quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Importância do Voto

Em ano eleitoral, é oportuno lembrar a sempre válida (e contagiante!) campanha do Diddy em prol do exercício da cidadania.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Kurt Breichen: Um Homem Versátil

Sei que, para alguns dos meus milhões de fãs (5 seguidores, 2 dois quais acho que talvez sigam o que eu publico aqui) posso parecer um adultescente que passa o tempo livre vendo filmes. A essas pessoas, esclareço que tal impressão não corresponde à realidade. Sou um pai de família, um homem maduro e tenho vários outros interesses sérios.

Por exemplo, além de ver filmes, eu jogo videogames. Quando ouvi dizer que iam lançar Resident Evil 6, minha reação inicial foi "Merda, aposto que vão recauchutar o 5 com um visual mais sofisticado". Mas então vi o vídeo abaixo e pensei: "Caralho, isso é totalmente badass. Parece uma mistura do RE5 com Gears of War e Uncharted! Tenho que comprar esse negócio! Tomara que outubro chegue logo!"



Fiquei entusiasmado, o que raramente ocorre. Só comentando.

domingo, 26 de agosto de 2012

"Mortos que Andam" ("Dead Men Walk", 1943), mas, felizmente não brilham

Apesar da referência no título do post, não vou sacanear com a "Saga Crepúsculo" porque, convenhamos... qualquer piada sobre a "obra" é obsoleta. Vou, ao invés disso, fazer algo construtivo: enaltecer um filme que tentou uma fazer uma "nova abordagem" sobre vampiros com muito mais inteligência que a Stephenie Meyer. Em 1943. Com, aparentemente, um orçamento de 10 dólares. Estou apenas chutando, é claro. O filme pode ter custado menos. Mas merece ser visto.

Dead Men Walk ("Mortos que Andam", surpreendente título brasileiro que consegue, simultaneamente, ser fiel ao original e fugir do ridículo) é uma produção da Producers' Releasing Corporation (mais ou menos o equivalente da década de 1940 aos picaretas da Asylum - se fosse hoje, o filme provavelmente se chamaria "Vrácula 2012" ou algo semelhante) que, ao invés de plagiar o "Drácula" da Universal, parte de uma premissa bastante original e, ao mesmo tempol, fiel ao folclore eslavo.

Apesar de se tratar, em minha opinião, de um bom filme, a pobreza da produção conduz, evidentemente, à inevitável presença do fator trash, que já se faz presente antes dos créditos de abertura: A história começa com um tomo, intitulado "History of Vampires", sendo jogado em uma lareira. Nas chamas, surge o supracitado fator trash: o rosto de um indivíduo anônimo e descabelado (será o Satanás?),  ridicularizando a nós, "criaturas da luz" por não acreditarmos em lendas macabras, tais como, por exemplo, bruxas, lobisomens, e, é claro, VAMPIROS! O monólogo é bem risível: o descabelado fala o tempo todo em um tom de desprezo e superioridade, usando um linguajar rebuscado e pretensioso (ao invés de criatura das trevas, ele poderia ser um "crítico profissional de cinema"). E o visual do "palestrante" sobreposto à lareira parece coisa concebida pelo Ed Wood.

Náo é um devorador de fogueiras que vai me convencer de que vampiros existem...
Após o discurso sobre "Mistérios do Desconhecido" e os créditos, começa a narrativa, no enterro de Elwyn Clayton (George Zucco, veterano coadjuvante de filmes de monstro da Universal), que, ao que tudo indica, já foi tarde: no meio do velório o padre/pastor é interrompido por Kate (Fern Emmett, outra coadjuvante profissional). A senhora fica horrorizada com o fato de Elwyin, um "servo do demônio", cujas mãos estão "manchadas com o sangue de inocentes", estar sendo sepultando como um bom cristão. A véia doida leva um chega-pra-lá do ministro, que a expulsa da igreja e pede desculpas ao irmão gêmeo do falecido, Dr. Lloyd Clayton (adivinha por quem ele é interpretado? Pelo irmão gêmeo do George Zucco? Não! Ele também é interpretado pelo Zucco, pois, por incrível que pareça, naquela época eles já tinha tecnologia [espelhos e edição] que viabilizavam a interpretacão de dois personagens pelo mesmo ator). Este, contudo, não parece guardar nenhum ressentimento pelas acusações da maluca.

Outro indício de que Elwyn não era o indivíduo mais querido das redondezas é mostrado após o enterro, quando, ante o sepulcro, Lloyd conversa com a filha do defunto, Gayle (Mary Carlisle) e o namorado desta, o também médico David Bentley, sobre seu nada saudoso irmão. Após comentar que espera que o defunto encontra na morte a paz que nunca encontrou em vida, o bom doutor passa a, com um tom enganosamente austero, descer o pau no irmão, afirmando que este era sinistro e detestado desde criança e que, após uma viagem à Índia, o mesmo ficou obcecado por demonismo e passou a desprezar "tudo que é caro aos homens decentes" (como certos escritores anglo-saxônicos que conheço, o Dr. Loyd parece nutrir uma certa suspeita [ou, como prefiro colocar, racismo escroto] contra gente de pele mais escura). Depois de, delicadamente, destruir a imagem do falecido ante a filha deste, Dr. Lloyd vai à casa deste, tocar fogo no acervo bibliotecário do irmão. Tudo indica que era ele quem estava jogando o livro na lareira no início do filme.

É então que a verdade sobre o óbito de Elwyn Clayton começa a surgir, tornando duvidoso o caráter do supostamente compassivo e sensível Dr. Lloyd: a destruição dos livros é interrompida por Zolarr (Dwight Frye, interpretando, novamente, o Renfield, só que com outro nome), discípulo do falecido, que acusa o médico de estar destruindo uma coleção de valor inestimável e de ser responsável pela morte de seu mestre, que, oficialmente, sofreu um acidente e caiu de um penhasco. Lloyd alega ter praticado o ato (já está admitindo!) em "legítima defesa", mas o capacho do feiticeiro não engole a conversa: ele insiste que o médico seguiu o irmão até o local da queda desta, com a intenção de cometer o homicídio. O argumento do bom doutor é mais suspeito ainda: ao invés de insistir com a história de "legítima defesa", ele simplesmente observa que o Zolarr "não vai convencer ninguém disso". É impressão minha ou o venerável Dr. Lloyd Clayton está, basicamente, dizendo para o corcunda não encher o saco, porque, embora tenha matado o irmão, ninguém pode provar. Sério, o cara nem se deu ao trabalho de inventar que o irmão foi morto por um "cara porto-riquenho"? Pouco a pouco, o doutor começa a parecer pior que o O.J. Simpson, que pelo menos não se defendeu alegando simplesmente que "vocês não podem provar nada contra mim!" O concurda, indignado, afirma que o véio vai pagar pelo que fez.

Pouco depois, o médico é informado pela sobrinha que esta aceitou o pedido de casamento do namorado e o júbilo é geral. Sinceramente, esse pessoal todo está me parecendo muito acanalhado. A moça parece tem toda a elegância e timing da Susana Von Richthofen: o presunto de seu genitor mal esfriou e ela já está feliz da vida porque vai desencalhar? Como já disse antes: se minha família fizer esse tipo de escrotice depois de minha morte, vou assombrar geral! Brincadeira, eu sei que isso não vai acontecer: ao contrário do que todo mundo que me conhece pensa, eu sou, como o Ra's Al Ghul, imortal.

Na mesma, noite, Zolarr, provando que era o único amigo do falecido, exuma este, abre o caixão e chamando seu mestre. Que levanta.

Senhoras es senhores, meninos e meninas, uma salva de palmas para Elwyn Clayton!
Isso mesmo: como recompensa pelos bons serviços prestados, Shaitan resolveu presentar seu servo com o dom da imortalidade, transformando-o num vampiro! E sim, esta é, segundo o folclore romeno, uma das formas de alguém se tornar um um morto-vivo: tendo sido um blasfemador contumaz em vida. O que, confesso, me deixa bastante satisfeito. Afinal, quando adolescente, eu era o tipo de ateu escroto que gostava de ridicularizar a fé dos outros só pra me aparecer. Agora, descubro que isso pode render frutos: caso o folclore romeno esteja correto, tornar-me-ei um nosferatu após a morte. E, cara, eu vou ser muito foda: nada de "vampiro atormentado que respeita a santidade da vida" - eu vou ser um monstrolão badass, casca-grossa, aterrorizante, tipo aquelas criaturas de 30 Dias de Noite. Mas continuarei postando aqui pelo resto da eternidade, de modo que todo mundo ficará feliz. Até minhas vítimas, que transformarei no meu exército de vampiros e usarei para finalmente me tornar o Palpatine dos trópicos. Mwuahahahahaha! Aposto que a pessoa que me acusou de fascista, agora, deve estar se borrando de medo. E com razão, pois está fodida.  Mas planejarei minha carreira de vampiro mais tarde. Continuemos com o filme.

Como o Drácula do Mel Brooks, Elwyn está morto e feliz, porém ainda bastante fraco. Faz-se necessária, pois, uma refeição. Numa cena que não faria feio ao lado de filmes expressionistas alemães, o morto-vivo caminha por entre os túmulos e, na cena seguinte, adentra o quarto de uma jovem anônima, que se torna sua primeira vítima.

Sem nenhum sarcasmo: as imagens acima são dignas de posar ao lado do Nosferatu de Murnau.
Em um toque de edição supreendentemente eficaz para uma produção da PRC, a cena termina com um fade to black e temos, em seguida, uma transição para o mesmo quarto, durante o dia, uma semana depois (conforme exposto pelo diálogo), onde o irmão gêmeo está declarando o óbito da moça, perplexo - no lapso de uma semana, o status da moça mudou de "completamente saudável" para "morta por perda de sangue".

Evidente, pois, que Elwyn já superou sua fraqueza inicial. O que ele não superou foi a raiva que sente do irmão, que, de fato, o matou. O vampiro, agora bem alimentado e cheio de moral, vai visitar seu mano, dar-lhe um esporro por tê-lo assassinado (sim, tudo o que Zolarr disse sobre a morte de seu mentor era verdade!) e mostrar que tal escrotice de nada valeu, pois ele continua em plena forma. Mas, como o que vale é a intenção, Elwyn explica tranquilamente ao irmão que vai destrui-lo lentamente, fazendo-o perder tudo que ama antes de uma morte sórdida, e que vai começar pela própria filha, Gayle, que é uma candidata ideal para ser discípula do vampiro. E o que o respeitável Dr. Lloyd alega em sua defesa? Que, além de ser uma ameaça à "pureza teológica" da filha, digamos, assim, seu irmão conduzia um estilo de vida ofensivo a tudo que é decente e sagrado. Então, vejamos se eu entendi bem: Elwyn Clayton viajou para o exterior, adotou uma religião exótica e estava planejando apresentar a filha a tal religião (nada mais natural que um pai entusiasmado com sua nova fé queira compartilhar suas convicções religiosas com a própria familia). E foi por isso que seu supostamente decente irmão o assassinou? Repare que, apesar de toda a conversa mole da Kate (que, não custa lembrar, é uma pessoa de sanidade, no mínimo, duvidosa), não fica demonstrado, em momento algum, que, antes de virar vampiro, Elwyn tenha feito mal a alguém. Sinto muito, mas vou tomar partido do satanista/vampiro. Cada vez mais, o Dr. Lloyd está me parecendo uma versão fuleira do Torquemada. É, doutor, tenho certeza que o Judiciário engoliria essa defesa: "matei mesmo, Excelência, mas a religião dele era esquisita". Apelando, ele saca uma arma (porra, que tipo de médico guarda um revólver no consultório? Ele é avô do John McCabe?) e mete bala no irmão. Naturalmente, sem nenhum efeito.



