Como diria Nelson Mandela, "this fucking movie kicks unbelievable amounts of ass".
Lançado no Brasil com o estapafúrdio título "As Bodas de Satã" (não tem nenhuma casamento demoníaco na história), este é um dos melhores (senão o melhor) filmes já produzidos pela Hammer, com uma das mais memoráveis interpretações de Christopher Lee (empolgante em um de seus poucos papéis heróicos); um roteiro enxuto, onde a ação parece nunca parar, embora não haja qualquer deficiência na exposição; uma seita satânica baseada em conhecimento considerável de magia cerimonial (não estou dizendo que acredito nisso, só que tenho um interesse acadêmico sobre o assunto e sei que o filme não saiu tirando sua mitologia do nada) e Charles Gray como o vilão satanista mais cool da história do cinema.
A trama tem início com a chegada do duque de Richleau (Christopher Lee) à Inglaterra, onde é recebido por seu amigo de guerra, o americano Rex Van Ryn (Leon Greene). O terceiro membro do grupo de compadres, Simon Aron (Patrick Mower), não comparece à reunião anual do trio. Tal ausência, tomamos conhecimento, é consistente com o comportamento retraído que o rapaz tem adotado ultimamente. Seus dois amigos, a fim de verificar o que está ocorrendo, resolvem fazer uma visita-surpresa ao rapaz, que se isolou numa mansão nos arredores de Londres.
Lá chegando, de Richleau e Rex percebem que entraram, involuntariamente, de penetras numa festa; Simon alega que não os esnobou, mas que se trata de uma reunião de uma "sociedade astronômica" a que ele se filiou recentemente. De Richleau e Rex, ignorando que sua presença não é bem-vinda (o duque ignora porque, já desconfiado, quer sondar o ambiente; Rex, porque realmente é meio sem noção), resolvem dar uma circulada e trocar umas idéias com a turma, que se revela um aglomerado de ricaços das mais diferentes nacionalidades, entre os quais o parrudo e enigmático Mocata (Charles Gray), que, aparentemente incomodado com a presença dos dois caras-de-pau, chama Simon para uma conversa particular.
Aproveitando o ensejo, de Richleau continua a sondar a área, captando fragmentos de várias conversas entre as diversas panelinhas da festa; Rex, enquanto isso, tenta xavecar uma jovem, Tanith (Nike Arrighi). A investida do "galã" se revela infrutífera: a moça, ao perceber que Rex não é membro da sociedade e, portanto, está excedendo o "grupo de treze" que deveria estar ali na ocasião, dá um célere chega-pra-lá no sedutor frustrado e se afasta.
Finalmente, Simon (claramente sob pressão de Mocata) percebe que os amigos não vão se mancar e resolve, delicadamente, sugerir que eles se retirem, dado que se trata de uma reunião exclusiva, prometendo entrar em contato em breve para que os três possam "tomar umas" mais à vontade. O duque não se ofende, pedindo apenas para dar uma olhada no observatório astronômico da casa. Ansioso para se livrar dos dois pentelhos, Simon concorda.
O observatório, é, digamos assim, meio suspeito, sugerindo que sutileza não é uma das notas características da tal "sociedade astronômica".
Os símbolos que adornam o recinto, associados a uma galinha branca e um galo negro (bom, pelo ocultismo, era para ser negro, mas na verdade é mesclado, negro e pardo) que de Richleau encontra em um dos armários confirmam suas suspeitas: sociedade astronômica é o escambau - Simon está envolvido em uma seita de magia negra. Resolvendo deixar a conversa de bêbado para delegado de lado, o duque vai direto ao ponto e confronta o jovem sobre o fato, recebendo o típico "a vida é minha e eu faço dela o que eu quiser" como resposta. De Richleau tenta, racional e calmamente, persuadir o rapaz, apelando para sua experiência e idade e explicando que, durante toda a sua vida, estudou esoterismo, e que o amigo está sendo induzido, ingenuamente, ao culto ao Maligno. Não logrando êxito em convencer Simon a abandonar suas "novas experiências", o duque perde a paciência e parte para uma abordagem mais convencional:
Aplicando um certeiro soco no jovem, que desmaia, le Duc abduz o rapaz e, na saída da casa, ainda bate a poeira do mordomo. Só pra sacanear. Isso é massa: menos de quinze minutos de filme e já temos Christopher Lee perdendo a compostura e descendo a porrada duas vezes.
