a pimpolha e seu pai defunto, desde as expressões de carinho até a trilha sonora mela-cueca, é tratada como se fosse um drama sobre o Holocausto, tornando quase impossível não morrer de rir. Deixei de comentar vários momentos ridiculos porque, francamente, estou de saco cheio e a única maneira de realmente fazer justiça à ruindade do filme é através de um comentário de áudio, ao estilo Mystery Theater 3000. So posso recomendar a leitor intrépido que veja Zombie Lake. Como o Rutgar, você, certamente, não vai esquecer. Eu não esquecerei!

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