Elwyn Clayton, sendo foda
Cara, o "Muahahahaha" no final da cena é totalmente massa e, ao mesmo tempo, hilário. E o Zucco mostra que, de fato, estava sendo subutilizado pelos grandes estúdios: ele interpreta o "mocinho" e o "vilão" usando o "método Clark Kent" (sem tirar nem por: a única diferença entre Lloyd e Elwyn é que um usa óculos e tem o penteado diferente) e ainda assim logra duas caracterizações muito distintas de forma extremamente convincente. Em momento algum, o espectador vai ter dúvidas a respeito de qual Clayton está em cena. E a maneira escolhida pelo ator para interpretar o morto-vivo também é bastante criativa: ao invés de macaquear o Bela Lugosi, como se poderia esperar de um filme de vampiro de uma produtora de fundo-de-quintal, o vampiro criado por Zucco lembra uma versão mais sinistra do Lex Luthor do Gene Hackman: um supervilão brilhante, cheio de planos fodásticos e se divertindo à beça com toda a maldade. Com um plus: ao contrário do Luthor, Clayton tem um capanga razoavelmente competente. Zolarr faz algumas besteiras, mas todas compreensíveis e nada que o faça parecer um comic relief debilóide.

E o "plano infalível" do vilão também faz bastante sentido: ao contrário dos monstros da maioria de filme de vampiro, ele aproveita mesmo o fato de ninguém acreditar em tais criaturas em seu favor. Quando a saúde da Gayle começa a fraquejar e seu tio explica ao noivo da moça que suspeita se tratar de uma doença de cunho sobrenatural, a reação natural do jovem médico, ao contrário do Dr. Seward, é concluir que o Lloyd está perigosamente desequilibrado e procurar a polícia. Quando o moço finalmente é convencido de que a noiva, de fato, está sendo vítima de vampirismo, a merda já está feita: o boato vaza, toda a vila acha que o médico está louco e provocando a morte da sobrinha (pois ninguém acredita em vampiro, mas todo mundo achava Elwyn um pervertido psicopata, não sendo surpresa que seu irmão seja também maluco). Para tornar a coisa ainda mais feia, Elwyn começa a praticar maldades em público, com o objetivo, evidentemente, de que que a culpa recaia sobre seu irmão gêmeo. Tudo isso leva os "líderes da comunidade" a reunir um turba para linchar o Dr. Lloyd (mostrando, mais uma vez, que nada é mais perigosamente imbecil que a multidão), enquanto o médico tenta salvar a sobrinha e destruir o vampiro satanista de uma vez por todas. Tudo conduz a uma conclusão bastante coerente, que amarra todas as pontas e não apela para nenhum golpe baixo.

Atenção: não estou dizendo que Dead Men Walk é uma obra-prima. Longe disso. Tirando o George Zucco e o Dwight Frye, todas as interpretações são péssimas, executadas com aquele inconfundível semblante de "só estou aqui para pagar as contas". Os cenários deixam evidente que a produção contou com um orçamento muito limitado. A trilha sonora é genérica para filmes de horror da época. A abertura do filme é muito trash e os monólogos vilanescos de Elwyn Clayton, embora declamados com inegável verve por Zucco, frequente e hilariantemente descambam para o camp. Ainda assim, trata-se de um filme acima da média, dirigido com competência e, por vezes, com bastante estilo e com uma bela fotografia em preto-e-branco, que acentua a natureza gótica da trama. Até onde eu sei, seu roteiro é singular na abordagem do vampirismo. Nenhum dos personagens assume comporamentos implausíveis, o que já torna o filme superior a 90% do cinema de terror. A história é concisa, com uma duração de 63 minutos. E, o melhor de tudo, o filme está em domínio público e você pode vê-lo de graça, no YouTube. Só para mostrar como sou um cara legal, eis o vídeo abaixo:

 
É original em inglês, sem legendas. Vejam-no. Vale a pena. E, se alguém  que não falar inglês estiver realmente interessado em assistir, deixe uma mensagem. Tenho uma cópia do filme com (péssimas) legendas em português e qualidade de imagem inferior, mas é melhor que nada. Se alguém quiser ver, coloco no YouTube.

sábado, 25 de agosto de 2012

Bane: O Marxista Definitivo

Em primeiro lugar, SPOILERS! Eu sei que, no final de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, revela-se que toda conversa do Bane sobre "revolução" e "devolver Gotham ao povo" é picaretagem, que a bomba ia explodir de qualquer jeito e que a Marion Cotillard é a Talia Al Ghul (e creio que todos que já tiveram algum contato com os gibis tenham "decifrado" o último enigma há mais de um ano ano, ao ler a descrição da "Miranda Tate"). Aliás, acho altamente improvável que alguém que leia isto não tenha visto o último Batman do Nolan. Acho igualmente improvável que alguém tenha engolido a chicana do vilão. Vamos, contudo, partir da premissa de que o Bane estava sendo sincero.

Você desconfiaria da sinceridade deste homem? Eu não.
Afinal, só um cara muito foda usaria um troço ridículo desses em público sem perder sua autoridade. Em segundo lugar, qualquer pessoa que tenha lido os posts anteriores já deve ter percebido que eu não sou fã do comunismo. Em síntese, acho que marxistas são o equivalente político dos criacionistas (isto é, que acreditam em coisas idiotas pra caralho). Curiosamente, criacionistas não me irritam tanto quanto marxistas. Um criacionista que conheço, por exemplo (vamos chamá-lo de "meu pai", porque realmente se trata de meu amado genitor, que é crente fundamentalista) acha que o mundo surgiu, literalmente, da maneira como está descrita no livro de Gênese, que a raça humana começou com um casal de amantes pelados no Éden e que tudo que diz a NASA faz é perda de tempo e/ou picaretagem. Quanto à história de Adão e Eva, os criacionistas sempre tiram o corpo fora quando comento que, se a humanidade realmente começou com só um casal, mais cedo ou mais tarde se tornou inevitável o oba-oba entre irmáo/irmã, pai/filha e filho/mãe. Isso significaria que Deus condena Darwin, mas é totalmente a favor do incesto. Não vejo muita lógica, mas cada um sabe de si. Enfim, criacionistas não me irritam tanto quanto comunistas/socialistas/marxista-leninistas/anarcossindicalistas (até agora não sei a distinção). E, ao ver Dark Knight Rises pela segunda vez, finalmente me lembrei de algo que, por sua vez, explicou por que nutro tamanha hostilidade pelos "comunistas".

Criacionistas não ficam em cima do muro. Por mais que os outros considerem retardadas suas idéias, eles as defendem com veemência. Mesmo no que tange a minha piadinha sobre incesto, conheço uma criacionista que me disse, basicamente que, "o incesto aconteceu e não foi perversão porque era necessário para o homem se multiplicar". Ao passo que os marxistas... Bem, durante minha vida acadêmica e ao longo da minha vida profissional, me deparei com várias pessoas que se diziam "marxistas". Um de meus melhores professores se dizia marxista (mas também afirmava que qualquer país que alega ou alegou ser "comunista" na vida real estava mentindo, pois nunca se superou a fase da "ditadura do proletariado"). Uma colega de trabalho, assistente social e consumista assumida, já me contou que é uma exceção, porque assistentes sociais que não se declaram "marxistas" são discriminados pela própria categoria. E um colega (só  colega, não amigo, porque evito amizades com gente imbecil) de faculdade dizia, com todas as letras, que tentar "mudar o sistema" de forma democrática era inviável e que a única saída era a revolução através de luta armada. Tratava-se de um membro de carteirinha do Partido Comunista Revolucionário (se é que esta bomba ainda existe). E foi ao lembrar de tal indivíduo que entendi por que acho marxistas muito mais xaropes que criacionistas. Minha indagação ao indivíduo foi: "Peraí, se você acha que nosso sistema é podre e só pode ser mudado através da luta armada, o que você está fazendo numa faculdade particular de Direito, que é uma das coisas mais burguesas que se pode conceber?" Ele não tinha uma resposta. Relembrar tal momento me fez identificar por que considero marxistas mais intragáveis do que criacionistas. "Como?", indagaria o leitor hipotético. "Porque quem se diz criacionista geralmente é criacionista", eu responderia ao monitor, "ao passo que quem se declara 'comunista' ou 'marxista' é só um picareta hipócrita."

Explico: meu pai, por exemplo, não hesita em expor suas opiniões sobre a origem do universo, por mais ilógicas e despidas de fundamento estas possam ser consideradas. Isto é um criacionista. Ele acredita que Deus criou o mundo em sete dias, que a humanidade começou com duas pessoas e pronto. Já um marxista é uma pessoa que acredita que a sociedade é definida pela luta de classes, que as oligarquias dominantes são perversas e vivem do suor dos trabalhadores e que tal mazela só pode conduzir à revolução. E em que tais crenças interferem no comportamento de quem alega adotá-las? Em porra nenhuma. Eu, se resolvesse me tornar um marxista, não estaria trabalhando no serviço público e postando bobagens sobre filmes em um blog prolixo. Estaria formando uma organização paramilitar, com a finalidade de derrubar a "burguesia decadente" que "vive do suor do proletariado". Mas os supostos "marxistas" que encontro não fazem isso. Eles são, essencialmente, burgueses que levam uma vida confortável e passam o tempo livre pregando um monte de baboseiras retardadas contra "o sistema", o "capital internacional", o "agronegócio", "as oligarquias" (claro!) e (isso não é piada) o FMI (que está é quebrado, porra!). Baboseiras que nunca tentarão colocar em prática, porque seria muito inconveniente. Essas pessoas não são comunistas. Elas são hippies. E qual a distinção entre um hippie e um marxista de verdade?

Hippie

Marxista de Verdade

Qual a diferença entre Lennon e Lenin? Plagiando/parafraseando uma piada da Cracked.com: Lenin não ficou só na fase do "imagine", ele fez algo concreto (por pior que tenha sido). Por que o Che Guevara é uma figura icônica, apesar de não ter concretizado nada que preste (basicamente, ele ajudou a instaurar a ditadura cubana, tentou fazer a mesma merda na África, sem sucesso, e veio para a América do Sul, onde foi dedurado pelos camponeses e executado por militares de extrema direita, vivendo exatamente o oposto do previsto por Marx)? Porque ele, pelo menos, teve os cojones de pegar em armas. Ele não é simplesmente visto como "Che, o Comuna". É visto como "Che, o Revolucionário".

E, naturalmente, também como "Avatar do Maddox"
Tal constatação nos remete ao personagem-título do post: Bane, supervilão, badass e revolucionário comunista. Qual é a primeira coisa que ele faz no filme? Ele mata o Mindinho do Game of Thrones.


Eu sabia que conhecia este puto de algum lugar!

Pois é, aquele agente da CIA que se fode no desastre de avião no início do filme é interpretado por Aiden Gillem, que também interpreta o mais escroto, asqueroso (o Varys pelo menos não tem culpa de ser eunuco) e traiçoeiro aristocrata de Westeros. Coincidência ou sutil crítica social? Nenhum dos dois: brutal mensagem contra as oligarquias, pois a sutileza não é uma das virtudes do Bane. Finalmente, o filho-da-puta do Lorde Baelish pagou por ter sacaneado o Ned Stark. Tudo isso graças ao nosso herói. Tudo bem, ele é o vilão do filme, mas, no contexto deste post, ele é um herói injustiçado.

Quem financiou todo aquele mirabolante plano de derrubar o avião "WITH NO SURVIVORSH"? John Daggett, o estereótipo encarnado do "capitalista inescrupuloso" que leva o suposto mercenário e seus subordinados a Gotham. Lá chegando, o parrudo mascarado barbariza a mal velada versão local da Wall Street, a mando do Daggett, que acha que tal sacanagem irá puxar o tapete do Bruce e levá-lo ao comando da Wayne Enterprises. O plano dá certo e o Batman se depara com um novo supervilão: a ameaça de indigência, que ele derrota traçando a Talia Al Ghul (e mostrando como é possível unir o útil ao extremamente agradável, pois, afinal, trata-se da Marion Cotillard).