De Richleau conduz o rapaz a sua casa, onde o submete a uma sessão de hipnotismo para reverter a "lavagem cerebral" que teria sido feita pela seita e o deixa em um dos quartos de hóspedes, com a sugestão hipnótica de dormir por oito horas e acordar "de mente clara". E com um crucifixo em torno do pescoço. Rex, claro, não entende nada e acha que o duque está levando o negócio a sério demais. Lamentavelmente para os rapazes, Mocata, líder da seita, também não é homem de ficar punhetando, e usa seus poderes sobrenaturais para fazer o rapaz fugir na calada da noite.
Percebendo a sacanagem que lhes foi aprontada pelo satanista, de Richleau e Rex retornam à mansão de Simon, onde não encontram o mancebo. Mas, no observatório, são confrontados diretamente, pela primeira vez, por uma manifestação física dos superpoderes de Mocata, escapando por um triz.
A situação, evidentemente, deixa Rex mais propenso a acreditar nas teorias de seu amigo. De Richleau, explica, então, o significado dos símbolos, do casal de galináceos, do antigo tomo de ocultimo que eles encontram na desagradável segunda visita à casa de Simon e tudo o mais: o jovem está prestes a ser induzido numa seita satânica, provavelmente liderada por Mocata, e seu batismo de sangue, que deveria ter sido realizado naquela noite, tornaria praticamente definitiva a perda de sua alma para o Tinhoso. É então que o duque se dá conta que a noite seguinte, véspera do primeiro de maio, é o maior Sabbath do ano, quando certamente Mocata aproveitará a ocasião para celebrar o batismo satânico de Simon.
As possibilidades de a dupla impedir o fatídico batismo melhoram quando Rex se lembra que já havia encontrado Tanith, a jovem que tentou xavecar na "festa", em outra ocasião e os dois, munidos do nome completo da moça, conseguem localizar onde está hospedada. Usando, presume-se, cantadas provavelmente mais eficazes que suas abordagens anteriores, Rex basicamente sequestra Tanith (que também ainda não foi "batizada") e, conforme acordado com o duque, a leva para a casa de de Richard e (Paul Eddington) Marie Eaton (Sarah Lawson), sobrinha de De Richleau.
A abdução, porém, não dura muito tempo: assim que chegam à casa, é só Rex estacionar e virar as costas que a beldade, sob a influência de Mocata, furta o carro e foge em disparada. Rex, sem muita cerimônia, pega o carro do casal emprestado e segue a fujona. Após uma frenética perseguição (bons tempos aqueles, em que ninguém achava necessário dez cortes por segundo para tornar uma cena de perseguição automobilística "mais emocionante"), Tanith, auxiliada pelos poderes malevólos do vilão e contrariando toda a sabedoria popular sobre mulheres na direção, acaba levando o herói a bater o carro e ficar comendo poeira na beira da estrada.
Por sorte, o destrambelhado herói, após quase ser atropelado na estrada por outro membro da seita, também a caminho do Sabbath, consegue seguir o autor do atropelamento fracassado até os portões de uma mansão (porra, todo mundo nesse filme é podre de rico e tem uma mansão...), em cujo jardim se encontram estacionados uma cacetada de carros, e testemunha Mocata, Simon e mais uma porrada de gente usando capas pretas saírem da casa e seguirem em carreata com os veículos. Sorrateiro, Rex consegue se entocar na mala de um deles, identificar o local onde ocorrerá a carimônia satânica e entrar em contato com De Richleau, que se apressa em chegar a tempo de impedir a sua realização.
Mocata realiza a liturgia que, para quem tem algum conhecimento de esoterismo e ocultismo é bastante autêntica, desde a indumentária aos apetrechos utilizados e invocações. E bastante atmosférica e sinistra, ao contrário de 99% dos rituais satânicos mostrados em filme, que geralmente são risíveis. Segue-se, broxantemente, a orgia satânica mais recatada da história do cinema (no livro, o negócio é um tremendo bacanal; aqui, é só um bando de manés vestidos, enchendo a cara e dançando, mas temos que dar um desconto: a censura britânica, à época, era tão cheia de frescuras que foi um milagre terem sequer permitido a produção, que a Hammer tentava tirar do papel desde 1964), culminando com a presença do Coisa-Ruim em pessoa...


De Richleau e Rex, entretanto, não perdem tempo e interrompem a farra na base de faróis, tentativas homicídio com veículo automotor, porradas e lançamento de crucifixos, finalmente resgatando Simon e Tanith, fugindo no carro de um dos satanistas e os levando para a segurança do lar do casal Eaton.
Mocata, contudo, é persistente como um adolescente lutando para se livrar do estigma da virgindade. De Richleau vai à cidade, fazer algumas pesquisas, deixando Simon e Tanith sob a guarda de Rex e Richard. O satanista aproveita a deixa e resolve fazer uma visita, a pretexto de devolver o carro do duque, que ficou no local do ritual após a fuga. E temos aqui uma das melhores cenas do filme, em que Charles Gray dá um show de interpretação e Mocata, de competência.
A princípio, de forma bastante razoável e persuasiva, o vilão tenta convencer Marie Eaton a permitir-lhe conversar com Simon e Tanith, aduzindo que as idéias do duque sobre suas práticas são baseadas em preconceitos supersticiosos; a conversa, entretanto, não convence a moça. Mocata, então, parte para uma demonstração ao vivo de seus poderes, e usa de hipnose para descobrir onde os dois se encontram, quase provocando a morte de Rex e Richard, deixando de lograr êxito por mero azar e saindo de cena com uma das melhores (tanto em teor quanto em entonação) ameaças do cinema de horror de todos os tempos: "I shall not be back, but something will. Tonight. Tonight something will come for Simon and the Girl." ("Eu não voltarei. Mas algo virá. Esta noite. Esta noite algo virá atrás de Simon e da garota.") O homem é foda! E a maneira casual como ele profere a ameaça (com a mesma despreocupação de quem diz "Então tá, amanhã a gente se encontra no boteco do Chico pra tomar umas") consegue ser, simultanemente, intimidadora e hilária. O sujeito é o Dean Martin do satanismo. Testemunhem:
Lançado no Brasil com o estapafúrdio título "As Bodas de Satã" (não tem nenhuma casamento demoníaco na história), este é um dos melhores (senão o melhor) filmes já produzidos pela Hammer, com uma das mais memoráveis interpretações de Christopher Lee (empolgante em um de seus poucos papéis heróicos); um roteiro enxuto, onde a ação parece nunca parar, embora não haja qualquer deficiência na exposição; uma seita satânica baseada em conhecimento considerável de magia cerimonial (não estou dizendo que acredito nisso, só que tenho um interesse acadêmico sobre o assunto e sei que o filme não saiu tirando sua mitologia do nada) e Charles Gray como o vilão satanista mais cool da história do cinema.
A trama tem início com a chegada do duque de Richleau (Christopher Lee) à Inglaterra, onde é recebido por seu amigo de guerra, o americano Rex Van Ryn (Leon Greene). O terceiro membro do grupo de compadres, Simon Aron (Patrick Mower), não comparece à reunião anual do trio. Tal ausência, tomamos conhecimento, é consistente com o comportamento retraído que o rapaz tem adotado ultimamente. Seus dois amigos, a fim de verificar o que está ocorrendo, resolvem fazer uma visita-surpresa ao rapaz, que se isolou numa mansão nos arredores de Londres.
Lá chegando, de Richleau e Rex percebem que entraram, involuntariamente, de penetras numa festa; Simon alega que não os esnobou, mas que se trata de uma reunião de uma "sociedade astronômica" a que ele se filiou recentemente. De Richleau e Rex, ignorando que sua presença não é bem-vinda (o duque ignora porque, já desconfiado, quer sondar o ambiente; Rex, porque realmente é meio sem noção), resolvem dar uma circulada e trocar umas idéias com a turma, que se revela um aglomerado de ricaços das mais diferentes nacionalidades, entre os quais o parrudo e enigmático Mocata (Charles Gray), que, aparentemente incomodado com a presença dos dois caras-de-pau, chama Simon para uma conversa particular.
Aproveitando o ensejo, de Richleau continua a sondar a área, captando fragmentos de várias conversas entre as diversas panelinhas da festa; Rex, enquanto isso, tenta xavecar uma jovem, Tanith (Nike Arrighi). A investida do "galã" se revela infrutífera: a moça, ao perceber que Rex não é membro da sociedade e, portanto, está excedendo o "grupo de treze" que deveria estar ali na ocasião, dá um célere chega-pra-lá no sedutor frustrado e se afasta.