Pois é, olhe o que a falência deu ao Bruce Wayne. Filho da puta...
Mas a questão relevante aqui é se o capitalista selvagem Daggett sai ganhando. Não, ele também toma onde o sol bate. Tendo instaurado o caos financeiro em Gotham City e arruinado a elite dominante às custas da própria elite dominante (como eu disse, nada sutil), Bane quebra o pescoço do seu "patrão" (menos sutil ainda) e resolve implementar seu verdadeiro plano de ação. Antes disso, contudo, resta um obstáculo a enfrentar: o Homem-Morcego. E aqui, aproveitando o tópico "falta de sutileza", tenho que abrir parênteses para mais uma ladainha.

Quando o Cavaleiro das Trevas foi lançado, muita gente de inteligência questionável acusou o Christopher Nolan de estar fazendo apologia à "Guerra ao Terror" do governo Bush. O argumento é que o filme tinha um vilão que mandava vídeos para telejornais assumindo as atrocidades que cometia e praticava atos de terrorismo que em muito lembravam o trágico "11 de setembro". E como o herói derrotava o Coringa?  Grampeando o celular de todo mundo sem mandado judicial (mais ou menos como o Bush conseguiu violar a privacidade de todo mundo com o Patriot Act, de constitucionalidade altamente suspeita) e mentindo, deslavadamente, sobre as circunstâncias em que o Harvey Dent/Duas Caras morreu (mais ou menos como dizer que o Iraque tinha armas de destruição em massa). Por que a mentira? Porque ele achava que o povo não tinha tirocínio suficiente para lidar com a verdade e, caso esta fosse revelada, todas as vitórias do falecido promotor contra o crime organizado teriam sido desacreditadas e, provavelmente, reformadas pela via recursal (afinal, fica difícil defender a idoneidade de um promotor que surtou e saiu matando mafiosos, policiais e [quase] uma criança). Em outras palavras, alegavam tais pessoas, o Batman é completamente facista, assim como o Bush. Eu, particularmente, não acho que tal conduta seja facista. Acho que o Batman estava fazendo valer o princípio da supremacia do interesse público sobre o particular. Mas tudo bem: eu também já fui acusado de ser um facista, coisa que não sou, e só consegui convencer a acusadora de minha inocência com argumentos dos mais contundentes ("Quando eu der o golpe de Estado e me tornar a versão brasileira do Imperador Palpatine, adivinha quem vai ser a primeira pessoa que vou mandar pros campos de concentração?"). Por amor à simplicidade, portanto, minha resposta às pessoas que equiparavam o Batman do Nolan a George W. Bush era muito mais concisa: "Ridículo. O Batman é inteligente e seu plano dá certo."

E, no início de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, descobrimos que a mentira disseminada pelo herói e seu cúmplice, o Comissário Gordon, viabilizou a aprovação de uma legislação penal extremamente severa, graças à qual Gotham City está livre do crime organizado. É exatamente como o Patriot Act. Confrontado com tal cenário, cheguei a uma conclusão: o pessoal que acusou o Nolan de ser pró-Bush e fascista tinha razão! O plano do Batman, que preferiu manter as massas na ignorância e criar culto de personalidade a um ídolo caído (expressão, aliás, utilizada no filme) teve resultados absolutamente fantásticos. O Bane não é a única figura nesta produção que carece de sutileza...

Sieg Heil!
Cabe ao Bane, portanto, destruir o Homem-Morcego, que ao decidir, com o Comissário, o que é melhor para o povo sem consultar o eleitorado, simboliza a arrogância das elites. O método utilizado por Bane para cumprir essa missão é caracterizado pela já habitual falta de delicadeza.

Nunca imaginei que veria uma adaptação literal deste quadrinho
Claro, Batman não é o único representante da burguesia perversa que oprime o proletariado. Há também, a polícia, instituição que defende os interesses da minoria dominante; o pão e circo, que mantém as massas devidamente distraídas de sua situação revoltante e, claro, a minoria dominante em si.

Polícia, antes do Bane


Pão e Circo, antes do Bane
Elites, antes do Bane
Como lidar com tais elementos? Nada mais simples: basta ativar uma série de explosões.


Polícia, soterrada pelo Bane
Pão e Circo, caindo num buraco cavado por Bane
Elites, virando churrasco graças ao Bane
Além disso, ele destrói todas as pontes (e, presumo, túneis e estradas) que ligam a cidade ao resto do mundo, transformando Gotham, na marra, numa Cidade-Estado. E, claro, avisa ao público que, se alguém tentar fugir, uma bomba atômica será detonada por um herói anônimo e cidadão qualquer que está em poder do detonador. Pode-se acusar o homem de tudo, menos de inépcia. E é agora que a história fica interessante. Ao contrário de, por exemplo... eehh.... putz, ao contrário de TODO LÍDER POLÍTICO SUPOSTAMENTE COMUNISTA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, Bane, ao assumir o controle de
Gotham, não resolve se tornar "ditador provisório"e prolongar a "ditadura do proletariado" pelo resto de sua existência. Mas, antes de entrar em detalhe, deixemos que o personagem declare suas intenções.


Discurso do Bane: "Vocês foram presenteados com um falso ídolo para impedí-los de destroçar esta cidade corrupta. Deixe-me contar-lhes a verdade sobre Harvey Dent, nas palavras do comissário de polícia de Gotham, James Gordon: 'O Batman não assassinou Harvey Dent; ele salvou meu filho e depois assumiu a culpa dos terríveis crimes do Harvey para que eu pudesse, para minha vergonha, construir uma mentira em torno deste falso ídolo. Eu louvei o homem que tentou matar meu próprio filho, mas não posso mais viver com minha mentira. É hora de confiar ao povo de Gotham a verdade e é hora pedir minha exoneração.' E vocês aceitam a demissão deste homem? Aceitam a demissão de todos esses mentirosos? De todos os corruptos?" Diante da demonstração coletiva de júbilo, ele prossegue: "Nós tomaremos Gotham dos corruptos! Dos ricos! Dos repressores de gerações, que as oprimiram com mitos de oportunidade, e a devolveremos a vocês... o povo. Gotham é sua! Ninguém irá interferir. Façam como quiserem. Comecem invadindo Blackgate e libertando os oprimidos! Apresentem-se, aqueles que desejam servir. Pois um exército será formado. Os poderoso serão arrancados de seus ninhos decadentes e lancados no frio mundo que nós conhecemos e suportamos. Tribunais serão convocados. Despojos serão repartidos. Sangue será derramado. A polícia irá sobreviver, aprendendo a servir à verdadeira justiça. Esta grande cidade... ela perdurará. Gotham sobreviverá!"
Em primeiro lugar, Bane deixa claro que, ao que contrário do que a Heloísa Helena quer nos convencer, é possível se rebelar contra as elites sem perder o estilo: esse casaco é totalmente pimp. O cara é um Superfly branco e bombado. Em segundo lugar, trata-se do discurso mais eletrizante que já vi desde que assisti aos créditos de abertura do Malcolm X de Spike Lee. Na última ocasião, quando o X fala, basicamente, que o homem branco é o maior canalha do planeta e que "não há um lugar onde o homem branco tenha chegado trazendo paz e harmonia", minha reação foi: "Caralho! Ele tem razão! O homem branco é maligno mesmo!" Um amigo, que estava vendo o filme comigo observou: "Hã-rã. Você sabe que é branco, certo?" Ao que eu retruquei: "Ehhhh... Não, cara, eu sou... minha avó era negra. Eu sou... mulato!" "Não", insistiu ele, "você é totalmente branco, bro. Branco como folha de papel-ofício." Emputecido, retruquei: "Vai pra porra, seu racista! Não faça pouco de minha negritude!"
Auto-retrato de Kurt Breichen, deixando evidente que este não é um cara-pálida
Mas, falando sério, o discurso realmente é empolgante. Muita gente ridicularizou a "darthvaderização" da voz do Tom Hardy para interpretar o Bane, mas eu achei excelente e, em momento algum do filme, deixei de entender o que o personagem estava falando. Obviamente, não tenho um vídeo para demonstrar, mas a interpretação do Hardy é magistral: sua entonação, ao discursar contra os "opressores", "mentirosos" e "corruptos" de Gotham, o faz parecer o primo demagogo do Vader. Com a diferença que a conversa dele não é demagogia: quando ele diz que "ninguém vai interferir", está sendo 100%  franco. Após destruir as "instituições defensores dos interesses da minoria dominante de Gotham", revelar a verdade sobre a morte do Dent e, por tabela, desacreditar o Comissário Gordon, e libertar os presidiários que foram parar no xilindró graças às lorotas deste, ele realmente não se torna o ditador da cidade, apenas deixa "o povo" (o que inclui, é claro, os bandidos que foram presos em razão da Lei Harvey Dent, pois estão presos em razão de uma farsa) fazer o que quiser. E o povo, demonstrando que nada é mais perigosamente imbecil do que a multidão, faz uso de tal liberdade partindo para a barbárie, saqueando, roubando e colocando os "opressores" no banco dos réus. Mas quem eles colocam no papel de juiz?

Este cara.
Dr. Jonathan Crane, vulgo Espantalho. Pois é: a decisão das massas é colocar um cientista louco, que sai por aí com um saco na cabeça envenenando os outros aleatoriamente, para presidir o "tribunal popular". Porque, é óbvio, um indivíduo assim atende aos requisitos de "notório saber jurídico e reputação ilibada." E Gotham City, que, no início do filme, estava em paz e tranquilidade, regride ao "estado de natureza" de que Hobbes falava ao explicar a necessidade do Estado. Hmmm... Começo a suspeitar de que a situação estava bem melhor quando os "opressores privilegiados" estavam no comando da cidade, mas quem sou eu para discordar de um homem cuja barba evidencia uma total falta de higiene?

Cara, eu duvido que não haja carrapato aí dentro.
E é aí que o Cavaleiro das Trevas, com o perdão da redundância, ressurge. Ele foge da prisão, volta a Gotham City (como, ninguém explica) e parte para o contra-ataque, libertando a polícia, promovendo uma guerra civil e quase-derrotando o Bane. É então que a grande "surpresa" do filme é revelada: a verdadeira vilã é a Miranda Tate, que na verdade é a Talia, filha do Ra's Al Ghul. Esta, mancomunada com o Bane (que também foi treinado pela "Liga das Sombras" [até hoje não entendi a hesitação em utilizar o nome original da vilanesca sociedade secreta, "Liga dos Assassinos"]) veio concluir o trabalho que seu genitor tentou levar a cabo em Batman Begins, e o único propósito da "revolução anarcossindicalista" era  demonstrar que o povo de Gotham realmente não presta. E, claro, depois de evidenciar tal fato, a bomba atômica vai explodir de qualquer jeito.

Ocorre, contudo, que essa explicação não faz nenhum sentido, em qualquer circunstância. Afinal, como é revelado pela Talia, seu papai expulsou o Bane da Liga das Sombras, basicamente, porque o rapaz lhe trazia más lembranças (da prisão onde sua falecida esposa ficou presa, coisa de que, releva mencionar, o Bane não tem nenhuma culpa). Tal injustiça a levou a cortar relações com o pai (o que faz sentido, pois o que ele fez com o Bane é uma tremenda escrotice). E por que, no primeiro filme, o Ra's Al Ghul queria destruir Gotham? Para "restabelecer o equilíbrio", pois a corrupção na cidade era endêmica. Só que esse plano não faz mais sentido. Como eu já disse, fica claro, no início do filme, que a distopia que era Gotham City no Begins é coisa do passado e a cidade, agora, desfruta de um período de ordem, paz e prosperidade. O "plano infalível" dos vilões na verdade concretiza o extremo oposto do que o pai da Talia queria: desestabiliza tudo e deixa a cidade no caos absoluto, mais ou menos como ela estava no primeiro Batman do Nolan. Em resumo: a motivação dos vilões é colocar em prática um plano que não faz mais sentido, idealizado por um sujeito que ambos têm motivos de sobra para detestar. É impressão minha ou toda a premissa do filme é, basicamente, retardada? Não, não é impressão minha. É verdade. A moral da história é que deixar sua cidade ser comandada por um bilionário desequilibrado, que nunca trabalhou na vida e gosta de sair por aí vestido de morcego espancando meliantes; um comissário de polícia mentiroso, e um prefeito que conseguiu restabelecer paz e tranquilidade graças a uma lei de constitucionalidade questionável, elaborada em razão de uma mentira, é infinitamente melhor do que colocar o poder nas mãos das massas.