Finalmente, Simon (claramente sob pressão de Mocata) percebe que os amigos não vão se mancar e resolve, delicadamente, sugerir que eles se retirem, dado que se trata de uma reunião exclusiva, prometendo entrar em contato em breve para que os três possam "tomar umas" mais à vontade. O duque não se ofende, pedindo apenas para dar uma olhada no observatório astronômico da casa. Ansioso para se livrar dos dois pentelhos, Simon concorda.
O observatório, é, digamos assim, meio suspeito, sugerindo que sutileza não é uma das notas características da tal "sociedade astronômica".
De Richleau conduz o rapaz a sua casa, onde o submete a uma sessão de hipnotismo para reverter a "lavagem cerebral" que teria sido feita pela seita e o deixa em um dos quartos de hóspedes, com a sugestão hipnótica de dormir por oito horas e acordar "de mente clara". E com um crucifixo em torno do pescoço. Rex, claro, não entende nada e acha que o duque está levando o negócio a sério demais. Lamentavelmente para os rapazes, Mocata, líder da seita, também não é homem de ficar punhetando, e usa seus poderes sobrenaturais para fazer o rapaz fugir na calada da noite.
Percebendo a sacanagem que lhes foi aprontada pelo satanista, de Richleau e Rex retornam à mansão de Simon, onde não encontram o mancebo. Mas, no observatório, são confrontados diretamente, pela primeira vez, por uma manifestação física dos superpoderes de Mocata, escapando por um triz.
As possibilidades de a dupla impedir o fatídico batismo melhoram quando Rex se lembra que já havia encontrado Tanith, a jovem que tentou xavecar na "festa", em outra ocasião e os dois, munidos do nome completo da moça, conseguem localizar onde está hospedada. Usando, presume-se, cantadas provavelmente mais eficazes que suas abordagens anteriores, Rex basicamente sequestra Tanith (que também ainda não foi "batizada") e, conforme acordado com o duque, a leva para a casa de de Richard e (Paul Eddington) Marie Eaton (Sarah Lawson), sobrinha de De Richleau.
A abdução, porém, não dura muito tempo: assim que chegam à casa, é só Rex estacionar e virar as costas que a beldade, sob a influência de Mocata, furta o carro e foge em disparada. Rex, sem muita cerimônia, pega o carro do casal emprestado e segue a fujona. Após uma frenética perseguição (bons tempos aqueles, em que ninguém achava necessário dez cortes por segundo para tornar uma cena de perseguição automobilística "mais emocionante"), Tanith, auxiliada pelos poderes malevólos do vilão e contrariando toda a sabedoria popular sobre mulheres na direção, acaba levando o herói a bater o carro e ficar comendo poeira na beira da estrada.
Mocata realiza a liturgia que, para quem tem algum conhecimento de esoterismo e ocultismo é bastante autêntica, desde a indumentária aos apetrechos utilizados e invocações. E bastante atmosférica e sinistra, ao contrário de 99% dos rituais satânicos mostrados em filme, que geralmente são risíveis. Segue-se, broxantemente, a orgia satânica mais recatada da história do cinema (no livro, o negócio é um tremendo bacanal; aqui, é só um bando de manés vestidos, enchendo a cara e dançando, mas temos que dar um desconto: a censura britânica, à época, era tão cheia de frescuras que foi um milagre terem sequer permitido a produção, que a Hammer tentava tirar do papel desde 1964), culminando com a presença do Coisa-Ruim em pessoa...
Mocata, contudo, é persistente como um adolescente lutando para se livrar do estigma da virgindade. De Richleau vai à cidade, fazer algumas pesquisas, deixando Simon e Tanith sob a guarda de Rex e Richard. O satanista aproveita a deixa e resolve fazer uma visita, a pretexto de devolver o carro do duque, que ficou no local do ritual após a fuga. E temos aqui uma das melhores cenas do filme, em que Charles Gray dá um show de interpretação e Mocata, de competência.