Mas por que, se não havia qualquer razão para acreditar que a revolução daria certo, eles deixaram a bomba atômica com uma contagem regressiva de cinco meses? É aí que entra a minha interpretação, segundo a qual o Bane é o verdadeiro "hero unsung" da trama.

Eles não queriam vingar o Ra's Al Ghul, nem implementar o plano deste. A verdadeira intenção do Bane era mostrar, de forma empírica, que comunismo não funciona na vida real. E ele tinha tanta certeza que agendou, desde o início de sua "revolução", a destruição completa da Gomorra em que Gotham se transformaria. Afinal, um sujeito com um mínimo de decência não poderia deixar aquela abominação continuar a existir. E tal plano, naturalmente, implicava em morrer junto com o resto da cidade, pois ele não exibe, ao longo do filme, a menor de intenção de sair de Gotham antes da concretização do holocausto nuclear. Pois é, o Bane morreu para provar que minha opiniões sobre política estão corretas. Francamente, só faltava terem crucificado o brucutu para seu martírio se tornar completo. A única pessoa na história da humanidade que tentou, sem picaretagens, implementar o comunismo idealizado por Marx só provou, cabalmente, que tal idéia é inteiramente imbecil. Não supreende que tal indivíduo tenha sido treinado por meu herói, Liam Neeson.

Ele merece um lugar ao lado de São Pedro, Ghandi e Martin Luther King.
A Mulher-Gato dá cabo do Bane... Peraí...

Até parece que eu ia perder a oportunidade de exibir esta foto...
A Mulher-Gato dá cabo do Bane, o Batman mata a Talia Al Ghul (embora o Nolan possa alegar que ele, tecnicamente, não MATOU a moça), dá fim na bomba, todo mundo pensa que ele morreu, depois é revelado que ele não morreu e o Robin aparece. Conforme demonstrado, de forma inequívoca, pelo nosso sagaz amigo Renzo Mora, o final é um plágio descarado de um episódio do Batman do Adam West. Sério. Clique no link, veja o vídeo, descreva-o de forma mais objetiva possível e perceba como ele corresponde, exatamente, à sequência de eventos que narrei no início deste parágrafo. Muito bonito pra cara do Mr. Nolan...
 
Agora, falando sério, a verdadeira moral deste post é que, para quem vai ao cinema procurando "mensagens relevantes", qualquer filme pode ser interpretado como metáfora para a convicção política debilóide do espectador em questão. Putz, primeiro aqueles idiotas falando sobre o Dark Knight ser "propaganda pró-Bush" e agora um bando de amanezados dizendo que o filme é uma "alegoria sobre a luta de classes". Pelo amor de Deus, o filme envolve, literalmente, a luta entre os ricos e pobres de Gotham! Se o tema é abordado diretamente, a suposta alegoria, obviamente, não é uma alegoria. Abordagem direta do tema é exatamente o contrário de alegoria. E ainda temos, claro, os irmãos Nolan enchendo a boca para dizer que a obra foi inspirada por A Tale of Two Cities, incluindo citação direta do texto no "enterro" do Bruce Wayne.

A verdade é que O Cavaleiro das Trevas Ressurge é só um filme de ação muito bom, mas com o roteiro cheio de buracos. Christopher e Jonathan Nolan deviam tentar sanar as inconsistências de seu texto antes de evocar comparações com a obra de Dickens. Cara, francamente... Por que raios o Bane, após derrotar o Batman, deixa seu arqui-inimigo numa prisão da qual este pode escapar, basicamente, dando uns pulos? Como diabos o Bruce Wayne, falido e sozinho, conseguiu viajar do Paquistão para uma Gotham City tão definitivamente isolada que nem as forças armadas tentaram invadir? E desde quando basta dar uma pancada nas costas e deixar o cara pendurado para curar uma coluna vertebral fraturada? Eu tenho certeza que os paraplégicos e tetraplégicos vão adorar descobrir que todos os seus problemas podem ser resolvidos de forma tão singela. Puta que o pariu, não tinha como elaborar uma motivação para os vilões que não fosse completamente sem sentido?

Não me entenda mal. A despeito do que tudo indica, eu adorei The Dark Knight Rises. Vi o filme mais de uma vez e vou comprá-lo quando sair em BD. Não sou cretino, contudo, a ponto de acreditar que "adorei o filme" significa que este é perfeito. Acho que o Christopher Nolan fez os três melhores filmes baseados em gibis de todos os tempos. Gosto muito de suas obras (inclusive de Insônia, que, em minha opinião, é muito superior ao original e foi injustamente esculachado), considero o sujeito um artista de verdade, um cineasta muito mais competente que a maioria dos colegas de sua geração e fico feliz ao perceber que ele tenta fazer filmes comercialmente viáveis, porém mais inteligentes que o blockbuster padrão, com sucesso. Agora, para ele chegar ao ao mesmo patamar que um Kubrick, um Friedkin, um Coppola-da-década-de-70, um Michael Mann, um Sergio Leone ou um Scorsese, o inglês ainda vai precisar comer muito feijão. O Cavaleiro das Trevas Ressurge não é superior nem a Inimigos Públicos. Não faz o menor sentido tentar colocar o filme na mesma categoria de obras como The Godfather, Operação França ou Era uma Vez no Oeste. Isso é completa falta de noção.

domingo, 19 de agosto de 2012

Mistérios do Desconhecido: Superman Lives



Lembra quando, no final da década de 1990, surgiu a notícia de que seria lançado "Superman Lives"? Lembra como você pensou "Massa!"? Lembra quando foi anunciado que o filme seria dirigido por Tim Burton e você pensou "Tudo bem, 'Batman' não foi tão fiel aos gibis, mas pelo menos levou o herói a sério"? Lembra quando foi anunciado que Nicolas Cage interpretaria o Homem de Aço e você, pensando no Michael Keaton como Batman, ponderou: "Não é a melhor idéia do mundo, mas pode ser que funcione"? Lembra da decepção quando o projeto acabou sendo cancelado?
 


Alguns anos mais tarde, começou a circular, na web, o ridículo roteiro de Kevin Smith que seria utilizado. Lembra como todo mundo pensou: "Minha nossa! Ainda bem que o filme não foi  feito. Esta porra é teratológica! De onde diabos alguém tirou a ideia de que um negócio tão imbecil daria um bom filme?"

Recentemente, li, no FILME PARA DOIDOS, o excelente artigo sobre o filme do Homem-Aranha que nunca foi. Fiquei inspirado e decidi postar algo sobre a igualmente insólita trajetória do natimorto Superman Lives. Não tão inspirado, contudo, a ponto de fazer o respeitável trabalho de pesquisa que o Felipe M. Guerra fez antes de publicar o artigo. A preguiça preponderou, de modo que vou apenas deixar, para quem sabe inglês ou espanhol, o hilário vídeo onde Kevin Smith relata sua participação no bizarro projeto.



Depois de entender por que o filme teria sido tão horrível, ficam duas constatações. A primeira: Jon Peters é o tipo de porra-louca que faria o Uwe Boll exclamar, incrédulo, "Esse cara não tem a menor noção!" A segunda é que eu (e você, provavelmente) nunca mais vou encarar aquela estapafúrdia aranha gigante de "As Loucas Aventuras de James West" da mesma maneira ("they're the fiercest killers of the insect kingdom!"). Não deixe de ver o vídeo. É um daqueles casos em que a realidade é mais retardada que a ficção.
 
Esqueci que cheguei a uma terceira constatação: eu sou um tough guy que cresceu "nas ruas".

sábado, 18 de agosto de 2012

Liam Neeson - Action Hero, Parte 2: "A Perseguição" ou, como prefiro chamar o filme, "Luta com Lobos"


Antes de falar sobre "A Perseguição" (The Grey - e fico estarrecido, mais uma vez, pela genial criatividade do título nacional. Não sei como não traduziram Saving Private Ryan como "A Guerra Impiedosa"), divagarei, preliminarmente, sobre seu diretor, Joe Carnahan, ou como eu o descreveria, antes de ver o filme, "aquela promessa que não se cumpriu". Gostei muito de Narc, seu segundo filme. Não vi Blood, Guts, Bullets and Octane, sua primeira obra como diretor (que agora, com certeza, vou assistir), mas Narc me deixou com a impressão de que se tratava de um cineasta promissor. A trama, que, a princípio, parecia matéria-prima de um filme manjado, acabou se revelando complexa e intrigante; os personagens são complicados pra caramba e o final é aberto de uma maneira completamente satisfatória (do tipo "a idéia é que o espectador realmente pense e tire suas próprias conclusões", ao contrário, por exemplo, do final retardado e irritanto dos Sopranos, que é do tipo  "Veja como eu sou um Artista Pretensioso"). E, ao contrário da maioria dos filmes que utilizam tal recurso, a tremedeira da câmera serve a um propósito.

Então veio seu filme seguinte, Smoking Aces e conclui: "Até que não é de se jogar aos cachorros, mas, francamente... agora é que ele entrou na onde de macaquear Pulp Fiction?" Depois, veio o remake/reboot/reimaginação/sei-lá-qual-é-a-novo-termo-que-inventaram-pra-essas-porras do Esquadrão Classe A e pensei: 1) mais um desses?; 2) a fixação do Hannibal Smith em ver "a plan come together" está ficando doentia; 3) prefiro o Mr. T; e 4) recuso-me a acreditar que o Carnahan vai entrar numa fase de tentar imitar a porra do Michael Bay. Não que o filme seja horrível (é razoável, se você não tiver nada de interessante para fazer), mas fiquei decepcionado. Por volta de 2008, 2009 surgiu um boato de que o fodástico livro White Jazz, de James Ellroy (se não leu, leia tudo que homem escreveu desde A Dália Negra - trata-se, em minha opinião, do melhor escritor de ficção policial de todos os tempos) seria adaptado por Joe Carnahan, com George Clooney no papel da alma sebosa principal (é uma daquelas histórias em que não há conflito entre o bem e o mal, mas entre os maus e os piores) e me empolguei, ainda com base em Narc - minha opinião sobre o visual deste filme foi "parece as coisas que eu imagino quando leio uma obra do Ellroy". O tempo passa, a adaptação é engavetada (o roteiro está há anos no development hell) e o diretor resolve dedicar todo seu potencial a... mais um seriado dos anos 80 requentado nos cinemas? Sério? Cacete... Só quem conseguiu fazer isso e escapar incólume foi o Michael Mann e um Joe Carnahan, tudo indica, está bem longe de ser um Michael Mann.

Não perco, todavia, as esperanças. Daí sai a nova obra do rapaz e a sinopse não é das mais animadoras (reação de minha esposa, verbis: "Vai pra porra! De jeito nenhum vou assistir esse filme idiota, manjado e cheio de clichês!"). Basicamente, "avião cai no Alaska e os sobreviventes têm que lutar para escapar da neve e lutam com lobos." Realmente, parece a descrição de pelo menos uns vinte filmes vagabundos, mas... peraí... os caras tem que lutar com lobos? Um bando de casca-grossa ("cascas-grossas?") que trabalham para uma empresa de petróleo? Que têm que sair, literalmente, no braço com lobos? E o lider dos brucutus é meu mais novo parâmetro de badassery, Liam Neeson? "Inconcebível!", exclamei, encarando o monitor de forma ameaçadora. "Isso deve ser uma metáfora. Só pode ser fruto do senso de humor mórbido de um Criador cruel, que gosta de brincar com minhas emoções. Não é possível que tenham feito, na Hollywood contemporânea, um filme sobre um bando de brutamontes na neve, trocando pancadas com uma matilha de lobos. Isso é quase tão foda quanto Franco Nero interpretando um cara que dá porradas na cara de tubarões ou um zumbi lutando com... eh... um tubarão (eu gosto muito de ver lutas envolvendo tubarões). Esse tempo já passou. Eu sou o último de minha estirpe."

Como diria o narrador de comerciais da Globo, nos anos 80, sobre os espectadores que pensavam que o Jason tinha morrido no último filme da série, eu estava redondamente enganado.


Surpreendentemente, o filme é muito bom mesmo se tirarmos os lobos da equação (o que, é claro, não faremos, pois... que canalha ordinário faria isso?). Joe Carnahan, constato aliviado, não vai tentar imitar o Michael Bay. The Grey é um filme que parte de uma fórmula batida, mas se torna empolgantes graças a a um roteiro enxuto, excelentes caracterizações, diálogos ocasionalmente hilários (é o filme "sério" que mais me fez rir desde Os Infiltrados) e a direção de um Joe Carnahan que, como mencionei no último post, prova que não era um engodo. Analisemos a obra.

Ottway (Neeson) é um homem atormentado. É o que se pode inferir da melancólica carta (bilhete de suicídio?) escrita pelo cidadão e recitada durante as cenas de abertura do filme: "Um trabalho no fim do mundo. Um matador para uma grande empresa petrolífera. Não sei por que fiz metade das coisas que fiz, mas sei que aqui é meu lugar. Cercado por minha espécie. Ex-condenados, fugitivos, andarilhos, escrotos. Homens inadequados para a humanidade. Não se passa um segundo sem que eu pense em você de alguma forma. Eu quero ver seu rosto. Sentir suas mãos nas minhas. Senti-la contra mim. Eu sei que isso nunca será. Você me deixou. E não posso recupera-la. Prossigo como imagino que os condenados o fazem: amaldiçoado. E sinto que é só uma questão de tempo. Não sei por que estou escrevendo isto. Não sei em que isto pode resultar. Eu sei que não posso tê-la de volta. Não sei por que isso aconteceu conosco. Sinto que é por minha causa. Má sorte. Veneno. E deixei de ter alguma utilidade real para este mundo. Mais uma vez em combate. Na última boa luta que jamais conhecerei. Viva e morra neste dia. Viva e morra neste dia."

Então, Liam Neeson está interpretando um sujeito infeliz, em plena crise existencial ensejada por uma intensa dor-de-cotovelo? Para ser sincero, isso é um negócio meio emo. Uma involução - de "eu vou procurá-los, eu vou encontrá-los e eu vou matá-los", passamos para "Ai de mim! Minha amada me deixou? Ó escuridão eterna da minha alma?" Francamente, Ottway, esse tormento todo por causa de um chega-pra-lá? O que é que o rapazinho vai fazer? Se vestir de preto e postar poemas sobre a morte? Mudar o perfil no Facebook para "é complicado"? Redescobrir as crônicas vampíricas da Anne Rice?


Merda. Esqueci que agora ideia não tem acento. Mas isso é irrelevante. Voltando ao tópico, a resposta é "não, nenhuma das opções." Felizmente, não estamos falando do Rauã, o metrossexual que gosta de postar videos de si mesmo lendo poemas melancólicos no YouTube. Estamos falando do homem que treinou o Batman, quase destruiu Gotham City e, depois, assassinou toda a máfia albanesa em menos de uma semana. E como tal homem lida com tamanha crise existencial?

Ele vai para o Alaska, trabalhar para a indústria de petróleo (o que, em si, já é uma ocupação badass). Mas que tipo de trabalho, exatamente? Matar animais que possam ameaçar os trabalhadores - como lobos e, presume-se, ursos, orcas, lulas gigantes, krakens e o Abominável Homens das Neves. Lembra os colegas de Ottway, que ele descreve como gente desajustada e perigosa demais para viver em sociedade? Pois é, quando aquele tipo de gente precisa de proteção, o patrão recorre ao Ottway. Esse é o conceito de terapia dele: ir para o meio do nada, no Alaska, proteger brutamontes de monstros da fauna local. É assim, amigos, que um homem de verdade lida com as tristezas da vida: transformando-se, essencialmente, num ronin. Se este fosse um filme produzido há cinquenta anos e o contexto fosse o Japão feudal, o protagonista seria interpretado pelo Toshiro Mifune. De repente, o que, a princípio, parecia um personagem meloso e lamuriento se torna um badass amargurado, digno de um Bogart ou Mitchum.

O filme começa, como já dito, com um monólogo e cenas mostrando Ottway, vagando sozinho, chegando a um bar e tomando uma dose de uísque, indiferente a um quebra-pau que está rolando no recinto; relembrando sua amada perdida, sua infância (que guarda vínculo com parte do monólogo, o qual é explicado mais tarde); matando, com um rifle de mira telescópica, um lobo que se aproxima do sítio; e, finalmente, cogitando (conforme imagem acima) cometer suicídio. Trata-se de um abertura claramente dirigida pelo mesmo cineasta responsável por Narc, não pelo cara de Esquadrão Classe A: a sobreposição do monólogo, declamado com gusto pelo irlandês, com cenas que ilustram como o meio em que o protagonista vive é tosco e desolador, suscitam uma atmosfera genuinamente melancólica. O sofrimento silencioso do personagem é quase palpável, com o perdão do clichê.

Encerrado o trabalho, chega a hora de os personagens voltarem "para casa". Eu imagino que tipo de lar esses caras têm - Ottway, com certeza, está Sozinho no Mundo e, certamente, Não Tem Lar. Mas, prosseguindo, Ottway embarca num avião, junto com um monte de brucutus que inclui o Dermot Mulroney (que fim levou esse cara?), o outro falso policial que o Matt Damon mata no final de Os Infiltrados (eu sabia que lembrava dele de algum lugar!), aquele negão (ou afrodescendentão, para usar a terminologia politicamente correta) que tenta xavecar a Daenerys na segunda temporada de Game of Thrones e Flannery, um pentelho que não pára de puxar conversa chata (Joe Anderson). E já começo a criar empatia com o Ottway: confrontado com a xaropice verborrágica (eu sei como é irônico eu criticar essa característica) do Flannery, ele simplesmente esclarece que "olha, eu não estou a fim de conversa, ok? Vou só reclinar a cabeça aqui e fechar os olhos". Eu já fiz coisa parecida uma vez e a reação do interlocutor foi a mesma do chato do filme em questão: me encarar por um instante como se eu fosse o indivíduo mais cruel do mundo, depois resmungar um "ok, sem problema" e se sentar em outro canto. Porra, é crime querer encurtar uma viagem tediosa com um cochilo, ao invés de ouvir o papo chato de um desconhecido? Tenho a impressão que Carnahan concorda comigo.

Enfim... Ottway acaba cochilando, sonhando com sua amada, fortes turbulências começam a provocar um forte desconforto nos passageiros, o idiota do Flannery começa a falar sobre o que fazer caso o avião caia, todo mundo se emputece e ameaça, com razão, cobrir o zeba de porrada e...


Sem exageros, trata-se da cena de desastre aéreo mais imersiva da história do cinema. Eu, particularmente, nunca tive medo de viajar de avião. Nem quando era criança. Na única ocasião em que suspeitei que o avião ia cair, minha reação não foi medo: foi procurar a saída de emergência mais próxima e tecer uma análise pragmática, porém pouco louvável: "Aquele cara sentado perto da saída de emergência é menor do que eu. Se este troço cair, dou uma porrada nele, abro a porta e escapo antes de todo mundo. Os tubarões podem até me pegar, mas nem a pau vou morrer afogado dentro deste trambolho (estávamos sobrevoando o Atlântico)." Isto posto, a cena da queda da queda do avião, como demonstra o vídeo acima, me deixou angustiado durante toda sua duração. E fica aqui uma lição para a turma da câmera trêmula: é assim, seus debilóides, que se usa shakycam combinada com cacofonia.

Os poucos sobreviventes se deparam com perspectivas nada animadoras: Ottway, que imediatamente assume a liderança, observa, sem ilusões, que seus empregadores provavelmente não enviarão uma equipe de resgate das mais robustas ("Vocês têm idéia de quanto esse acidente vai economizar na folha de pagamento?" exclama um dos sobreviventes) e, ainda que envie, as chances de resgate são mínimas. Em outras palavras: os "sortudos" que escaparam de morrer na queda do avião terão que se virar para não morrer na neve. Na primeira noite, Ottway descobre que tal missão vai ser ainda mais ingrata do que se imaginava: aproximando-se do que pensava ser um sobrevivente se movendo, ele acaba descobrindo que se trata, na verdade, de um cadáver sendo devorado por lobos gigantescos.

O protagonista é atacado, mas escapa, com a intervenção dos sobreviventes, que ficam chocados com o ocorrido. Afinal, como todo mundo sabe, lobos não tendem a atacar seres humanos. Exceto, é claro, como observa Ottway, quando 1) em número superior; 2) famintos; ou 3) quando humanos invadem seu território, tornando-se uma ameaça. Ottway acalma os amigos, aduzindo que a matilha provavelmente está de passagem e que é altamente improvável que a situação se enquadre nos três itens retromencionados, mas, como o espectador familiarizado com a Lei de Murphy pode deduzir, o pior se concretiza e a neve vai ser a menor das preocupações de Liam Neeson e sua trupe. Na verdade, o comportamento dos lobos neste filme é completamente fantasiosa. Mesmo em matilha, se a opção for entre atacar humanos ou fugir, a opção dos lobos geralmente é fugir. Mas, se eu quisesse aprender esse tipo de coisa, assistiria ao Discovery Channel. Se filmes sempre tentassem retratar o comportamento de animais de forma fidedigna, o Tubarão de Spielberg seria simplesmente a história de 15 minutos sobre um hippie que vai nadar, volta pra casa e fuma um baseado. E aviso para quem não viu o filme: a partir daqui SPOILERS.  Só posso reiterar que The Grey transcede a fórmula batida, segue um tema mais profundo que só se revela no final, comprova que Liam Neeson é o cara mais badass do mundo ocidental e que ainda há gente que sente falta de action heroes como se faziam até a década de 70.

Ainda não consegui convencer minha esposa a ver esse filme e suspeito que, mesmo que assistisse, ela não gostaria muito da obra. Digo isso porque, apesar de me considerar um sujeito bastante progressista, não engulo a baboseira feminazi de que a única distinção entre homens e mulheres é biológica. Em resumo: sabe aquela sequência em Sintonia de Amor (Vão pra porra, eu assisti ao melô estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan porque fui... coagido por um criminoso sádico, que me sequestrou e obrigou, a mão armada, a assistir tal bobagem. Ele fez isso com várias pessoas na minha cidade, mas, felizmente, nós conseguimos capturá-lo e assassina-lo com requintes de crueldade [antes de morrer, ele foi forçado a ver Manos - The Hands of Fate]) na qual se exibe, de um lado, as mulheres, aos prantos, vendo Tarde Demais Para Esquecer e, de outro, os marmanjos, aos prantos, vendo Os Doze Condenados? Acredito que tal cena é um profundo comentário sobre as peculiaridades psicológicas de gêneros. Em outras palavras, acho que há certas coisas (obras de arte, como o filme em análise, por exemplo) dirigidas a uma sensibilidade particularmente masculina e outras (como, digamos, toda a obra de Jane Austen) que atingem idiossincracias femininas. Sendo ainda mais conciso: há certas obras que são "filmes pra macho" e outras que são "filmes de mulé". Não estou dizendo, claro, que todos os filmes se enquadram exclusivamente em uma das categorias - a maioria (porque, claro, todo mundo gosta de dinheiro) tenta apresentar elementos que atraiam ambos os sexos (exemplo típico: 300, com porrada e violência em abundância para o público masculino e um monte de caras sarados e seminus para o público feminino).  