A princípio, de forma bastante razoável e persuasiva, o vilão tenta convencer Marie Eaton a permitir-lhe conversar com Simon e Tanith, aduzindo que as idéias do duque sobre suas práticas são baseadas em preconceitos supersticiosos; a conversa, entretanto, não convence a moça. Mocata, então, parte para uma demonstração ao vivo de seus poderes, e usa de hipnose para descobrir onde os dois se encontram, quase provocando a morte de Rex e Richard, deixando de lograr êxito por mero azar e saindo de cena com uma das melhores (tanto em teor quanto em entonação) ameaças do cinema de horror de todos os tempos: "I shall not be back, but something will. Tonight. Tonight something will come for Simon and the Girl." ("Eu não voltarei. Mas algo virá. Esta noite. Esta noite algo virá atrás de Simon e da garota.") O homem é foda! E a maneira casual como ele profere a ameaça (com a mesma despreocupação de quem diz "Então tá, amanhã a gente se encontra no boteco do Chico pra tomar umas") consegue ser, simultanemente, intimidadora e hilária. O sujeito é o Dean Martin do satanismo. Testemunhem:
A coisa toda culmina com um confronto de poderes esotéricos e de forças de vontade entre Mocata e De Richleau, envolvendo este, Simon, Richard e Marie, protegidos por um "círculo mágico" contra o "algo" que Mocata vai enviar. O "algo" abrange variados tipos de aparições, chicanas sobrenaturais, monstros gigantes e até o próprio anjo da morte. E isso ainda é antes do clímax do filme, que consiste numa corrida contra o tempo para impedir o sacrifício de uma criança. A conclusão da história, embora pareça extremamente "viajada" à primeira vista, faz bastante sentido dentro da lógica interna do filme e é extremamente satisfatória (ao contrário de reviravoltas de merdas recentes como "Identidade" e praticamente tudo que M. Night Shyamalam fez depois de "Unbreakable").
Não vou dizer que "não se fazem mais filmes assim", porque 1) ainda fazem, embora raramente; e 2) porque corro o risco de parecer um saudosista rabugento. Mas vou dizer que é extremamente difícil encontrar filmes assim hoje em dia. A trama é muito densa e repleta de reviravoltas, mas a direção e o roteiro, respectivamente, dos veteranos Terence Fischer e Richard Matheson conseguem condensar tudo em 95 minutos de filme, sem em momento algum perder a coerência. O ritmo é acelerado do início ao fim, mas não se deixa nada a desejar em caracterização ou exposição. Ao final, o espectador fica surpreso com com a curta duração - trata-se de um daqueles raríssimos casos em que você tem a impressão de que o filme é mais longo não porque ficou de saco cheio, mas porque parece improvável que tenha acontecido tanta coisa em tão pouco tempo. É uma experiência fascinante ver The Devil Rides Out logo após assistir a uma merda interminável e cheia de embromações como "Piratas do Caribe 3".
O filme é baseado num livro de Dennis Wheatley, que era amigo pessoal de Christopher Lee, extremamente prolífico e um best-seller à sua época, mas pouco lido hoje em dia. Só li três obras do autor (The Devil Rides Out, To the Devil... a Daughter e The Satanist) e entendo perfeitamente o motivo de sua atual falta de popularidade: apesar de ser um contador de histórias decente, baseadas em enciclopédico (embora, em meu entender, ideologicamente equivocado) conhecimento de ocultismo, Wheatley era também um racista virulento, um entusiasta do imperialismo britânico como instrumento de civilização de "culturas inferiores" e, suspeito eu, com base no que li, um defensor da eugenia em sua pior acepção. É sério: nos três livros citados, os vilões eram sempre estrangeiros (geralmente oriundos da Ásia ou da África), geralmente portadores de alguma deformidade ou deficiência física. O Mocata literário, por exemplo, ao contrário de sua sofisticada e inglesa versão cinematográfica, é um estrangeiro (de onde, não se sabe, mas fica claro que ele não é caucasiano) extremamente obeso e padece de uma língua presa que torna muito difícil levá-lo a sério; na primeira "reunião", praticamente todos os convidados, com exceção de Simon e Tanith, têm algum defeito físico berrante. Fica implícito, também, que foi o fato de Simon Aron ser judeu (e, pela lógica do autor, "mais fraco") que o teria deixado mais "vulnerável" à sedução do satanismo. Na verdade, na primeira página do livro há uma frase totalmente sem propósito a respeito de Richleau estar indo visitar seu amigo Simon Aron, "o judeu de Londres". Os mocinhos, por outro lado, eram invariavelmente britânicos, brancos e tradicionalistas. Eu detesto o "politicamente correto", mas esse é um daqueles casos extremos mesmo: o racismo do homem era um negócio tenebroso e acabava transformando histórias com tremendo potencial em palhaçadas. Seu anti-comunismo histérico também não ajudava. Compreendam: eu tenho uma profunda repulsa pelo comunismo e acho o apego historicamente retardatário da esquerda latino-americana às baboseiras marxistas um dos fatores que contribuem para o atraso da região. Mas Wheatley era daqueles que achavam que comunista come criancinha. The Satanist é o caso mais ridículo: toda a trama da história parte da premissa de que havia uma conspiração internacional envolvendo a União Soviética e o satanismo. Mas The Devil Rides Out ainda tem um parte chatíssima (felizmente ausente no filme) envolvendo a tentativa de Mocata localizar um tal talismã esotérico para levá-lo à URSS, o que ensejaria a hegemonia desta no cenário internacional. Matheson fez exatamente o que se espera de um escritor de seu calibre: expeliu tudo que havia de racista, fastidioso e ridículo no livro e fez um dos melhores filmes de terror sobre satanismo de todos os tempos.
Fisher não fica atrás, dirigindo com a segurança que o fez responsável pelos filmes que tornaram a Hammer um nome de peso no cinema de horror. A fotografia e cenografia, como de hábito nos filmes da produtora, são excelentes, e a recriação do período (o filme se passa na década de 30), é convincente e naturalista (ao contrário do visual dos góticos clássicos, que tinham um certa aparência artificial, típica de filmes totalmente filmados em estúdio, que lhes dava uma atmosfera de contos de fada macabros). A trilha sonora é, simplesmente, a melhor obra de James Bernard.
E o elenco, com exceção de Nike Arrighi (não sei se é o sotaque chato, não sei se é sua "beleza exótica", mas eu acho a personagem absolutamente xarope e não entendo o "amor à primeira vista" de Rex pela moça). Charles Gray, como já dito reiteradamente, compõe um vilão extremamente estiloso e carismático, inspirado no célebre (ou infame, dependendo do ponto de vista) Aleister Crowley. Francamente, o personagem se porta com tanta classe e expõe suas convicções de forma tão razoável, civilizada e inteligente que o espectador tende a se perguntar se os satanistas não teriam razão - até o momento em que ele mostra a verdadeira natureza de tais convicções, que incluem homicídio de quem contrariá-lo e sacrifício de crianças. Christopher Lee se destaca num papel atípico, conferindo a De Richleau, ao mesmo tempo, um ar de autoridade, integridade, decência e simpatia (o personagem poderia facilmente se tornar um xarope santarrão) que fazem o espectador a acreditar em suas suspeitas mirabolantes, de forma similar ao Van Helsing de Peter Cushing. Leon Greene, apesar de dublado para esconder o sotaque australiano, também convence, interpretando um indivíduo comum, basicamente decente, meio bronco, mas que jamais, felizmente, descamba para o comic relief. Sarah Lawson e Richard Eddington, apesar dos papéis reduzidos, não fazem corpo mole e tem especial relevância em momentos cruciais do filme. E nem a criança da história enche o saco. O fato de toda a trama ser tratada com extrema seriedade por todos, sem um vestígio de ironia, aliás, é um dos motivos que fazem o filme funcionar: assim como outro clássico do gênero, Night of the Demon, trata-se do tipo de história que poderia facilmente descambar para o ridículo caso não houvesse comprometimento total dos envolvidos com o tom sério do filme. E tal tom ajuda a engolir alguns efeitos especiais meios toscos (repare que eu nem os mencionei, pois os julguei desprezíveis em face da excelência do resto do filme).
Resumindo: Este filme é fuderoso. Assistam.