The Grey, contudo, é um "filme pra macho". Aliás, relendo o que acabei de escrever, percebo que este filme tem muito em comum com Os Doze Condenados: as personagens femininas são pouquíssimas (basicamente, só a amada perdida do Ottway e uma comissária de bordo que aparece por alguns segundos e morre no desastre) e o filme gira em torno, basicamente, de caras másculos fazendo coisas viris, seguindo um código de honra peculiar e trocando palavras indelicadas. Estas conduzem a alguns dos já mencionados diálogos hilariantes, a maioria delas envolvendo Diaz (Frank Grillo), o sobrevivente pentelho e resmungão do filme (mais ou menos o equivalente àquele personagem chato do Bill Paxton em Aliens, só que engraçado e sem a covardia) que disputa o papel de macho alfa do grupo com o Ottway (a analogia entre  dinâmica dos personagens humanos e o comportamento da matilha não é muito sutil) e, claro, perde.


Mas não sem antes brindar o espectador com pérolas do pissing contest. A minha preferida, contudo, não sai da boca do Diaz. Ela se verifica quando Ottway o flagra tentando furtar um maço de dinheiro encontrado na carteira de um dos passageiros falecidos:


Por que é a minha preferida? Bem, no último post, coloquei a imagem de um mal-encarado Neeson com a legenda dizendo algo como, "Essa é a expressão que você vai ver antes de levar uma série de porradas". Pois bem, na cena acima, Ottway, indignado com a falta de respeito, diz, especificamente, que, se o Diaz não largar o dinheiro, vai começar a cobri-lo de porradas em cinco segundos, com uma entonação que que não deixa dúvidas quanto à legitimidade da ameaça. Ele profere o ultimato de forma tão convincente que o escroto cala a boca e obedece. Simplesmente badass

A princípio, contudo, as atitudes de Ottway podem parecer incoerentes. Aqui temos um indivíduo que, no início da narrativa, estava contemplando seriamente a possibilidade de cometer suicídio. De repente, ele sobrevive a um desastre aéreo e acaba liderando os sobreviventes, tentando fazer prevalecer um mínimo de decência em meio ao desespero (ele também convence os demais sobreviventes a catar, ao menos, as carteiras dos falecidos, para entregarem às famílias), elaborar uma  "MacGyver bullshit" envolvendo lanças de madeira e cartuchos de espingardas para  explodir na cara ou na outra extremidade dos lobos (ainda não entendi como tal artifício funcionaria, mas é melhor que nada, creio eu) e exibindo, em geral, uma conduta extremamente pró-ativa. Há, inclusive, uma cena (bastante comovente, sem nenhum sarcasmo), logo após a queda do avião, em que Ottway encontra um dos colegas à beira da morte e tenta aliviar seu sofrimento fazendo com que este pense na pessoa que mais ama. Como conciliar isso coma falta de amor à vida do cidadão?

Uma das explicações é exposta pelo protagonista aos colegas, numa conversa torno da fogueira: o fato de ser completamente materialista, achar que a única existência é a física e, portanto, temer a morte, por considerá-la definitiva. Mas esta não é toda a explicação: trata-se de aparente contradição que, na verdade, está ligada ao tema central do filme. Que tema seria esse? Caras fodões lutando com lobos anabolizados? Sim, mas também há outro tema menos superficial. Este é trazido à tona, para a surpresa do espectador, por Diaz, que, após um baculejo violento do Ottway e um ataque violento de lobo, acaba admitindo que sua xaropice é mecanismo de defesa para lidar com o medo e adotando um comportamento bem mais construtivo. E mais uma vez SPOILERS. Se continuar lendo sem ter visto o filme, não venha me encher o saco dizendo que eu "estraguei o final". Mas, para falar a verdade, nunca entendi muito bem esse negócio de "se me contarem o final, o filme perde a graça". ... E o Vento Levou, O Poderoso Chefão, Senhor dos Anéis - todos eles foram baseados em livros e ninguém deixou de assistir porque "já sabia o final". Mas, como sempre, eu divago. Voltemos ao tema central do filme.
Após uma série de desventuras, os únicos sobreviventes que restam são Ottway, Diaz e Hendrick (Dallas Roberts). Eles estão seguindo o trajeto de um rio (presumindo que este pode levá-los a algum lugar minimamente civilizado), quando Diaz, cujos tornozelos estão completamente escalavrados graças uma queda, decide que vai parar e desistir, pois não aguenta andar mais nem dez metros. Hendrick fica incrédulo e, quando percebe que o amigo não está fazendo manha, emputecido.  "É isso o que você vai fazer?" indaga (estou parafraseando), "Ficar sentado aí e morrer? Depois de tudo que sobrevivemos?" E Diaz explica que ele vai pendurar a chuteira exatamente em razão de tudo a que eles sobreviveram: depois de todos os feitos notáveis que logrou, o que mais a vida pode lhe reservar? Ficar perfurando poço de petróleo todo dia e se embriagando toda noite? Quando é que ele vai se superar depois disso? Em resumo: Diaz acredita que atingiu ápice de sua vida e que, agora, pode morrer em paz, pois nada mais vai chegar perto de suas aventuras na neve. E os outros dois sobreviventes acabam aceitando tal atitude, pois percebem que Diaz está completamente certo.

Ottway e Hendrick prosseguem e, depois mais um confronto com os lobos, o último termina morrendo afogado. É aquele tipo de morte idiota, mas, lamentavelmente, bastante realista: fugindo dos lupinos antropófagos, ele acaba caindo no rio, sendo levado pela correnteza e seu pé fica preso em uma rocha, provocando seu afogamento. Ottway, agora sozinho e cercado pela matilha, se desespera e pragueja contra Deus, pedindo, após uma série de xingamentos ("You phony prick fraudulent motherfucker. Do something! Come on! Prove it! Fuck faith! Earn it!"), que este se manifeste, prove sua existência, dê-lhe algum motivo para prosseguir. Basicamente, sem nenhuma ironia, o personagem esculacha o Criador em busca de motivação. Ante a ausência de resposta, Ottway mostra mais uma vez que não é dado a frescuras. Ele resmunga, exausto, "Foda-se! Eu mesmo vou fazê-lo"; coloca seus negócios em ordem, organizando, cuidadosamente, as carteiras de seus falecidos irmãos de armas e...


Cacete! Minha reação inicial a essa cena foi: "Caralho! É assim que um homem de verdade enfrenta a morte: partindo pra porrada com um lobo imenso, munido de uma faca e um soco inglês improvisado com cacos de vidro!" Mas a cena final também torna Ottway um personagem muito mais interessante: no início do filme, ele não está aguentando uma dor-de-cotovelo - está de luto! Ele não levou um chega-pra-lá da amada - ela morreu, doente, em um hospital e, por algum motivo, Ottway está convencido de que a desgraça é culpa de sua própria má-sorte. Assim, fica muito mais fácil se identificar com o personagem e o fato de Liam Neeson ter perdido sua esposa em circunstâncias semelhantes apenas torna Ottway mais convincente. Ademais, combinada com a já citada cena do "I'm done" do Diaz, o desfecho do filme revela a verdadeira história que se passou: trata-se da crônica dos últimos dias de um homem que não tem mais qualquer vínculo com a humanidade, que não tem mais razões para viver, mas deseja abotoar seu paletó com dignidade. E consegue: um indivíduo religoso pode entender que Deus atendeu o apelo de Ottway, concedendo-lhe a oportunidade de morrer como um homem. Lutando com o macho alfa da matilha! Não sei você, mas esse é um fim que eu teria orgulho de encarar.

Trata-se, portanto, de um filme fodástico, que recompensou minha fé em Joe Carnahan e confirmou a posição de Liam Neeson como meu herói. E agora, que resta fazer? Eu, partircularmente, não acharia inviável fazer uma sequência. Já imagino até o título: The Grey 2: Another Motherfucking Fray. A trama envolveria, naturalmente, um Ottway zumbi que acaba pegando mais um vôo e o avião cai, desta vez, sobre o Atlântico (seria um roteiro autobiográfico, como os memoirs do James Frey). Mas como matar um Liam Neeson que já está morto? O Ottway-zumbi acabaria ajudando os sobreviventes a... eh... continuar sobrevivendo... e lutaria com tubarões. Isso mesmo: uma sequência de The Grey, só que desta feita, com um zumbi lutando com um cardume de megalodons.

Acredito, porém, que minha idéia não será levada adiante, por incrível que pareça. Mas, verificando a IMDB, percebo que não há motivo para tristeza: estão fazendo Taken 2, o que significa mais porradas desferidas por Mr. Neeson. E o próximo projeto do Joe Carnahan é... PUTA MERDA! Killing Pablo, uma adaptação do livro homônimo de Mark Bowden que narra a história verídica da união agentes americanos, policiais colombianos e um grupo de justiceiros (composto - é sério - de parentes de vítimas do Cartel de Medellin, com apoio financeiro e logístico do Cartel de Cali) que logrou (o título é não é muito sutil) dar cabo do legendário supervilão Pablo Escobar. Cara, minha barba cresceu só de ler isso. O que me conduz ao próximo tópico: Liam Neeson, Pierre Morell e Joe Carnahan conseguiram resolver quase todas as minhas queixas quanto ao herói de filmes de ação contemporâneos, com exceção de uma exigência, a saber, POR QUE A SOCIEDADE DESPREZOU A SUPREMACIA DO BIGODÃO BADASS? Tudo bem, o Ottway tem barba e bigode, mas não é a mesma coisa: trata-se apenas de uma barba por fazer oriunda de desleixo e/ou conveniência climática.

Putz... Esqueci novamente...


Ladies and gentlemen, Mr. Ra's Al Ghul! Prova de que, apesar de tudo, a humanidade ainda tem salvação. Especialmente quando se considera que o Arnoldão vai voltar ao cinema em 2013. Só me resta esperar que a Genesis Rodriguez dê uma de Halle Berry e "acidentalmente" tire a roupa em The Last Stand. É improvável, mas nada é impossível. Exceto morder o próprio cotovelo. E a própria testa. Na verdade, há várias coisas impossíveis, mas a Genesis Rodriguez sem roupa não é uma delas. Não é pedir demais.

domingo, 12 de agosto de 2012

Meu Novo Herói

Há alguns anos, ao discorrer sobre minha inexplicável paixão por Terminator Salvation, acabei lamentando, saudoso, pelo desaparecimento quase que total de filmes de ação em que os homens eram homens e as mulheres eram gostosas e andavam no banco de passageiros. E a última assertiva não é machista - determinada opinião sobre gêneros não é preconceitusoa quando baseada em fatos cientificamente comprovados. Onde estavam aqueles protagonistas que sentavam a porrada sem nenhum conflito psicológico e me faziam pensar "Puta que o pariu! Quero ser igual a esse cara quando crescer"? Por que, de nove em cada dez filmes de ação que são lançados, o "artista" não convence que seria capaz de derrubar a mim com uma pancada, quanto mais o vilão? Por que, quando vejo um desses intrépidos heróis utilizar uma arma de fogo com sucesso, penso "Bullshit. Só o coice teria feito esse mané cair"? Por que (ao invés de Charles Bronson, Burt Lancaster, Gregory Peck, Roy Scheider, Franco Nero, Maurizio Merli ou... putz... vá lá, até aquele cara do Manhunter, cujo nome não me recordo agora, mas era massa e acabou no CSI) o herói de ação contemporâneo, com raras excessões (e.g., Jeremy Renner), lembra menos aquele sujeito que você teria medo de abordar (em razão  de sua eterna carranca ou expressão de melancolia ensejada pela desilusão com a brutal realidade que o cerca) e mais o Rauã, aquele metrossexual que passa todo o tempo livre na academia, mas não duraria cinco minutos num canteiro de obras? POR QUE A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL REJEITA A SUPREMACIA DO BIGODÃO BADASS?!