O filme é baseado num livro de Dennis Wheatley, que era amigo pessoal de Christopher Lee, extremamente prolífico e um best-seller à sua época, mas pouco lido hoje em dia. Só li três obras do autor (The Devil Rides Out, To the Devil... a Daughter e The Satanist) e entendo perfeitamente o motivo de sua atual falta de popularidade: apesar de ser um contador de histórias decente, baseadas em enciclopédico (embora, em meu entender, ideologicamente equivocado) conhecimento de ocultismo, Wheatley era também um racista virulento, um entusiasta do imperialismo britânico como instrumento de civilização de "culturas inferiores" e, suspeito eu, com base no que li, um defensor da eugenia em sua pior acepção. É sério: nos três livros citados, os vilões eram sempre estrangeiros (geralmente oriundos da Ásia ou da África), geralmente portadores de alguma deformidade ou deficiência física. O Mocata literário, por exemplo, ao contrário de sua sofisticada e inglesa versão cinematográfica, é um estrangeiro (de onde, não se sabe, mas fica claro que ele não é caucasiano) extremamente obeso e padece de uma língua presa que torna muito difícil levá-lo a sério; na primeira "reunião", praticamente todos os convidados, com exceção de Simon e Tanith, têm algum defeito físico berrante. Fica implícito, também, que foi o fato de Simon Aron ser judeu (e, pela lógica do autor, "mais fraco") que o teria deixado mais "vulnerável" à sedução do satanismo. Na verdade, na primeira página do livro há uma frase totalmente sem propósito a respeito de Richleau estar indo visitar seu amigo Simon Aron, "o judeu de Londres". Os mocinhos, por outro lado, eram invariavelmente britânicos, brancos e tradicionalistas. Eu detesto o "politicamente correto", mas esse é um daqueles casos extremos mesmo: o racismo do homem era um negócio tenebroso e acabava transformando histórias com tremendo potencial em palhaçadas. Seu anti-comunismo histérico também não ajudava. Compreendam: eu tenho uma profunda repulsa pelo comunismo e acho o apego historicamente retardatário da esquerda latino-americana às baboseiras marxistas um dos fatores que contribuem para o atraso da região. Mas Wheatley era daqueles que achavam que comunista come criancinha. The Satanist é o caso mais ridículo: toda a trama da história parte da premissa de que havia uma conspiração internacional envolvendo a União Soviética e o satanismo. Mas The Devil Rides Out ainda tem um parte chatíssima (felizmente ausente no filme) envolvendo a tentativa de Mocata localizar um tal talismã esotérico para levá-lo à URSS, o que ensejaria a hegemonia desta no cenário internacional. Matheson fez exatamente o que se espera de um escritor de seu calibre: expeliu tudo que havia de racista, fastidioso e ridículo no livro e fez um dos melhores filmes de terror sobre satanismo de todos os tempos.
Fisher não fica atrás, dirigindo com a segurança que o fez responsável pelos filmes que tornaram a Hammer um nome de peso no cinema de horror. A fotografia e cenografia, como de hábito nos filmes da produtora, são excelentes, e a recriação do período (o filme se passa na década de 30), é convincente e naturalista (ao contrário do visual dos góticos clássicos, que tinham um certa aparência artificial, típica de filmes totalmente filmados em estúdio, que lhes dava uma atmosfera de contos de fada macabros). A trilha sonora é, simplesmente, a melhor obra de James Bernard.
E o elenco, com exceção de Nike Arrighi (não sei se é o sotaque chato, não sei se é sua "beleza exótica", mas eu acho a personagem absolutamente xarope e não entendo o "amor à primeira vista" de Rex pela moça). Charles Gray, como já dito reiteradamente, compõe um vilão extremamente estiloso e carismático, inspirado no célebre (ou infame, dependendo do ponto de vista) Aleister Crowley. Francamente, o personagem se porta com tanta classe e expõe suas convicções de forma tão razoável, civilizada e inteligente que o espectador tende a se perguntar se os satanistas não teriam razão - até o momento em que ele mostra a verdadeira natureza de tais convicções, que incluem homicídio de quem contrariá-lo e sacrifício de crianças. Christopher Lee se destaca num papel atípico, conferindo a De Richleau, ao mesmo tempo, um ar de autoridade, integridade, decência e simpatia (o personagem poderia facilmente se tornar um xarope santarrão) que fazem o espectador a acreditar em suas suspeitas mirabolantes, de forma similar ao Van Helsing de Peter Cushing. Leon Greene, apesar de dublado para esconder o sotaque australiano, também convence, interpretando um indivíduo comum, basicamente decente, meio bronco, mas que jamais, felizmente, descamba para o comic relief. Sarah Lawson e Richard Eddington, apesar dos papéis reduzidos, não fazem corpo mole e tem especial relevância em momentos cruciais do filme. E nem a criança da história enche o saco. O fato de toda a trama ser tratada com extrema seriedade por todos, sem um vestígio de ironia, aliás, é um dos motivos que fazem o filme funcionar: assim como outro clássico do gênero, Night of the Demon, trata-se do tipo de história que poderia facilmente descambar para o ridículo caso não houvesse comprometimento total dos envolvidos com o tom sério do filme. E tal tom ajuda a engolir alguns efeitos especiais meios toscos (repare que eu nem os mencionei, pois os julguei desprezíveis em face da excelência do resto do filme).
Resumindo: Este filme é fuderoso. Assistam.