Recentemente, vi Busca Implacável (Taken) e A Perseguição (The Grey) e cheguei a três conclusões: 1) as distribuidoras não tem a menor criatividade na hora de elaborar títulos nacionais para filmes de ação; 2) Narc não foi um engodo; e 3) ainda há esperança. No que tange ao primeiro quesito, tenho que admitir que não foi exatamente a primeira vez que tal peculiaridade me ocorreu, de modo que só cheguei, de fato, a duas conclusões. Falarei sobre o item 2 posteriormente, quando abordar The Grey. O terceiro quesito, contudo, foi espantoso. Eis o o cara hardcore que finalmente me trouxe algum alento:

Isso mesmo: o Schindler. Liam Neeson foi o protagonista plausível que restaurou minha fé no cinema de ação contemporâneo. O ator que interpretou o Jedi debilóide Qui-Gon Jinn me fez parar e exclamar, perplexo: "Esse cara é muito foda!"

"Peraí", um leitor atento poderia observar, "Taken foi lançado há uns quatro anos. Kurt, você é uma besta quadrada. Esse post só demonstra que você está completamente alienado do mundo real." No que tange aos dois últimos comentários, só posso mandar tal leitor ir se foder. Filho-da-puta escroto... Mas, de fato, levei bastante tempo para ver Taken, basicamente porque, quando vi a sinopse do filme, pensei: "Argh! Mais um ator decente que, chegando à terceira idade, tendo perdido o caminha verdadeiro, encontra-se em floresta tenebrosa e resolve trabalhar em filmes de ação vagabundos pra pagar as contas."

O tempo passa, eu vejo O Cavaleiro das Trevas Ressurge e lembro: "Hmmmm... Em Batman Begins, o Neesom fez papel do Ra's Al Ghul e deu uma série de pancadas convincentes num Christian Bale hipertrofiado. E foi o cara que treinou o Batman do Nolan. Tinha esquecido essa." Intrigado, decidi dar uma segunda chance à idéia de "Liam Neeson - Action Hero". Vi Taken e minha impressão foi "Caralho! Esse filme é muito massa. O cara realmente convence." Mas foi The Grey que tornou o irlandês meu novo herói e role model - um homem solitário, amargurado, deprimido, sem razões para viver após perder tudo que dava sentido a sua existência, mas capaz de encontrar dignidade e redenção matando lobos na base do baculejo (e a última parte, surpreendentemente, não é uma metáfora). Elucidarei tal constatação com mais um (ou talvez mais de um; vou decidir à medida que for escrevendo) post interminável.



Comecemos por Taken. A máxima de que "brevity is the soul of wit" (algo como "concisão é a alma da sagacidade") pode ser uma armadilha. No caso em tela, graças a tal máxima, li a trama do filme (em síntese: "espião aposentado é forçado a voltar à ativa quando sua filha adolescente é raptada por traficantes de escravas sexuais"), pensei que era mais uma baboseira cheia de clichês (mais especificamente, fiquei com a impressão que o Liam Neeson estava tentando embarcar na onda do "geriaction") e descartei imediatamente. Ocorre que Taken só é cheio de clichês quando analisado de forma muito superficial. Tome-se o personagem do Neeson, Bryan Mills. À primeira vista, o cidadão é um lugar-comum encarnado: espião aposentado, tentando se aproximar da filha adolescente e enfrentando sérias dificuldades, que incluem uma ex-mulher dondoca e (em minha opinião) bastante escrota (a menina é mimada pra caralho, graças à genitora) e a concorrência de um padrasto milionário. Tipo de história que já era manjado quando John McClane fez sua visita ao Nakatomi. Mas, como diz outra máxima, Deus (ou o diabo, conforme a versão) está nos detalhes. Impende examiná-los.

Em primeiro lugar, o Mills não é o tipo de personagem que está too old for this shit: fica evidente que ele gostava bastante e sente falta da profissão, como se pode inferir de uma cena, no início do filme, em que o véio faz um churrasco com amigos e ex-colegas de espionagem. Também fica evidente que ele não foi o pai ausente típico do gênero: a filha do rapaz é um patricinha, sem dúvida, mas sua relação com o protagonista é bastante carinhosa e saudável. Foi tal relação, aliás, que o fez largar a espionagem: o filme deixa claro que todo mundo sabe (e entende) que ele se aposentou para poder passar mais tempo convivendo com a manceba (não sei se isso é uma palavra, mas se temos uma "presidenta", eu me reservo o direito de escrever "manceba". Não vou olhar no dicionário, nem, se for o caso, corrigir. Você não pode me obrigar.). E surpreendentemente, o padrasto (Xander Berkeley, o Waingro original) da menina não é um pentelho intragável. Ele é podre de rico e não hesita em dar à enteada presentes muito além das posses do pai biológico, mas em momento algum fica a impressão de que faz isso para tentar sacanear com este: a relação entre os dois é civilizada e, quando finalmente chega a hora do baculejo, o postiço não cria confusão, não tenta meter o bedelho onde não entende e colabora. O problema é a mãe da moça (Famke Janssen, que continua altamente comestível), que mima a menina e ainda guarda ressentimento do ex-marido ausente - noutro giro verbal, mesmo tendo morrido no terrível X-Men do Brett Ratner, ela ainda acha que é a Dark Phoenix.


A merda toda começa quando a pirralha, Kim (Maggie Grace), resolve viajar para Paris com uma amiga de... patricices... eu não sei o que adolescentes ricas fazem hoje em dia. Lêem Crepúsculo, Hunger Games e escutam Justin Bieber? Sei lá. Enfim, a mãe não faz objeção, mas a jovem é menor de idade e, portanto, precisa de autorização do pai para viajar. Mills, que bem sabe, graças a sua vida pregressa, que o mundo é um pesadelo cheio de coisas assustadoras, não gosta muito da idéia, mas acaba cedendo, graças a muita manha da garota e manipulação sacana da ex-mulher. Tarde demais (quando está deixando a filha no aeroporto), o bem-intencionado cidadão descobre que a menina não está embarcando numa inocente jornada destinada a enriquecer sua bagagem cultural com tudo que Paris pode oferecer: o verdadeiro objetivo da pentelhinha (com a conivência da mãe) é seguir o U2 numa tour pela Europa. Este é, sem dúvida, o momento mais implausível do filme. Ainda existem adolescentes que escutam o U2? O Bono ainda não se aposentou para se dedicar em tempo integral a fingir que se preocupa com causas humanitárias e tentar convencer todo mundo que não é, como foi cabalmente demonstrado por Matt Stone e Trey Parker, um excremento em forma de gente? Eu não engoli. Aparentemente Luc Besson e seu co-roteirista, Robert Mark Kamen, ainda vivem num universo alternativo onde a cultura pop é a mesma dos anos 1980 e 90. Só que, infelizmente, sem Nirvana e Pantera. Mas eu divago. O importante é que Taken deixa, aqui, uma lição importante: ouvir as merdas do Bono pode ser uma caminho sem volta a um destino pior que a morte. Retornemos à narrativa.

Chegando em Paris, as duas (em especial a amiga de viagem da Kim, Amanda), começam a sacanear. A filha do protagonista, descumprindo tudo que havia acordado com o pai (ligar assim que chegasse no aeroporto, depois que chegasse na casa aonde vai ficar [supostamente com primos da Amanda] e todas as noites antes de dormir). Vá lá, eu já fui adolescente, entendo que é um saco ficar enviando relatório aos pais sobre cada passo dado, mas, mesmo assim, sacanagem. Na fila para pegar o táxi, as duas aceitam rachar a condução com Peter, um jovem francês mais suspeito que uma prostituta com pomo-de-adão. Como raios ele sabia que o trajeto das duas coincidia com o dele? Nenhuma das duas falou. Ele pediu para dividir o táxi sem nem perguntar aonde elas estam rumando. Normalmente, eu consideraria isso um buraco no roteiro: é óbvio que as duas deviam desconfiar. Mas sejamos realistas: meninas adolescentes costumam ser otárias pra caramba (elas lêem Crepúsculo, The Hunger Games, escutam Justin Bieber e, neste caso específico, acompanham a turnê do Bono). É perfeitamente verossímil que tenham caído na lábia do sujeito infra. E agora ele sabe onde elas estão. Este indivíduo:

Presume-se que as meninas não viram O Albergue.

Entrementes, Mills está atormentado, já que (conforme verificado em ligação à companhia aérea), sabe que o vôo da filha já chegou e esta, ao contrário do prometido, não ligou. Depois de muito remoer, ele liga para a pimpolha. Esta já está na casa dos primos da amiga (os quais foram para Barcelona, com conhecimento prévio da tal Amanda, deixando as duas sozinhas) e o Mills, compreensivelmente, está dando um puxão de orelha na filha quando esta vê, pela janela, um bando de caras invadirem a casa e atacarem sua amiga. Percebendo o que se passa, entra em funcionamento, com fantástica eficiência, o spy mode do Mills, que conecta o celular a um gravador, instrui a filha a se dirigir ao dormitório mais próximo e se esconder embaixo da cama. Após o cumprimento das ordens, o espião aposentado explica à desaconchegada jovem que 1) ela vai ser, inevitavelmente, levada; 2) que deixe o celular em posição onde ele possa escutar o que está se passando; e 3) que ela terá um lapso de 5 a 10 segundos para gritar a descrição física dos invasores.

Os bandidos chegam ao quarto, carregam a menina - que grita o que consegue ver ("1,80m, barba, tatuagem na mão direita, lua e estrela"). Em seguida, silêncio. Pelo barulho de respiração, Mills percebe que que um dos sebosos pegou o celular da menina e resolve fazer uma proposta. E ocorre o já manjado monólogo ameaçador (que acabou se tornando, editado, parte do poster do filme), é recitado de forma fodasticamente badass pelo irlandês:


"Eu não sei quem vocês são. Eu não sei o que vocês querem. Se querem resgate, aviso que não tenho dinheiro. O que eu tenho é um conjunto muito especial de habilidades. Habilidade adquiridas durante uma longa carreira. Habilidades que me tornam um pesadelo para gente como vocês. Se vocês libertarem minha filha agora, a história acaba aqui.  Eu não vou procurá-los. Não vou perseguí-los. Mas, se vocês não libertarem, eu vou procurá-los. Eu vou encontrá-los. E eu vou matá-los."

Resposta do bandido (tomando a pior decisão de sua vida): "Boa sorte."

E Bryan Mills (a partir deste parágrafo, SPOILERS, para quem ainda não viu o filme. Também para quem ainda não viu o filme: vá assistir agora. Sério. Veja o filme e depois volte aqui.) passa o restante da duração do filme fazenda exatamente o que ele ameaçou fazer: ele procura, encontra e mata os  sequestadores.

Sua primeira atitude é entrar em contato com o colega de espionagem Sam (Leland Orser, que já vi em vários filmes, mas não consigo lembrar de nenhum), que analisa a ligação telefônica gravada e chega às seguintes conclusões: os sequestradores são albaneses que sequestram turistas, viciam-nas em drogas e as tornam escravas sexuais (geralmente prostitutas, mas há excecões); o cara com quem Mills falou se chamava Marko e provavelmente é oriundo de uma cidade chamada Topoja; e, a partir do rapto, Mills tem uma janela de 96 horas para achar a garota ou nunca mais encontra-la novamente.

Com a ajuda do padrasto da menina (que, como já referido, é podre de rico e providencia um vôo particular), o inconformado genitor da patricinha em perigo chega em Paris. Lá chegando, Mills consegue entrar na casa onde a filha foi raptada, encontra o que sobrou do celular da menina (incluindo o cartão de memória) e, analisando as fotos gravadas, consegue descobrir uma foto das duas, tirada pelo Peter, onde é possível ver o reflexo deste num painel. Pois é, o homem sabe o que está fazendo. Então, com a sutileza de um pugilista irlandês em Paris, nosso herói resolve ir até o aeroporto, onde Peter e um colega estão observando os desembarques, em busca de novas vítimas. E é a partir daí, amigos, que o Mills começa a mostrar que não é um homem dado a procrastinação. Munido de informação, ele resolve aprofundar suas investigações de forma simples e eficaz. Eis o que acontece quando ele localiza o marginal Peter:



Lamentavelmente, o escrotinho consegue fugir e ser atropelado antes que emputecido herói consiga localizá-lo. Mills, resolve, então, solicitar a ajuda de um velho colega da comunidade francesa de espionagem, Jean Claude, que indica onde ele pode encontrar bandidos da quadrilha albanesa. Nem corre com facilidade, resultando numa perseguição que, embora sofra das tremedeiras comuns a filmes de ação contemperâneo, não é das piores (leia-se: a câmera treme, mas ao contrário do que ocorre, digamos, na abertura de Quantum of Solace, dá para entender o que está acontecendo). A cena, apesar de não ser extraordinária, tem pelo menos um "momento mágico":



Puta merda! Ele, sem nenhuma cerimônia, atropelou uma picape! Tendo resgatado uma das vítimas da gangue, Bryan Mills logra descobrir o último lugar onde a Kim foi vista. Usando o cartão de visitas do Jean Claude, ele adentra o local, fingindo ser um policial corrupto cobrando arrego (e constatando que o Jean Claude está envolvido com o esquema, é uma filho-da-puta corrupto e não é seu amigo coisa nenhuma). Lembrando-se do "boa sorte" que ouviu no celular quando a filha foi raptada, ele identifica um dos criminosos que estava presente durante o ato delituoso. O que conduz a outro momento mágico:




Por que é um "momento mágico"? Trata-se de algo sutil, quase imperceptível, mas confere um grau de verossimilança hábil a tornar a cena melhor que a média. Após identificar o bandido (Marko), mas antes de partir para o ataque, Mills, durante alguns segundos, dá uma olhada no ambiente (Analisando os arredores! Como ele ensinou ao Batman!) Quando eu vi o filme pela primeira vez, minha esposa achou meu entusiasmo com esse detalhe meio sem propósito. De fato, o Pierre Morel não é nenhum monumento à genialidade cinemtagrófica. Ele é um diretor rezoável. Mas, só por esse detalhe (que costuma passar batido na maioria dos filmes, que costumam partir, sem qualquer semblante de plausibilidade, direto para a truculência), o francês já ganha pontos. E o momento, no final do vídeo, em que ele se finge de morto por alguns segundos e consegue matar dois marginais com tal artimanha também é ótimo. É aquele tipo de coisa que me faz dizer, "No lugar dele, eu teria feito exatamente isso!"

Segue-se vários sólidos momentos do Liam Neeson quebrando o pau com admirável eficiência, até finalmente matar todos os bandidos do prédio. Menos o engraçadinho do Marko. O do "boa sorte". Referido comediante protagoniza, à mercê do espião de pijama,, a segunda cena mais famosa do filme. A cena de tortura. Porque poucas coisas me divertem tanto (e ao público em geral - não finja que não gosta, porque, se a maioria das pessoas não adorasse ver bandido sofrer, os dois Tropa de Elite não teriam sido sucesso de bilheteria) quanto ver um bandido tomar lá onde os raios solares não alcançam. O que me leva, finalmente, a chegar a uma conclusão sobre o personagem do Neeson: ele não é um "bom espião"(se é que tal coisa existe) forçado a agir de forma truculenta por amor à filha. Ele é um filho-da-puta sádico. Não comentei a cena, mas, no início do filme, quando está sendo levada ao aeroporto, a Kim tem um diálogo com o pai, no qual confessa que desde criança queria saber qual era o verdadeiro trabalho do véio, mas tinha medo de perguntar. Mills explica que não era um "espião", era um "preventor". Em outras palavras, explica, sua profissão consistia em "impedir que coisas ruins acontecessem". "Era um bom trabalho?" pergunta a filha. "Sim", retruca Mills. "Você sente falta?", questiona Kim. "Eu sentia mais a sua falta", replica o protagonista, evidenciando, em outras palavras, que sim, ele sente falta de sua atividade laborativa. Ocorre que, após o rapto da moça, o cidadão passa o tempo todo deixando claro que seu trabalho implicava em mentir, dar porradas, dar tiros, matar e (agora) torturar gente. E ele faz isso tudo na maior naturalidade. Na verdade, fica a sensação de que o Mills nem está saindo da rotina. Ele não demonstra prazer quando tem que fazer o baculejo, mas também não demonstra qualquer desconforto ou hesitação. Só ódio e, ocasionalmente, uma certa impaciência (do tipo "Porra, pare de me fazer perder tempo e diga logo o que eu quero saber!"). A cena em que tortura o Marko não foge da regra. Ao eletrocutar o rapaz, ele profere uma detalhada dissertação sobre as virtudes do fornecimento de energia elétrica na França e as dificuldades de torturar com eletricidade em países de terceiro mundo (em razão da instabilidade das redes elétricas). Em seguida, eletrocuta novamente o rapaz e (com a mesma impaciência que já mencionei) aduz que "se você não me disser o que eu quero saber, este interruptor vai ficar ligado até cortarem a eletricidade por falta de pagamento da conta". Finalmente, quando o Marko diz o que ele quer saber...



HAHAHAHAHAHAH... Isso foi muito massa! Bryan Mills é um homem que cumpre suas promessas. Mas, a sério, o Neeson é extremamente convincente como torturador. Ele não parece estar torturando uma pessoa, mas fazendo um relatório chato e impaciente com o colega de trabalho que empurras as coisas com a barriga. Tal fato conduz à seguinte indagação: como é que, trabalhando como "preventor", ele aprendeu essas "habilidades especiais"? Francamente, o Mills não me parece um sujeito que "impedia coisas ruins". Parece aqueles agentes da CIA que, nos tempos das ditaduras militares, vinha à América do Sul ensinar métodos de tortura. E ele, cumpre reiterar, adorava o trabalho. Não enferrujou nem um pouco depois da aposentadoria. A maioria dos espectadores tende a não atentar para isso (como certamente era a intenção do diretor e dos produtores), porque, afinal, o cara está tentando salvar a filha de uma quadrilha de filhos-da-puta que sequestram turistas para cafetinar ou vender como escravas sexuais (tendo a filha do Mills se enquadrado na última categoria). Mas será que, durante sua "longa carreira", ele só lidou com circunstâncias e pessoas desse gabarito?


O que nos conduz à próxima cena: sabendo quem "comprou" sua filha, mas não como localizá-lo, Mills vai à casa de seu ex-amigo Jean Claude, utilizando métodos drásticos para persuadi-lo a colaborar:



Aparentemente, o trabalho de "prevenção" inclui atirar em mulheres inocentes e indefesas. Concorda que isso é um "bom trabalho"? Sim? Então, procure um psiquiatra, porque você provavelmente é um sociopata. Não estou dizendo que isso é, necessariamente, negativo, nem impede o espectador de se solidarizar com o personagem. Meu argumento é que Neeson está interpretando um personagem mais complexo do que se pensa. Um personagem que, nem de longe é o manjado bom sujeito forçado a partir para a violência a fim de salvar um ente querido, mas, talvez, um troglodita que apela para os métodos mais extremos possíveis simplesmente por que é assim que ele resolve as coisas. O que funciona. E o espectador, em momento algum, deixa de se identificar com tal personagem.

Enfim, o puto do Jean Claude entrega tudo e Bryan Mills, após matar toda a máfia albanesa, além de alguns franceses e árabes, salva sua filha e todos vivem felizes para sempre. Menos, é claro, os caras que ele matou, mas, convenhamos, eram um bando de filhos-da-puta que mereciam. Fuck those guys.

Primeiro, vamos às críticas: o roteiro não tem nada de inovador e o Morell não é nenhum Friedkin - as cenas de ação são boas, mas ainda prefiro o estilo Napoli Violenta ou Operação França: se você elaborou uma cena de perseguição foda, filme-a de uma maneira que o espectador possa acompanhar sem ficar confuso. O diretor de Taken não entra muito na onda da shaky-cam (ou seja lá como chama essa porra), mas por pouco. Podia ser muito melhor. Se colocassem um roteiro desses na mão de alguém como o já referido Friedkin, Peckinpah ou mesmo um John Woo ou Enzo Castellari, ficaria fuderoso. Afinal, quem inventou essa merda de videoclipeiro? Ok, pergunta idiota. Resposta: provavelmente, algum videoclipeiro. Mas isso não é motivo para utilizar a mesma técnica em filmes de ação. Ora, o David Fincher era um videoclipeiro e ele não tentou usar essas baboseiras no cinema. Sinceramente, acho que o melhor filme da série Bourne foi o primeiro, porque, ao contrário dos outros dois, não foi dirigido pelo Paul Greengrass, que insiste em ficar sacudindo a porcaria da câmera em toda cena de ação. Eu gostei de Supremacia e Ultimato, mas foi impossível não imaginar que "teria sido muito melhor se deixassem essa tremedeira de lado e filmar direito, como fizeram no primeiro". Um dos motivos de eu ter adorado o "reboot"do 007 foi o fato de que, em Casino Royale, as cenas de ação foram dirigidas com total clareza - eu não precisei ficar me esforçando para entender o que estava acontecendo em virtude de supostas "sofisticações" de diretor pretensioso. Mas, ladainhas à parte, Taken não incorre muito nesse pecado. E o sotaque americano do Liam Neeson é ok, mas ele ainda se enrola de vez em quando. Podiam ter resolvido isso de forma simples: bastava inventar que o cara tinha trabalhado no MI6 e pronto: ninguém precisa mudar o sotaque. Não vejo qual seria o problema - o Sean Connery raramente tentou mudar cheu eshtilo eshpecial de falar. Mas nada demais. Então por que eu me empolguei tanto com esse filme? Simples:

Como já falei, Liam Neeson. Sem nenhuma boiolagem, o irlandês é meu novo herói. Eis um senhor adentrando a terceira idade, sem físico de marombeiro, mas que convence plenamente ser capaz de quebrar o pau sem pestanejar. Um cara que, apesar de não ter a massa muscular do Vin Diesel ou do Dwayne Johnson, possui uma voz de comando que (como observou a "crítica profissional de cinema" Isabela Boscov) consegue derrubar os dois. Um homem que, como o Daniel Craig (único 007 que digno de ser sucessor do Connery, que, naturalmente, é um exemplo clássico do homem de verdade que citei no início do texto), não suscita incredulidade quando leva uma porrada, não cai e retribui a gentileza com um chute nos bagos ou um tirambaço na cara do antagonista. Um cidadão que, como qualquer ser humano prosaico,  ama a filha, não dispensa o churrasco e a cervejinha com os amigos, mas também não pensa duas vezes antes de quebrar os braços de um cara que, apesar de ter o dobro de seu tamanho, não tem sua técnica e experiência. Enfim, um badass.

Claro que contemplei a possibilidade de esse filme ter sido uma coisa feita pelo ator só para pagar as contas. E é aí que chego ao segundo alicerce de meu novo entusiasmo por Mr. Neeson:

Continua no próximo post...